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Sexta-feira, Setembro 17, 2021

Centeno, o Orçamento e o baile mandado

Estátua de Sal
Economista reformado. Trabalhou como Professor universitário na empresa FEUC - Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra de 1983 a 2014

Estive a ver o debate na Assembleia da República onde Mário Centeno veio apresentar a proposta de Orçamento de Estado para 2019, (notícia O curriculum de Mário Centeno e o “desconhecimento profundo” dos críticos).
Centeno defendeu a sua dama com o virtuosismo técnico que se lhe conhece, mas acrescentou a isso uma emoção calorosa que não se lhe conhecia. A oposição de direita veio a terreiro com a argumentação do costume (as empresas – coitadinhas, o crescimento – pigmeu, os serviços públicos  – anémicos, bla, bla, bla)  e , devo dizer-vos, que adorei ver como foram dizimados, uma autentica carnificina. Centeno, puxou dos seus galões, e parecia o Lucky Luke das finanças a disparar mais rápido do que a própria sombra.

Ou seja, o que é que acontece quando o PSD e o CDS, mandam os Duartes Pachecos e as Cecílias Meireles – no seu tempo de estudantes apenas alunos esforçados -,  discutir  finanças e minudências técnicas do orçamento com um doutorado em economia por Harvard?  Levam baile e são arrasados.

O que acontece quando os mesmos trazem para o debate as críticas de Bruxelas, da UTAO, da Dra. Teodora, à exequibilidade do orçamento? Centeno diz que essas entidades não acertam uma, que falharam sempre todos os avisos, e que ele é que sabe porque acertou sempre! Ou seja, mais uma vez levaram baile e foram arrasados.

O que acontece ainda, quando os únicos que podiam ter legitimidade para criticar o orçamento (BE e PCP) revelam uma postura mais de consenso e diálogo com o ministro, dando prioridade a esvaziar as críticas da direita em vez de empolarem as suas próprias críticas? Centeno sorri, pisca o olho à esquerda, dá mais uma vez baile e a oposição à direita sai arrasada.

Coitada da oposição. Bem pode o Rio vir dizer que o Orçamento é uma orgia e que o Centeno e o Costa são os réis do bacanal que ninguém acredita nem os leva a sério.

A arte dos orçamentos de Centeno é que não podem ser dizimados pelas críticas da esquerda – até porque só passam com o seu apoio e contém medidas que esta elogia -, e também resistem incólumes às críticas da direita porque continuam a prosseguir parte das políticas que ela própria prosseguiu.

Dizer que o orçamento não promove o crescimento económico é um dos argumentos mais falaciosos que a direita costuma usar. A falácia deriva do facto de não estarmos numa economia planificada e estatizada. Ou seja, a maior responsabilidade para os – supostamente baixos níveis de crescimento -, numa economia capitalista de mercado, nunca pode ser do Estado mas sim da iniciativa privada, a quem compete investir e ser dinâmica. Se o não é, a culpa não pode ser do orçamento. Logo, se acham que o crescimento é baixo exijam maior dinamismo aos empresários nacionais que, muitos deles, não investem e preferem colocar os lucros em offshores.

Sobre a crítica dos serviços públicos definhados nem vale a pena comentar esses gritos panfletários da direita que, durante quatro anos de governação, pôs de rastos o SNS e tudo quanto é serviço público, querendo agora tomar as dores daquilo que porfiaram em destruir.

Assim, não é de estranhar que perante tanta incongruência argumentativa da direita, onde conseguem dizer tudo e o seu contrário com a mesma desfaçatez e falta de vergonha, Centeno arrase e dê baile.

É que, bem podem dizer que o Orçamento é uma orgia. Mas se é uma orgia, então os críticos da direita são as odaliscas a dançar a dança do ventre e Centeno é um sultão, reconfortado e prazenteiro com o baile que orquestrou e que ele próprio comanda.

 

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