Diário
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João de Sousa

Quarta-feira, Dezembro 8, 2021

As trincheiras

(a propósito da transição)

Viajávamos calmos e serenos olhando para a paisagem que se estendia pela rota, sinais persistentes de crescimento e evolução eram notáveis e a cada quilómetro uma maravilha com sabor a independência, paz e firmamento, terras virgens mostravam a prontidão de quem espera a sua vez para contribuir para o engrandecimento do país.Íamos calados, às vezes inspirávamos, outras vezes tecíamos comentários breves sobre o que víamos e comparávamos as exóticas beleza das terras virgens com as de outras “desvirtuadas“ pela fome do progresso. Quando o tio Simonal olhou para a berma com uma nostalgia que contrastava a satisfação e o sentimento de dever cumprido. Apontou para lá da estrada e perguntou-me:

– Sabes o que são aqueles buracos?

– São ravinas. Respondi prontamente agressiva, pois o parasita revolucionário havia sido despertada com uma pergunta tão “absurda”… São ravinas e o governo não faz nada para melhorar e ainda correm o risco de um dia afectar a estrada.

Ele ouviu-me calmamente sem me interromper e sorriu perdoando a minha inocência.

– Não são ravinas, são cicatrizes…

– Sim filha, são trincheiras, as cicatrizes de uma guerra que quase mutilou este país. Escondíamo-nos neste buracos, para não sermos detectados pelos inimigos, estes mesmos inimigos que hoje são nossos amigos e lutam afincadamente para construir e reconstruir o que andámos a destruir. Foram tempos difíceis e hoje viajo seguro neste autocarro, por uma estrada que antes foi um campo de batalha. Hoje, com o passar do tempo, as feridas sararam e estas cicatrizes testemunham que nunca cruzámos os braços por terra que é nossa por direito. Contou-me dos tempos como militar e os caminhos que trilharam e as situações que viveram. Hoje com 67 anos, reformado, respira com orgulho este ar que ele mesmo conquistou.

– Tivemos um bom pai, sublinhou…

Como?

– O nosso líder foi firme e persistente, não parou enquanto não viu este país em paz e os irmãos unidos como um só povo, uma só nação. Lutou até que conseguiu uma Angola em paz, uma Angola próspera e confiante.

Ouvi-o em silêncio enquanto ele tecia grandes elogios para quem ele chamou de arquitecto da paz e impulsionador do progresso. E os defeitos? Arrisquei a perguntar…

– Defeitos temos todos, minha filha. Senão não seriamos humanos.

E agora estamos preparados para a transição, brevemente um novo dirigente tomará posse, vamos orar para que ele seja um humano.

A autora escreve em PT Angola

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