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João de Sousa

Quarta-feira, Dezembro 8, 2021

Bâton…

João de Almeida Santos
Director da Faculdade de Ciências Sociais, Educação e Administração e do Departamento de Ciência Política, Segurança e Relações Internacionais da ULHT

Poema, em dez andamentos, de João de Almeida Santos
sobre Rosto, de Filipa Antunes

BÂTON…

I.

Está lívido
O teu rosto!
Cai luxúria
Sobre ti
Se te vejo
Ao sol-posto?

De onde vem,
Tão intensa,
Essa alvura
Que, em teus riscos,
Provocante,
Me procura?

É altivez?
Sim,
Talvez,
Porque olhas
E não me vês
Se passo,
Triste,
A  teu lado
Com a minha
Timidez,
Na rua
Do desencontro…

Alonga-se
O teu colo
Com olhar
Dominador,
Vertical
E tão altivo…
………………
Mas etéreo,
Irreal,
Como se fosse
Castigo!

II.

É véu,
É sangue,
É vinho
Esse rio
Que escorre
E te beija,
Vadio,
Na boca,
Enlaçando-te
A alma
Numa prisão
De volúpia
Ardente,
Intensa
Como torrente
Que desliza
Sobre tua pele
De seda…
…………..
Desde que,
Ontem,
Eu te perdi
Numa vereda…
…………………
Da nossa vida?

III.

Tuas mãos,
Ah!, essas mãos!,
Desenharam-te
Como pecado
Em porcelana,
Como lividez
Irreal,
Alma em cal
Corroída
E em fuga
Da vida
Para um mundo
Venal
Onde te sentes
Perdida,
Afinal…

IV.

Porquê
Esse sangue
Ou vinho
Mosto
Doce
E atrevido
Quente
E espesso
Como libido
Que escorre
Da tua alma
Para mim,
Deste modo,
Assim?

Sentes-te
Gueixa,
Lá dentro
De ti
Na cidade
Proibida…
……………
Desde que,
Ontem,
Eu te perdi?
Abandonada
Em mãos
Que te moldaram
No forno da arte
Ao torno
Da massa
Ou argamassa
E te fizeram
Gueixa
Ou a devassa
Que não és…
Em porcelana?

V.

Porque está
Lívido
Teu rosto?
Não és tu!
Inventaste
Esse perfil
Onde te revês
Na cidade
Proibida
Como eco
Sensual
Do meu desejo
Sideral
De te ter
A meu lado…

VI.

Pecado
Em porcelana!
Sim,
A lividez
De quem ama,
Austera,
Culpa
Mortal
Que redime
Da fria pureza
Irreal,
Quando a divina
Beleza
É rasgada
Por intensa
Volúpia
Carnal…

Barro frágil,
Como o  amor,
Como tudo
O que vive
Com pudor,
Mas ameaça,
Pontual,
A certeza
E a rotina
E quebra
Em mil pedaços
Ao primeiro
Sinal…
De fraqueza
Ou neblina…

VII.

Com que bâton
Pintaste
De tons escuros
Essa alma
Inquieta
E incerta
Que aflora,
Intensa,
Como desafio,
Em tua boca
Sensual?

VIII.

Empunhaste-o,
Esse bâton,
Para desafiar,
Certeira,
Um amor
Que não ousas
Depor
E que  cobres
Com as cores
Vivas
Da tua alma
Em sobressalto?

Sim,
Porque te vejo,
Agora,
Já liberta
Desse rosto
De porcelana,
Num risco
Desenhado
Para onde fugiste,
Solitária,
À procura
De mais um rosto
Que espelhe
A alma
Quente
Que brota
De tuas mãos!

IX.

Vejo-te, pois,
A fumar,
Lânguida,
Com esse bâton
Já gasto
Que transborda
De teus lábios
Carnudos
Ao rubro,
Em preguiça
abandonada,
Pronta
Para te dares,
Não a mim,
Mas sempre,
Sempre
Ao olhar mágico
De tuas mãos
E desse grafite
Com que desenhas
Milagres íntimos
Sobre teu rosto
Tão facetado
E fugidio!

X.

Então pinta-me
Também
Com esse bâton
E leva-me
Contigo,
Meu amor…,
Para lá
De nós,
Livres,
Os dois,
A quebrar
Em mil pedaços
Essa porcelana
Lívida
Do pecado
Com a beleza
Singela
Desse teu
Rosto doce
Que acaricio
Com as palavras
Deste poema!


Ilustração: Sobre um Rosto, de Filipa Antunes

(Junho de 2017. Desenho a tinta da china e pigmentos naturais)

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