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Quarta-feira, Maio 25, 2022

Brasil: Lava Jato atinge Lula e ameaça Dilma

lula-silva
A onda aproximou-se como um Tsunami e levou hoje na enxurrada o ex-presidente Lula da Silva, agravando ao mesmo tempo a situação do já periclitante governo de Dilma Rousseff.

Considerada uma possibilidade há várias semanas, à medida que iam progredindo as investigações da operação Lava Jato sobre a corrupção na Petrobras, a detenção de Lula esta madrugada, na sua casa em São Paulo, por agentes da Polícia Federal, não deixou de ter, ainda assim, o efeito da explosão de uma bomba monumental, com repercussões em todo o país.

Em causa, segundo a Procuradoria-Geral da República, está o eventual favorecimento de Lula e membros da sua família por parte de um núcleo de cinco das maiores empresas de construção do Brasil, já implicadas no esquema de corrupção montado na companhia petrolífera brasileira.

No foco das investigações encontra-se um apartamento tríplex no Guarujá, em S. Paulo, e uma casa de campo, no mesmo estado, que embora não estejam no nome de Lula, as autoridades suspeitam que seja ele o verdadeiro proprietário ou, no mínimo, beneficiário.

Sob investigação estão também as contas do Instituto Lula e da empresa News, que geria as receitas das palestras do ex-presidente. Os principais doadores do Instituto (60%) são as empresas de construção (Odebrecht, OAS, Andrade Gutierrez…) envolvidas no escândalo da Petrobras, sendo também elas que financiaram quase metade das intervenções públicas de Lula desde que deixou a Presidência…

Valores globais envolvidos: cerca de 20 milhões de reais (um pouco menos de cinco milhões de euros) em doações ao Instituto Lula e outros 10 milhões (dois milhões e meio de euros) em patrocínios de conferências.

Lula tinha interposto uma petição no Supremo no sentido deste esclarecer qual a autoridade com competência para o ouvir e ainda aguardava decisão, pelo que a acção da Polícia Federal desta madrugada, compelindo-o com grande aparato a comparecer e prestar declarações imediatas é considerada pelo PT uma “agressão injustificada ao chefe de estado mais popular que o Brasil já teve”.

Fontes próximas de Lula informaram que o ex-presidente “não deixou sem resposta nenhuma das questões que lhe foram colocadas”, e já foi libertado, devendo dar uma conferência de imprensa ao fim da tarde de hoje no sede do PT em São Paulo.

Denominada “Aletheia” (vocábulo grego que significa “à procura da verdade”), a 24ª fase da Lava Jato deu origem a confrontos de rua entre apoiantes e opositores de Lula da Silva, designadamente junto à delegação da Polícia Federal no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, onde foi ouvido hoje de manhã, podendo agora repercutir-se pelo país. O presidente do PT, Rui Falcão, já apelou aos militantes e simpatizantes do partido a “virem para as ruas defender Lula da Silva”.

 

Situação política do governo agrava-se

Embora a PGR e a PF insistam que estão apenas a seguir as investigações a que a já comprovada corrupção na Petrobras deu origem e que “ninguém está acima da lei”, a detenção, ainda que temporária de Lula, tem óbvias repercussões políticas.

O processo de impugnação de Dilma, que o governo tinha conseguido conter, terá agora novo alento, com os partidos da Oposição a posicionarem-se para reactivar o andamento dos trabalhos no Congresso. Vive-se assim em Brasília um clima de agitação permanente, não havendo praticamente dia em que não surjam novas notícias bombásticas, comprometendo esta ou aquela figura do poder e levando a mudanças no executivo.

Há poucos dias, face ao agravamento previsível das consequências da Lava Jato e acusado pelo PT de não conseguir conter a ofensiva da polícia, demitiu-se o ministro da Justiça… Depois, surgiu na media o texto da suposta delação premiada do senador Delcídio Amaral, que havia sido detido sob acusação de estar a tentar dificultar ilegalmente as investigações. Nele, há acusações gravíssimas contra Lula e contra Dilma, que teriam tentado interferir no Poder Judiciário para conter ou limitar as consequências da Operação Lava Jato…

Hoje, foi a intimação de Lula para depor… Tudo isto num pano de fundo marcado pela crise económica, que não dá sinais de abrandar (o PIB encolheu 3,8% em 2015 em comparação com o ano anterior, o pior resultado dos últimos 25 anos) e quando o governo Dilma se mostra cada vez mais incapaz de fazer aprovar medidas de contenção de despesa, contestadas ora pelo próprio PT, que as considera um recuo face às políticas de Lula, quer pela Oposição, que embora concorde com tais medidas, prefere apostar numa linha de quanto pior melhor, vendo no agravamento da crise a oportunidade de chegar mais rápido ao poder…

A tudo isto acresce ainda, segundo algumas fontes, o desentendimento entre Lula e Dilma – ele considerando que ela desbaratou todo ou quase todo o seu legado e ela achando que foi o governo dele, por via dos escândalos de corrupção, o responsável pelas dificuldades que ela hoje enfrenta…

Como cenário de fundo de toda esta guerra, perfilam-se as eleições presidenciais de 2018. Para o PT, a acção de hoje da Lava Jato teria intenção política, visando “desmoralizar o partido e impedir uma recandidatura de Lula”, que ele aliás não exclui… Já para a Oposição, o PT é o principal “responsável pelo desgoverno e o descalabro a que o país chegou”, sendo urgente uma mudança de governo.

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