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Terça-feira, Julho 5, 2022

Bacurau resgata o Brasil que tem tudo para dar certo

Marcos Aurélio Ruy, em São Paulo
Marcos Aurélio Ruy, em São Paulo
Jornalista, assessor do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo

A polêmica causada pelo filme Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, apenas comprova a sua qualidade. Muita gente escreveu sobre a obra cinematográfica que desperta a consciência do Brasil escondido sob os escombros do obscurantismo bolsonarista no poder do Estado brasileiro, neste momento.

As referências dessa obra-prima são muitas e atingiu em cheio o gosto de um público meio adormecido e anestesiado por tanta desinformação transmitida diariamente por uma mídia torpe e antinacional. Para eles, só tem valor o que vem de fora, sejam produtos industriais, manufaturados ou culturais.

Sucesso de público, Bacurau é a reafirmação do Brasil que tem tudo para dar certo, mas não dá porque a elite branca deste imenso Portugal não se sente pertencendo a este lugar e apoia teses genocidas de aniquilamento dos mais pobres. Todos com as mãos sujas de sangue de crianças mortas por “balas perdidas” sempre encontradas nos corpos de crianças pobres, invariavelmente negras e sempre indefesas.

O filme deixa explícita essa questão quando os personagens cariocas que ajudam os “invasores” norte-americanos dizem que são iguais a eles. Recebem zombaria e balas. Jorra sangue vermelho como de todos.

Fica claro que essa elite branca só é elite e branca aqui. Lá fora, não passam de cucarachas (baratas, em espanhol) como os norte-americanos enxergam todos os latino-americanos. Aqui são elite, sentem-se elite e estrangeiros, no exterior são vistos como brasileiros, que tanto renegam.

Como nos versos da canção Não Identificado (1969), de Caetano Veloso, a mostrar que a:

“minha paixão há de brilhar na noite
no céu de uma cidade do interior
como um objeto não identificado”.

Um drone feito disco voador bem identificado como inimigo.

Bacurau é um extraordinário remix do imaginário hollywoodiano com a tradição do Cinema Novo brasileiro: a estética da fome, a estética do sonho e a pedagogia da violência de Glauber Rocha com banhos de sangue prêt-à-porter vindos dos filmes de ação e reality shows”, escreve Ivana Bentes.

Mas a violência mostrada para chocar, para denunciar a violência real, sangrenta contra os mais vulneráveis, que tomou conta das ruas, das escolas, dos lares brasileiros. Governadores genocidas que ordenam a atiradores de helicópteros a atirarem contra favelados. Governadores que premiam policiais que matam pessoas, mesmo que sejam inocentes ou já estejam dominadas pela força policial.

O filme brasileiro, que ganhou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes de 2019, chama a atenção para isso. É um convite à ação. Cria um panorama de resistência e de possível vitória, com união e coragem, assim como os vietnamitas derrotaram a maior potência militar do planeta nos anos 1970, os Estados Unidos.

O jornalista e escritor Xico Sá lembra da música Fado Tropical, de Chico Buarque e Ruy Guerra. Na parte em que a poesia diz: “

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal!”

Canção de 1974, ano em que triunfou a Revolução dos Cravos no país europeu, pondo fim à ditadura fascista comandada por Antônio de Oliveira Salazar. E o Brasil estava soba égide de uma ditadura fascista desde 1964 que só acabou em 1985.

Uma imensa Bacurau, repito o refrão, na ideia de sobrevivência, na arte de teimar em ser gente e algum cheirinho de vingança (humanum est) nas ventas. Pego bigu no fado do Chico e do Ruy Guerra para tomar o vilarejo do Velho Oeste pernambucano como exemplo de reação organizada ao tratamento ao plano de extermínio por parte dos gringos invasores aliados ao coronelismo-coxinha do prefeito Tony Jr., na interpretação fria e magistral do ator paraibano Thardelly Lima”.

Os diretores e roteiristas se fiam na canção Réquiem para Matraga (1968), de Geraldo Vandré para encerrar dizendo que:

“Tanta vida pra viver
Tanta vida a se acabar
Com tanto pra se fazer
Com tanto pra se salvar” e se liga: “Você que não me entendeu
Não perde por esperar”.

Bacurau é o Nordeste que é o Brasil que resiste em teimar em ser gente como uma criança responde à pergunta irônica feita pela personagem do Sudeste, “quem nasce em Bacurau é o que?”, a resposta da pureza da sabedoria infantil responde: “Gente”.

É preciso assistir a Bacurau. Um filme para recuperarmos o orgulho de sermos brasileiros, como tínhamos alguns anos atrás.


Texto em português do Brasil


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