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Quinta-feira, Setembro 23, 2021

Arte do chocalho à espera de ser classificada Património Mundial

Chocalhos 001
Luciano Sim Sim, um dos mais jovens chocalheiros do país

Com 32 anos de idade, Luciano Sim Sim é, seguramente, um dos mais jovens chocalheiros do país. A média etária dos profissionais deste ofício é superior a 70 anos e não há muita gente nova a querer aprender os seus segredos. Daí que a arte de fabricar chocalhos esteja em risco de desaparecer.

Foi exactamente para combater essa perspectiva que o Turismo do Alentejo, em conjunto com a Câmara de Viana do Alentejo e a freguesia de Alcáçovas, resolveu, o ano passado, avançar com o pedido de classificação da Arte Chocalheira como Património Cultural Imaterial com Necessidade de Salvaguarda Urgente. A candidatura foi aceite pela UNESCO e, se tudo correr bem, espera-se que em Novembro o processo esteja fechado e o selo atribuído.

Alentejano de gema, há cerca de três anos que Luciano Sim Sim se instalou na Ereira (concelho do Cartaxo, Ribatejo), a convite de Artur Silva, um homem ligado à arte da correaria, que queria acrescentar mais este produto ao seu portefólio. O problema é que o fabrico de chocalhos tem muito que se lhe diga, é preciso conhecimentos, arte e saberes que Artur não possuía. Daí que só após conhecer e conseguir convencer Luciano é que teve condições para avançar com o projecto. Luciano faz parte de uma família desde há muito ligada a esta actividade, mas curiosamente, “não aprendi o ofício com eles, mas com um amigo e dedico-me ao ofício desde há cerca de 16 anos”.

Dia de trabalho começa de madrugada

O processo de fabrico de chocalhos começa com um mero rectângulo de metal, que vai sendo moldado por Luciano, através de marteladas e mais marteladas, até ganhar a forma pretendida. O chocalheiro repete a operação centenas de vezes ao longo do mês com outros tantos pedaços de metal. A fase seguinte consiste em envolver os projectos de chocalho em papel e numa massa de barro e deixar secar.

Mas ainda há muito trabalho a desenvolver até que o processo esteja concluído. Uma das fases decisivas e que dá mais trabalho é a da fundição que só avança quando há material suficiente que justifique ligar o forno. O dia de trabalho começa bem cedo, ainda de madrugada e desenvolve-se até praticamente à noite. Só para que o forno atinja a temperatura necessária de 1200 graus centígrados é preciso esperar cerca de duas horas.

Umas marteladas finais para afinar o som

Devido ao intenso calor que se faz sentir nas imediações daquele equipamento, para proceder à colocação e retirada dos chocalhos no forno é necessário vestir um fato que, brincam os amigos que ajudam no processo, faz com que Luciano “mais pareça um astronauta”. Mal saem do forno, os chocalhos são rebolados no chão, depois colocados em água fria, após o que se parte a massa que envolve os chocalhos e se avança para a fase seguinte, a do polimento. Para que fique o trabalho concluído, é apenas necessário que Luciano lhes dê umas marteladas finais para afinar o formato e, sobretudo, o som. Ah, e convém não esquecer de colocar o badalo.

Os chocalhos já tiveram maior saída. Com a perda de importância da agricultura, a diminuição do número de animais a pastarem ao ar livre e das áreas que percorrem, foi também sendo menor a necessidade deste tipo dos chocalhos que são usados para lhes colocar ao pescoço, de forma a que seja possível ao pastor descobrir qualquer animal tresmalhado.

Sem grande concorrência

Ainda assim, Artur e Luciano não se queixam do negócio. Com a queda da procura, diminuiu também drasticamente o número de produtores. Daí que a concorrência destes dois jovens não seja grande. “Estamos muito satisfeitos com a receptividade que temos tido”, diz Artur Silva, que vende toda a produção em diversos pontos do país e também para Espanha. Por vezes, o que lamenta é não ter capacidade para produzir mais e até evita, por isso, ir à procura de novos clientes.

Apesar de ser uma arte em risco, o fabrico de chocalhos ainda marca presença em pequenos núcleos, um pouco por todo o país. Há chocalheiros em Estremoz, Posto Santo (Açores), Ereira, Tomar, Reguengos de Monsaraz, Viana do Alentejo e Alcáçovas. Esta última localidade é, aliás, considerada a “Capital da Arte Chocalheira”, devido à forte tradição que o ofício aí tem e por albergar o Museu do Chocalho. O maior certame relacionado com esta actividade também tem lugar em Alcáçovas. Trata-se da Feira do Chocalho que se realiza todos os anos, no mês de Julho.

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