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Quarta-feira, Julho 24, 2024

Das cumplicidades com o terrorismo

José Goulão

José Goulão: “Há responsabilidade de países da NATO na disseminação de grupos terroristas”

O especialista em questões do Médio Oriente fala da hipocrisia na luta contra o terrorismo, analisa a origem do Estado Islâmico e diz que os atentados de Sexta-feira 13 em Paris “estão muito mal contados”.

 

A NATO reuniu de emergência depois de a Turquia abater um caça-bombardeiro Russo. Putin falou em “facada nas costas”. Turquia conta com a total solidariedade da NATO e recusa pedir desculpas. Mais um episódio para agudizar o teatro das operações?

A posição assumida pela NATO não traz nada de novo mas representa uma atitude que não beneficia a credibilidade da “chamada luta antiterrorista” que a aliança afirma promover. Não agudiza o problema no teatro de operações porque a situação já é de alto risco e a Rússia, apesar de declarar que da próxima vez não será tão moderada, preferiu a contenção.

O que pode desencadear esta tensão entre Ancara e Moscovo?

Os dados obtidos através dos radares e dos canais de comunicação via rádio revelam que os caças turcos F-16 que atacaram os bombardeiros russos SU-24 fizeram-no violando o espaço aéreo sírio durante um minuto e 17 segundos, internando-se dois quilómetros além fronteira, enquanto o avião russo abatido passou pelo espaço aéreo turco durante 17 segundos. Objectivamente, a acção turca visou impedir um bombardeamento contra alvos terroristas e não foi apenas por isso que Putin lamentou uma “facada nas costas”. De facto, a força aérea turca serviu-se de dados transmitidos por Moscovo ao Ministério norte-americano da Defesa, no âmbito da coordenação antiterrorista definida em 26 de Outubro pelas duas grandes potências, os quais foram facultados 12 horas antes, incluindo hora de descolagem, altitude e alvos a atingir. O comportamento turco, tornado possível pelo conhecimento antecipado do conteúdo das informações russas transmitidas aos Estados Unidos, põe realmente em causa a confiança que deveria existir entre todas as forças que afirmam combater o Estado Islâmico.

“A França está em Guerra e vai destruir o terrorismo.” A declaração de Hollande após os atentados de Paris é uma declaração de guerra contra o seu próprio país?

As declarações não ganham guerras e a falta de coerência estratégica não apenas não as ganha como agrava os conflitos.

O que podem elas desencadear?

Se a França pretender contribuir para a guerra contra o terrorismo deverá mudar radicalmente de atitude em relação ao seu tradicional comportamento perante o terrorismo dito islâmico. A França carrega às costas elevadas responsabilidades nas guerras que conduziram ao desmantelamento do Iraque e da Líbia e ameaçam seriamente a Síria.

Mais precisamente…

A título de exemplo das cumplicidades que Paris deveria abandonar lembro que ainda em Maio de 2014 foi recebido no Ministério dos Negócios Estrangeiros de França o dirigente terrorista líbio Abdlehakim Belhadj, considerado pela Interpol como o chefe do Estado Islâmico no Magrebe e que tem no seu currículo a colaboração com a NATO em geral, e a França em particular, na destruição da Líbia e na mobilização de mercenários islâmicos para a guerra contra a Síria.

 goulao3“Assad não é nem nunca foi o problema”

Entretanto, a Aviação e a Marinha Russa intensificaram os bombardeamentos na Síria nas últimas semanas. A França – que já bombardeava a Síria desde Setembro – apressou-se a publicitar os ataques maciços em Raqqa depois da Sexta-feira 13. Que leitura faz da coordenação militar na frente Síria entre Hollande e Putin?

Coordenação é muito mais do que a realização de ataques erráticos dispersos e movidos por impulsos gerados por casos pontuais – ainda que muito graves – como o dos atentados de Paris. Não há notícias de destruições avultadas na estrutura do Estado Islâmico em consequência dos supostos ataques conduzidos em mais de um ano por nações da NATO, sobretudo os Estados Unidos e a França. Em menos de dois meses a Rússia provocou danos muito mais elevados ao Estado Islâmico. A maneira mais séria de combater, de facto, o terrorismo na Síria seria a coordenação operacional entre a Rússia e as nações da NATO, as quais deveriam ainda travar o apoio financeiro, em armas e treino que as ditaduras do Golfo e a Turquia continuam a proporcionar aos mercenários terroristas. A coordenação não tem sido possível porque a administração Obama continua a rejeitá-la. Nem serão necessárias tropas no terreno: a coordenação das forças aéreas e navais russas e atlantistas com o exército sírio contribuiria para o fim da guerra civil.

“Sem as destruições do Iraque e da Líbia, sem a guerra imposta à Síria não haveria Estado Islâmico nem sequer a dramática vaga de refugiados que inunda a Europa, enquanto os Estados Unidos se barricam contra ela”

E sobre o pacto de cooperação das secretas dos EUA, França e Rússia?

Existem ainda poucos elementos para avaliar o que de novo pode trazer uma cooperação entre os serviços de espionagem que se afirmam dispostos a combater o terrorismo.

Bashar al-Assad é um problema ou pode fazer ser parte da solução?

Assad não é, nem nunca foi o problema, como aliás parece ter sido a opinião de potências ocidentais que, ao longo dos anos, colaboraram com o regime sírio antes de mudarem de estratégia. Antes da guerra, a Síria era um país estável, dos mais prósperos do Médio Oriente, tolerante para com os diferentes grupos étnicos e religiosos. No entanto, na sequência de planos estabelecidos durante a primeira década do século, as administrações norte-americana e britânica, com a colaboração de Israel, decidiram secretamente criar um “novo mapa” do Médio Oriente que passa pelo desmantelamento de grande parte dos Estados existentes, Iraque e Síria incluídos. Aliás, hoje sabe-se que os supostos levantamentos populares na Síria no âmbito da chamada Primavera Árabe foram coordenados e controlados por grupos de mercenários infiltrados e se auto-definiram como representantes de uma suposta “oposição” totalmente artificial e desconhecida no país. Que Assad faz parte da solução é uma realidade que começou a ser admitida pela França e até pelos Estados Unidos; nas negociações internacionais estes países deixaram cair a exigência de excluir o presidente sírio e aceitaram uma nova formulação para as conversações: “diálogo sírio” em vez de “processo de transição”.

“As declarações não ganham guerras e a falta de coerência estratégica não apenas não as ganha como agrava os conflitos”

 “O petróleo de sangue”

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Qual a actual força do auto-denominado Estado Islâmico?

Há versões desencontradas sobre o verdadeiro poder e a própria estrutura do Estado Islâmico. De acordo com analistas que normalmente não surgem citados na comunicação social dominante, o Estado Islâmico apareceu como um grupo mercenário sunita, integrado na estratégia norte-americana de estabelecer um “novo mapa” do Médio Oriente, através de alterações capazes de fazer passar à história os acordos de Versalhes, que se seguiram ao fim do Império Otomano como resultado da Primeira Guerra Mundial. Quando ainda mal se falava no Estado Islâmico já o grupo realizara avanços relâmpago e extensos desde o norte da Síria quase até Bagdade, assassinando dezenas de milhares de pessoas em fuzilamentos em massa que pareceram não inquietar a chamada comunidade internacional, até que surgiram as imagens das primeiras decapitações de cidadãos de países ocidentais.

Na sua opinião, como poderá ser enfraquecido? Há formas de o combater?

Os dois caminhos que parecem susceptíveis de enfraquecer e, eventualmente, liquidar o Estado Islâmico terão se ser simultâneos e convergentes: coordenar as operações militares aéreas e navais de todas as potências interessadas em combater o terrorismo – havendo para isso resoluções da ONU que o permitem; e liquidar todas as formas de apoio financeiro e militar que são garantidas por países como a Arábia Saudita, o Qatar, Israel (que faculta estruturas territoriais, operacionais e de socorro à Al-Qaida e ao Estado Islâmico nos Montes Golã ocupados à Síria) e Turquia…

… Países que têm o beneplácito dos EUA.

Todos estes países são aliados estratégicos dos Estados Unidos e da NATO, pelo que a vontade política e militar da administração norte-americana e dos meios atlantistas é não apenas necessária como será determinante. Neste caso, como tem sido provado sem margem para dúvidas, a ambiguidade funciona como cumplicidade com o terrorismo.

Mas como funciona de facto a rede de financiamento do Daesh?

É muito difícil, dada a sua complexidade, ter uma ideia precisa da teia de financiamentos do Estado Islâmico e do terrorismo em geral. Não há quaisquer dúvidas de que a principal fonte de financiamento do Daesh é o contrabando de petróleo montado depois de ter tomado conta das fontes petrolíferas do Curdistão iraquiano e do norte da Síria. Mas como não há contrabando de sucesso sem intermediários e compradores é importante saber que países como a Arábia Saudita, Israel e a Turquia, neste caso sob a gestão da família do presidente Erdogan, são os principais agentes de um comércio clandestino que depois se espalha pelo mundo e tem até contribuído, juntamente com idêntico mercado negro na Líbia, para manter os preços internacionais do petróleo em baixa, gerando lucros insultuosos às multinacionais do costume, que também pactuam com a ilegalidade e aquilo a que deveria chamar-se “o petróleo de sangue”. Existem também financiamentos directos clandestinos, sendo os mais conhecidos os praticados pelos regimes da Turquia, Qatar e Arábia Saudita.

“Dedo acusador apontado à NATO”

 A Europa e o Ocidente estão a lutar contra o terrorismo ou estão a ser seus cúmplices?

Não creio que esta matéria se possa olhar globalmente segundo os conceitos de Europa e Ocidente. O que me parece indesmentível é que as principais potências militares europeias – França, Reino Unido e Alemanha – multiplicam declarações contra o terrorismo mas as suas práticas revelam não apenas a insuficiência de resultados dessas declarações como a existência de comportamentos que traduzem, objectivamente, cumplicidades com o terrorismo. O que aconteceu na Líbia e no Iraque, o que está a acontecer na Síria é revelador de que o Ocidente e as potências europeias não apresentam resultados do proclamado combate ao terrorismo. Do mesmo modo, a tolerância para com a Turquia – um país da NATO onde abundam os campos de treinos dos terroristas, onde a família do presidente Erdogan tem responsabilidades no financiamento da Al-Qaeda, que coordena o mercado negro de petróleo que é a principal fonte de financiamento do Estado Islâmico, a partir do qual se infiltram os terroristas que actuam na Síria – é um dedo acusador apontado à NATO. Sem esquecer que os Estados Unidos e a França foram os principais criadores dos “Amigos da Síria”, entidade que sustenta os chamados terroristas “moderados”, uma ficção que serve apenas para engrossar as fileiras dos terroristas “radicais”, dotando-os com mercenários e armamentos sofisticados fabricados em países ocidentais.

Conclui que os países da NATO têm, portanto, sérias responsabilidades na intensificação do terrorismo do Daesh?

O que venho dizendo e enumerando não deixa dúvidas sobre a responsabilidade de países da NATO na disseminação e organização de grupos terroristas, já desde a sua origem, que remonta à aliança entre serviços secretos norte-americanos e britânicos na criação da rede de Bin Laden e que deu origem à Al-Qaeda. De acordo com militares norte-americanos na reserva, como o general Wesley Clark, a criação do Estado Islâmico tem ainda o dedo dos serviços secretos de Israel, um país com uma “aliança indestrutível” com os Estados Unidos, segundo os dizeres dos próprios. Ao longo destas respostas é possível detectar uma vasta série de exemplos que permitem demonstrar que sem as destruições do Iraque e da Líbia, sem a guerra imposta à Síria não haveria Estado Islâmico nem sequer a dramática vaga de refugiados que inunda a Europa, enquanto os Estados Unidos se barricam contra ela.

Mais concretamente, quando se fala na hipocrisia da luta contra o terrorismo do auto-denominado Estado Islâmico falamos exactamente do quê?

Falamos na hipocrisia na sua mais negra faceta, a que não tem respeito pelos seres humanos civis e inocentes que são as maiores vítimas do caos reinante no Médio Oriente. É absolutamente hipócrita dizer que se é contra o terrorismo, que se age contra o terrorismo e, no mínimo, tolerar situações que fomentam e proporcionam condições de plena expansão a grupos terroristas. Não pode afirmar-se que se combate o terrorismo enquanto se pactua com países como a Turquia, ou Israel, ou Arábia Saudita, ou Qatar que financiam, treinam, mobilizam e fomentam grupos e estruturas terroristas.

“Não faz qualquer sentido abolir Schengen”

Pela primeira vez na história, e como está previsto no Tratado de Lisboa, os 28 decidiram por unanimidade socorrer a França e ativar a cláusula de ajuda mútua do Tratado no caso de ataque a um Estado membro. Que efeito prático terá?

Trata-se da transposição de uma cláusula da NATO para a União Europeia, a confirmação de que a Europa comunitária aceita que o seu pilar militar seja o atlantismo, sob comando operacional dos Estados Unidos da América. Esta activação, por muito histórica que seja considerada, nada representará se não houver vontade efectiva das principais potências da União para combaterem o terrorismo através de medidas concretas e sem ambiguidades. Se assim não for trata-se de uma decisão meramente simbólica a pretender demonstrar que se faz muita coisa como resposta aos atentados de Paris, para que depois tudo fique na mesma.

Nos dias de hoje faz sentido abolir Schengen?

Não faz qualquer sentido abolir Schengen, embora se trate de um mecanismo polémico no quadro europeu, criado mais com objectivos económicos e financeiros do que pensando nos cidadãos europeus. O único efeito prático que poderá ter, e por isso se insiste tanto nessa possibilidade na conjuntura em que também se inserem os atentados de Paris, é o de permitir às autoridades nacionais dos 28 recorrerem aos mecanismos que entenderem para travar a vaga de refugiados decorrente, ao-fim-e-ao-cabo, de guerras no Médio Oriente criadas e alimentadas, entre outras, por grandes potências europeias. A realidade acaba por antecipar uma eventual dissolução de Schengen através da proliferação de muros e barreiras – uma imagem assustadora de países barricados contra pessoas que apenas pretendem sobreviver.

“A realidade acaba por antecipar uma eventual dissolução de Schengen através da proliferação de muros e barreiras – uma imagem assustadora de países barricados contra pessoas que apenas pretendem sobreviver”

“Propaganda manipuladora”

goulao4Teorias da conspiração. “False Flag”. Interrogações. Certo é que o atentado ao Charlie Hebdo no início do ano chegou a ser “associado” aos serviços secretos do Mossad. E no dia dos atentados de Paris, um jornal israelita revelou que dirigentes da comunidade judaica em França, na manhã de sexta-feira, foram alertados para a possibilidade de um atentado de grande envergadura. Que crédito lhe merece estas revelações?

Hoje em dia tornou-se uma espécie de “tique” da comunicação social dominante, orquestrada pelos meios financeiros, políticos e militares globais, fazer crer que as teses comprovadas que não coincidem com as versões oficiais de determinados acontecimentos são “teorias da conspiração”. Trata-se de propaganda manipuladora que visa desacreditar as investigações independentes e sérias e pretendem impor explicações simplistas e primárias que vedam o acesso ao conhecimento real dos factos.

Pode exemplificar-se com o atentado contra o Charlie Hebdo, onde um dos assassinos estava referenciado havia anos pelos serviços secretos franceses e recebeu armas de um antigo membro da segurança da Frente Nacional (organização neofascista) que é igualmente informador da polícia; mas deve igualmente ter-se a noção de que a versão oficial dos acontecimentos de 11 de Setembro de 2001 em Nova Iorque está cada vez mais desacreditada, além de haver legítimas reservas em relação às versões dominantes sobre os recentes atentados em Paris. O mais grave destes quadros é que muito provavelmente jamais virá a conhecer-se a verdade, devido às ambiguidades que se sabem existir entre sistemas de poder e organizações terroristas.

“Não pode afirmar-se que se combate o terrorismo enquanto se pactua com países como a Turquia, ou Israel, ou Arábia Saudita, ou Qatar que financiam, treinam, mobilizam e fomentam grupos e estruturas terroristas”

Qual a versão que se aproxima mais da verdade?

A notícia de que a comunidade judaica de França foi informada horas antes do atentado de Paris de que algo de grave estava para acontecer não teve a divulgação que merecia nos meios de comunicação social, mas não existe qualquer indício de que deva ser posta em causa. Contribui para que percebamos como os acontecimentos daquela sexta-feira, 13 de Novembro, estão muito mal contados.

E reiteradamente fala-se de manipulação colectiva por parte dos Órgãos de Comunicação Social na cobertura dos acontecimentos. Como explica?

A manipulação praticada pelo sistema de comunicação que serve de suporte propagandístico a um regime cada vez mais global, onde a democracia é distorcida, assenta em vários pilares: sensacionalismo, exploração primária de sentimentos e emoções, interpretações simplistas dos factos, torrentes de comentários e análises repetindo-se a quente em cima dos acontecimentos, sem tempo, nem informações nem distanciamento indispensáveis para conhecer uma realidade ainda indefinida. O principal objectivo deste tipo de manipulação é a criação rápida de uma explicação que se pretende definitiva – como aconteceu no caso do avião malaio abatido sobre a Ucrânia – e que assenta em suposições e acusações dando como assegurada uma suposta realidade.

Estas práticas funcionam como manobras de diversão através das quais governos, polícias e entidades procuram evitar e desacreditar quaisquer opiniões adversas susceptíveis de lhes atribuir responsabilidades directas ou indirectas nos acontecimentos. Por exemplo, normalmente não é abordada pela generalidade da comunicação social de maior expansão a ideia de que sem as guerras e as situações caóticas criadas por potências ocidentais em países como a Líbia, o Iraque e a Síria, em nome da democratização, não haveria grupos terroristas com o poder do Estado Islâmico nem a vaga de refugiados que inunda a Europa. Sendo que, ao cabo desses conflitos artificiais, não existem quaisquer vislumbres de democracia nos territórios por eles atingidos.

“Deve ter-se a noção de que a versão oficial dos acontecimentos de 11 de Setembro de 2001 em Nova Iorque está cada vez mais desacreditada”

 

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