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Quinta-feira, Dezembro 9, 2021

Carta à minha memória

Filipa Vera Jardim
Mantém o blogue literário “Chez George Sand” onde escreve regularmente.

VIII. Doeu tanto lembrar-me desse dia.

Minha memória,

Doeu tanto lembrar-me desse dia… Foi como se um único acontecimento, num único instante decidisse todo o resto da minha história.

Fiquei sem ar, o chão desapareceu debaixo dos pés, deixei de ouvir e de ver, o céu ficou sem cor e fechou-se todo o universo. Um ar morno e pesado invadiu-me os pulmões e a custo respirei. Foi um minuto apenas e nem poderia ser mais do que isso e a custo respirei… Nesse preciso instante e pelo resto de todos os instantes.

Tinhas saído de casa à pressa. Esperava-te para almoçar. A notícia correu célere como sempre correm as notícias difíceis. Lembro-me de não a ter conseguido ouvir. Ou de a ouvir e pensar que não seria real. Corri de um lado para o outro a tentar inverter o tempo. A curva que te levou não devia ter acontecido. O mar que te levou a seguir não devia ter acontecido. O minuto que te matou era apenas e só isso mesmo, um minuto a que se seguiu outro minuto, de sufoco, de medo, de angustia de olhos perdidos de quem se vai para sempre e, de olhos perdidos de quem se fica para sempre…

Nunca mais consegui segurar-te a mão nem sequer demorar-me nas tuas palavras mansas. Um minuto apenas e minha memória a buscar um passado já inexistente e um futuro, ali mesmo, totalmente desaparecido.

Fique ali, suspensa de ti, na esperança de que nada afinal se tivesse passado…

Lembro-me como se fosse agora porque eu acho que é agora. Há minutos que nos colam à pele pela dimensão enorme do acontecido. Minutos que se nos vestem e se tornam eles próprios a nossa pele.

Esse minuto apagou tudo o resto e para sempre. Nada do que se tinha passado até aí fazia depois disso nenhum sentido. Nada do que se poderia passara partir dali, fazia tampouco, nenhum sentido.

O antes acabara e o depois deixara para sempre de existir.

Fiquei parada à espera, percebo agora, de te recordar. O teu cheiro, o teu riso, a palma lisa da tua mão pousada na almofada. E os teus sonhos e as coisas que me disseste algures… E mais um sorriso.

Doeu tanto lembrar-me desse dia todos os dias. Como se o instante que se tornou pele e presença, por causa disso me marcasse a ferro. Foi a ferro e o fogo desse ferro não se extinguiu jamais… Hoje doeu tanto. Ontem, doeu tanto e amanhã eu sei de antemão que aconteça o que será que possa acontecer, vai doer. Nenhum acontecimento, nenhuma memoria que me envies, nenhuma vivência poderá mudar isso. Tu sabes isso e eu sei isso. Peço-te apenas que me recordes desse dia porque a vida depois disso não se vive realmente, entrelinha-se apenas.

 

Dedico este texto a todas as mães que perderam num qualquer instante, um filho.


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