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Sábado, Fevereiro 24, 2024

«O percurso e o processo criativo»

Delmar Gonçalves, de Moçambique
Delmar Gonçalves, de Moçambique
De Quelimane, República de Moçambique. Presidente do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora (CEMD) e Coordenador Literário da Editorial Minerva. Venceu o Prémio de Literatura Juvenil Ferreira de Castro em 1987; o Galardão África Today em 2006; e o Prémio Lusofonia 2017.

Ser Autor: Quando a obra passa a pertencer aos outros (…) aos Leitores Sobretudo.

Poesia é vida, a estética é a mensagem fragmentada”.
DMG

O verso curto é o mais denso”.
DMG

A poesia não tem amos”.
DMG

Durante muitos anos calei-me alto (como leitor) para falar baixinho (como autor).

E nesse processo descobri que”… a poesia esse inestimável inutensílio”, segundo o poeta brasileiro e lusófono Manoel de Barros, podia ser também um utensílio para a vida. Poesia é vida!

Escrever é um velho acto “revolucionário”. Mas ser um escritor ou poeta eternamente “revolucionário” é um acto de absoluta solidão, ainda que acidental. Falo da minha realidade pessoal. Estar entre escritores e poetas é como estar em família. É um privilégio.

E faço coisas úteis para ter acesso a estes dons absolutos e finais.

Os suicidas raramente se confessam. Pois estão expostos todos os dias. Mas os escritores e poetas são autênticos suicidas da criação.

Quando as palavras se tornam flácidas nas bocas mentirosas do mundo entro em mim, retraio-me, contorço-me e encolho-me. Evito sempre todas as sinuosidades do caminho e a ampla viscosidade humana.

A escrita para mim é um modo de existir, de viver  e de pensar. Faz  anos que a considero uma prática, uma ablução.

Algo que deixou, faz tempo, de ser desejo e vontade. Apoderou-se de mim, passou a ser natureza própria e por ela navego nas suas águas às vezes doces, às vezes salgadas, às vezes ásperas e às vezes rugosas.

Mas um autor genuíno deve concentrar-se sempre na sua verdade pessoal, na sua criação, nas suas técnicas e de forma autêntica expressá-las. Deve informar-se, escolher as suas boas leituras que lhe possam servir de exemplo e com as quais tenha alguma afinidade.

É necessário exercício constante e o questionamento ou autoquestionamento do próprio trabalho.

Procuro criar uma nova linguagem, a partir da intervenção do acaso e da livre associação de imagens, através da prática de um misto de automatismo psíquico puro e o observado e pensado que, quer verbalmente, quer por escrito ou de qualquer outra maneira revela verdadeiramente o real funcionamento do meu pensamento.

Creio estar profundamente influenciado pelo dadaísmo ou “espírito zen” que me leva a reconstruir um novo sentido da história, repensada sempre em função do presente e em favor de uma maior abertura mental e filosófica em relação aos acontecimentos novos, que, por serem novos (e pertencerem ao velho), dificilmente podem ser entendidos e integrados dentro de um consenso tradicional ou clássico.

Acredito por isso no método taoista que consiste em não seguir nenhum método, que é o método por excelência. Mas há uma necessidade permanente de afirmação da minha liberdade, porque para mim é mais importante o que acontece para que uma obra exista do que a própria obra.

Digamos que escrevo o momento que nasce de um estado de alguma “iluminação”, impregnado de vida; sinto a alma sem a explicar, sem preocupação vocabular e é isto que segundo creio me tem conduzido à escrita. Nada mais.

Este minuto da verdade só é possível a partir de uma disponibilidade total correspondente a uma total ausência de preconceitos num grau de contemplação, onde a palavra se apresenta tal e qual , na sua pureza máxima.

Para mim a atitude ou a ideia importam mais do que o seu produto concreto.

Há um certo “egoísmo” da minha parte quando crio. Crio por mim e para mim em primeiro lugar. O impulso é meu e vem das  entranhas do meu ser. Se for lido e dissecado por outros, passa a pertencê-los, passo a pertencê-los também. Mas nunca deixa verdadeiramente de me pertencer. Fico aliviado.

Mas há o eterno retorno ao autor.

Portanto, concordo com Marcel Duchamp que dizia “Ao fazer um exercício sobre o gosto, escolhi um objecto com poucas chances de ser amado” vide “A fonte” ou “Urinol” que em 1917 foi recusado numa exposição em Nova Iorque nos Estados Unidos.

Na verdade, não é essa a minha preocupação. Estou condenado por isso.

Citando Sebastião Alba, poeta moçambicano-bracarense direi: “Escrevo com terrível dificuldade… armo a oficina em qualquer parte, sem tabuleta que o indique. Ninguém sabe, mas ali sua-se”. Portanto, não se escreve sem dificuldade nunca! Jamais!

E os poetas não devem nunca perder a virtude da beleza e do espanto, pois é prazeirento o trabalho da língua, essa em que dizemos com mãos e vozes seguras alinhos, desalinhos, atinos, desatinos,  acertos, desacertos, encontros, desencontros, vias e desvios! E poesia é (como sabeis)de longe, pelo menos para os poetas, a linguagem de maior potência de significação (“a mais  condensada forma de expressão verbal”, como bem dizia Pound). Não é de espantar a variedade de percepções, de leituras, de idiossincrasias, de práticas e estéticas que permeiam a poética contemporânea e, evidente, a sua recepção. Tão diversos como o são os próprios seres e os seus reais interesses.

Pergunte-se ao poeta cioso do seu nobre ofício: O que é poesia? Tem que ser à queima-roupa, de rajada. É preciso extrair rapidamente toda a essência da sua resposta e desaparecer enquanto ele estiver perplexo, estático, magnetizado e abalado. Mas antes dele se recompor do abalo, da surpresa e muitas vezes se ficará sem resposta. Seguramente sem resposta!

 

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