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João de Sousa

Sábado, Julho 20, 2024

Desassossego II

João de Almeida Santos
João de Almeida Santos
Director da Faculdade de Ciências Sociais, Educação e Administração e do Departamento de Ciência Política, Segurança e Relações Internacionais da ULHT

João de Almeida Santos (Texto)
Filipa Antunes (Desenho – Fernando Pessoa II)

Bernardo SoaresEste rosto parece-me, por dentro e por fora, o do Bernardo Soares. O da renúncia. Que não se ajeita com a poesia. Espírito franzido pela aspereza e contingência do existir. E que até se gaba da sua dissidência com a vida. Ele move-se para dentro, fala de si para si e o seu olhar é como que devolvido pelos óculos que se lhe colam ao rosto como sua pele. Óculos como espelho da alma, apesar da transparência. Ou, melhor, do espírito, que não é a mesma coisa, pois este é culto e aquela pode não ser. A alma sente e o espírito pensa! Mas pode haver um sentir inteligente, uma alma que pensa? Talvez não, porque a inteligência tende a embaciar o sentimento. Tal como o sentimento embacia a inteligência. Pelo menos em parte, porque não fluem, ambos, livremente, turvando-se mutuamente. É como o amor. Não há amor inteligente, mas amor feliz. O amor é mais da ordem da alma do que do espírito! E por isso o espírito é perigoso para o amor…

*

Pois, com este rosto amarelo que o torna aparentemente mais irreal e, por isso, mais perdurável, é mesmo ele, o homem da renúncia, o que nunca se deixa ir para não se perder, o que quer perdurar… à força de sentimentos desvitalizados e transfigurados! O que olha – o olhar deveria ser tudo – para a vida como para uma galeria de arte! E que não toca nela nem com a ponta dos dedos…

O homem amarelo tem o corpo confundido com a alma. As palavras viram-se para dentro dele, dobradas sobre si, e o bigode é a porta fechada da sua fala. Uma fala espiritual. Resistente e fechada, à força, não vá a tentação abri-la e deixar escapar um reles sentimento carnal. Não! Para renunciar é preciso força de vontade e alguma crispação. Lábios apertados até se anularem na superfície lisa do rosto.

*

“Indiferença sentimental”, diz: essa eu até a reconverto em palavras ao rubro com a alma aos pulos, livremente, à minha vontade e até contra mim e tudo o que eu próprio planeei para ser eventualmente feliz. Ah!, como é bela a indiferença, se for minha e a converter em autêntica diferença. Ser indiferente de forma original é cultivar a diferença e afirmá-la perante os iguais. Até a gravata me torna mais encrespado com o exterior de mim. Agarra-me pelo colarinho e não me deixa ir. Sou livre à força… quase à forca. Morrendo para fora à medida que vivo para dentro… de mim! E depois destes óculos me terem protegido quando “uma rajada baça de sol turvo (quase) queimou nos meus olhos a sensação física de olhar”. Passei a olhar quase só para dentro, olhando de través para fora. Só o suficiente. Cedendo apenas um pouco à exigência desse objecto transparente que tenho no meu rosto amarelo e a que chamam “óculos”. Nome tão estranho como o de “olho”, no singular e com a sonoridade seca que tristemente exibe! Coisa quase supérflua porque não me serve para ver o essencial. Que está dentro de mim. Tudo o resto é puro pretexto.

*

“Que os teus actos sejam a estátua da renúncia, os teus gestos o pedestal da indiferença, as tuas palavras os vitrais da negação” – é isso que sentes, ó rosto amarelo, quando falas da vida? A vida é só metamorfose espiritual? Com a fixidez desse teu olhar metabolizas e suspendes a vida, para a viveres interiormente de forma mais intensa?

*

“Um amarelo de calor estagnou no verde preto das árvores”, dizes tu, com esse ar sisudo, de caso! Mas foi por baixo que estagnou… sim, no teu rosto, quase te queimando para a vida. Estagnou em ti e sob esta copa pouco frondosa que é esse teu chapéu verde. Foi por isso que o teu rosto se pintou de amarelo. Sim, sim, o amarelo está perto de ti porque não é humanamente real e faz de ti um ser livre. Foi o sol que te queimou a alma e te pôs amarelo por fora. Questão de Luz, meu Caro!

 *

Acho, pois, que te chamas mesmo Bernardo Soares e que gostavas de ter jeito para a poesia. Mas, claro, a poesia está perto demais do sentimento, da emoção, da vida e corres o risco de te deixares ir na onda da sua perigosa e insignificante fugacidade…! O amarelo ajuda à renúncia, sim, logo, ajuda a procurar a beleza intemporal, a que não é corrompível, degradável. É melhor conservares-te amarelo e não saíres de ti a não ser o estritamente necessário. De qualquer modo, esse pouco de vida de que precisas está sempre lá, não desaparece! Assim ainda serás maior do que o tamanho do que vês. Porque vês com os teus sentidos interiores, apesar desse engano dos teus óculos…

Desenho – Fernando Pessoa II. Tinta acrílica, grafite e verniz sobre tela. 70×50. Outubro de 2017.

 

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