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Terça-feira, Outubro 26, 2021

De quando as noites são de chumbo

Beatriz Aquino
Formada em Publicidade e Propaganda. É escritora e atriz de teatro. Nascida no Brasil a viver em Portugal.

Poema inédito de Beatriz Aquino

De quando as noites são de chumbo

Estou cansada de escrever.

De dar ouvidos à essas mãos que pesam e me tiram o sono.

Que querem de todo modo arrancar da superfície plana e desonesta do mundo alguma resposta.

Que arrogância é essa que possuo? Por que não sossego com o café e o leite que me são servidos na mesa casta e sóbria dessa calma manhã?

Por que arranhar a pele das coisas que deveriam se manter intactas e incompreendidas?

Uma vez tive paz.  Quando tinha sete anos, eu tive paz.

Foi em um momento onde na cozinha de casa eu observava a mãe cozinhar o almoço.

Lembro até hoje do seu semblante sereno.

Da mãe eu sorvia toda a nutrição do mundo. E ali não havia mistério algum.

Foi só quando descobri que eu era apenas um pedaço dela e ela um pedaço de mim que a angústia começou.

Enquanto crescemos, o vazio do abraço materno que se esvai aos poucos de nós sem que nos demos conta, também cresce.

E o grande e gélido manto da existência vem nos cobrar o pedágio pelos anos passados entre fraldas, mamadeiras e sono profundo.

E veja que a ingenuidade é só um modo grosseiro da vida te dizer para esperar.

Lembro bem desse dia da minha paz completa, pois foi ao me dar conta dela que ela se destacou de mim.

Desde então esse gosto amargo na boca.

Um zumbido constante no ouvido que diz;

‘Sou só.’

Sou.

Assim como minha mãe também é. Também ela se agarrava a mim como um náufrago em choque. Matamos e damos luz aos seres apenas para que ele nos digam.

‘Você existe.’

É grande o medo do ser humano diante do vazio.

É…

Eu lembro.

Uma vez, quando eu tinha sete anos, eu tive paz…

 


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