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Terça-feira, Outubro 26, 2021

De repente tudo muda

Arnaldo Xarim
Economista

A propagação da covid-19 (tema redundante e obrigatório na actualidade) tem levado analistas e comentadores a realçar, sempre que possível, a imprevisibilidade do próximo momento, que o mesmo é dizer que todos aceitam a instalação do princípio da incerteza e da imprevisibilidade do futuro. O que varia serão as razões para esse comportamento.

Se não vejamos. Depois de uma primeira fase em que praticamente todos enquadrámos os primeiros avisos da OMS (Organização Mundial de Saúde) no grupo daqueles que tinham produzido no tempo da gripe das aves (2004) e da gripe A (2009), ou seja sem motivo para preocupação séria, eis que a proliferação europeia do surto trouxe outra realidade e cada país foi actuando em função do que entendeu como a melhor estratégia para o enfrentar; enquanto uns se nortearam pela ideia da imunidade de grupo, deixando circular o vírus na expectativa de gerar um processo natural de imunidade, outros optaram claramente pela ideia de afastar as pessoas de locais de contágio através de medidas de confinamento ou distanciamento social.

Epidemiologistas e outros especialistas debateram estes dois conceitos (ver a propósito este artigo da BBC News que aborda as duas perspectivas) e continuam hoje a debruçar-se sobre os resultados que deles derivaram, mesmo se alguns países, como foi claramente o caso do Reino Unido quando se começou a deparar com as galopantes estatísticas de infectados e de mortos, foram progressivamente mudando da intenção de alcançar a imunidade natural para a de confinamento e distanciação social.

À medida que começaram a surgir projecções económicas, como esta do FMI que aponta para uma recessão económica da ordem dos 8% e o regresso a uma taxa de desemprego próxima dos 14%, aquelas mudanças de opinião estenderam-se já a outros segmentos, como o dos analistas e especialistas económicos. Neste caso concreto vemos hoje aqueles que foram grandes críticos do endividamento excessivo falar abertamente na necessidade de aumentar a dívida em resposta às necessidades do momento (as de natureza médico-sanitária) e às de natureza económica, que são as do futuro próximo. É nesta linha de pensamento que se incluem o grande número de defensores da austeridade expansionista e da necessidade de obrigar os estados esbanjadores a expiarem os seus erros, que agora advogam – sem a menor dúvida ou remorso – o aumento dos gastos públicos para a salvaguarda das empresas e do emprego, argumentando que a situação actual é completamente diversa da crise da dívida europeia.

Mas será assim? No fundo, a verdadeira diferença estará na natureza de uma crise directamente apontada à área da saúde pública – precisamente uma das mais castigadas (a par com a educação pública) pelas políticas de redução de gastos públicos anteriormente defendidas – e no reconhecimento da sua indispensabilidade; assim, a distinção que rapidamente me ocorre é que anteriormente os Estados endividaram-se em prol de resgatar o sector financeiro para em seguida se verem a braços com uma crise justificada por esse mesmo endividamento, enquanto agora os mesmos Estados terão que se endividar para tentar salvar os cidadãos e as respectivas economias de um agente patogénico especialmente agressivo e esperar que num futuro próximo não voltem a ver-se penalizados pela opção que tomaram.

Mas ainda mais condenável que a aparente reviravolta executada pelos grandes especialistas económicos é o já visível posicionamento dos comentadores políticos mais saudosistas do passismo (como sucede neste artigo de Luís Delgado) quando criticam a aparente preocupação do actual governo com a necessidade de reactivação da actividade económica, apresentando-a como consequência do dinheiro que não há e já preparados para a chusma de críticas que darão à luz logo que aumente a dívida pública. Intelectualmente mais honesto será Daniel Bessa que apesar de em tempos ter lembrado que devido às imposições financeiras isto está por arames, diz agora que o Estado devia pagar o que deve às empresas, ou até o ex-ministro das Finanças, Miguel Cadilhe, que achando que muitas empresas precisam que o Estado lhes pague espera uma grande emissão de dívida europeia. O único senão é que nem um nem outro admite conceber outro modelo de financiamento para os Estados que não aquele que vigora ao abrigo do sistema da moeda única: o endividamento.

E aqui é que reside a grande hipocrisia e o embuste que tem empurrado a UE e a esmagadora maioria dos seus cidadãos para um vórtice infernal de dívida e de redução da sua qualidade de vida.

Contrariamente ao que os mais arreigados propagadores das virtualidades da redução do papel dos Estados e do seu completo apagamento da esfera económica têm defendido, a propagação da covid-19 tem demonstrado indispensabilidade de gestão pública no capítulo sanitário, ao mesmo tempo que revela a sua quase completa inoperacionalidade na regulação económica e a sua incapacidade para se transformar no motor da recuperação económico-social que tanto se necessitará. Este quadro só poderá ser efectivamente alterado com a recuperação do poder de emissão de moeda pelos Estados (ou no caso da moeda única o financiamento directo pelo BCE das necessidades, no todo ou em grande parte, de cada estado-membro da Zona Euro), pois o colete-de-forças financeiro que lhes é imposto pela sua sujeição a um sector financeiro transformado no financiador e grande beneficiário das necessidades públicas, implicará a permanente alternância entre ciclos expansionistas e recessivos, seguramente benéficos para quem especula nos mercados financeiros com as emissões de dívida pública, mas letais para o comum dos cidadãos e para as suas justas aspirações a uma vida melhor.


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