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Domingo, Julho 14, 2024

Desassossego!

João de Almeida Santos
João de Almeida Santos
Director da Faculdade de Ciências Sociais, Educação e Administração e do Departamento de Ciência Política, Segurança e Relações Internacionais da ULHT

Reflexões sobre a poesia

João de Almeida Santos, com ilustração de Filipa Antunes
(Fernando Pessoa. Tinta acrílica sobre tela)

Desassossego!

A poesia é desassossego. Ou sai dele. Dá forma à dor, (re)vivendo-a em palavras como se fosse a sua notação musical, a sua melodia. Dor? Porquê sempre dor? Porque a poesia também é privação sensorial, ou resulta dela, apesar de ser uma linguagem que é quase um sentir em “carne viva”. Quase um comportamento! Comporta-te poeticamente, diria Hans-Georg Gadamer! Vive a vida assim, sem te deixares ir nessa volúpia devoradora dos sentidos que te pode sugar e engolir a alma e a distância contemplativa.

Não corras demais.  A velocidade cega, ouviste? Corre só o suficiente para agarrares a vida pelo seu lado mais denso, mais profundo, mais substancial. Aquele que só entenderás plenamente quando te aproximares das fronteiras da existência! E se chegares à poesia de algum modo já tocaste essas fronteiras. Se for preciso pára, não vás logo, impaciente, até ao fim. Porque será ilusório chegar rapidamente ao fim desejado. Cria um intervalo entre ti e a vida para melhor a observares sem deixar de a viver.

Nesse intervalo podes tocar com as mãos o real e fazer a sua notação poética, convertê-lo numa forma que quase não o é, porque pode dizer tudo com quase nada (de forma). Até mais do que a própria imagem. E se alguém diz que uma imagem vale mil palavras, eu digo que um poema vale mil imagens, porque nele a palavra é a melodia do silêncio…

Privação

Na poesia há privação! Há, sim! É um intervalo denso e intenso entre o que não temos e o que não queremos: é vida transfigurada em palavras sincopadas ao ritmo de uma difusa e incontrolável dor interior. É assim que eu a sinto! “A arte”, diz Bernardo Soares, “é a expressão intelectual da emoção”. E diz mais: “o que não temos, ou não ousamos, ou não conseguimos, podemos possuí-lo em sonho, e é com esse sonho que fazemos arte”.

Sim, o sonho. Lembra-me Calderón de la Barca e o seu “La vida es sueño”! A arte está lá nesse intervalo – entre o que não temos e o que não ousamos ou não queremos – por onde irrompe o sonho, sob a forma de palavra, risco, cor, som. Sonho de olhos abertos, mas com alma sofrida por renúncia ou impossibilidade. Neste intervalo também se constrói a liberdade sob forma de arte: não me pode ser tirado o que eu reconstruí neste intervalo sofrido, como arte, diria, de certeza, Bernardo Soares.

Sim, porque o reconstruí em ausência. E neste estado de privação “nada me pode ser tirado nem diminuído”. Bem pelo contrário, sou eu que lanço para o mundo essa vida revisitada e reconstruída, a partir desse sentimento (doloroso) de privação. Como diz o Italo Calvino, nas famosas “Lições Americanas”: “creio que seja uma constante antropológica este nexo entre levitação desejada e privação sofrida. É este dispositivo antropológico que a literatura perpetua”. Diria mais, com ele: a poesia é uma “função existencial” que procura a leveza como reacção ao peso do viver.  A leveza dos sonhos a olhos abertos, cantados em palavras e lançados ao vento que há-de mover, como chamamento, as copas das árvores… ou dos arbustos!

Renúncia

Comprei, pois, uma nova edição do “Livro do Desassossego” do Fernando Pessoa ou, se quiserem, do Bernardo Soares. Gosto deste livro. Deste Fernando Pessoa. Filósofo, sim, filósofo. Revisito-o com regularidade. Por necessidade interior.  Irmanado nessa renúncia que é privação sofrida… à procura de leveza. Que vou encontrando à medida que caminho entre o silêncio e o sonho, movido por riscos e cores que me vão desenhando e iluminando esta vereda tão estreita da minha vida. E porque compreendi que Pessoa chegou perto dos nexos fundamentais da existência humana, naquilo que ela tem de mais sublime, de mais elevado.

E neste livro anda por lá essa ideia que me fascina, do ponto de vista estético: a ideia de renúncia. Sim, essa ideia de renúncia (ou mesmo de impossibilidade) que me pôs em intervalo criativo. Não a do eremita, daquele que foge da vida para se aproximar de deus, da natureza ou da eternidade. Não, mas a daquele que foge da vida para melhor entrar nela, a compreender e a viver para além do frágil tempo do acaso, do presente efémero e circular, da volúpia orgástica ou império dos sentidos.

Claro que não sou tão radical como ele. Nem tão pesado nos juízos. Mas sei bem que só radicalizando poderemos compreender o essencial. E a arte permite isso. Porque não é do domínio do pragmático e do útil. Encontra-se num dispositivo que, sendo universal, procede em registos únicos, com aura. “Subjectividade universal”, diria o Kant da “Crítica do Juízo”.

Silêncio

É uma grande obra. Desta vez li uns textos sobre a relação entre a poesia e a prosa. O Bernardo Soares preferia a prosa ao verso, pela simples razão de ser “incapaz de escrever em verso”. Que era o que eu próprio sentia até há pouco mais de dois anos a esta parte. Até que se deu o clique. Uma espécie de “fissão poética”, com libertação de energia criativa, até com potência destrutiva!

Percebi que o que não é possível dizer em prosa pode ser dito em poesia, sendo também claro que a prosa não tem o mesmo  poder performativo. Aumenta o espaço de liberdade e até pode adquirir um carácter substitutivo. E não só porque o poeta é um fingidor que sente metade do que diz, fingindo que mente só porque o diz num poema. Ou seja, não só porque a poesia nos torna mais livres. Porque dizemos o que sentimos de forma livremente auto-referencial, embora nesse registo universal com que traduzimos, em arte, o nosso próprio registo sensorial ou a nossa experiência vivida. E, deste modo, porque o que sob esta forma se diz tem a pretensão de ser mais do que o que simplesmente se comunica sob qualquer outra forma: ser simplesmente belo. Indo para além do registo sensorial, denotativo, conotativo ou conceptual.

Mas não só por isso. Sobretudo porque é uma linguagem plena que pode dizer quase tanto como o que diz o silêncio. A poesia é a linguagem mais próxima do silêncio. Quase como se fosse só silêncio murmurado, balbuciado, mas composto, musicado, conservando ao mesmo tempo uma dimensão polissémica, sem pretensões denotativas, tal como a música. Mesmo que haja referentes (e há sempre) que nela se possam vir a reconhecer.

Mas ela é mais do que isso: aspira a um reconhecimento subjectivo universal, filtrado, claro, pelo dispositivo sensorial de todos e de cada um. A arte, sendo universal, interpela singularmente cada um de nós, através da sensibilidade!

Música

O Bernardo Soares diz que o verso é uma passagem da música para a prosa. Genial intuição. Ou seja, a poesia não só está entre a música e a prosa como permite a passagem de uma para a outra, sem se transformar em simples meio ou instrumento. Tem elementos de ambas. Mas julgo ser possível dizer também que entre o silêncio e a poesia talvez esteja a música.

A música é a voz do silêncio, porque ainda não diz, mas deixa espaço à poesia para dizer, como melodia cantada, o que é (quase) indizível. E é nesta quase indizibilidade melódica que reside o poder da poesia. É por isso que o silêncio e a música se podem exprimir de forma larvar na poesia, sendo cada poema a borboleta que esvoaça sobre as nossas vidas e a nossa imaginação para interpelar a fundo o nosso pólen, a nossa sensibilidade individual.

Em suma, um rasto de inquietação

É nestes intervalos que o poeta se coloca ao cantar a música da vida. Um canto sofrido, porque fruto do desassossego, da privação, da dor, mas por isso mesmo obra de jograis vadios, nómadas, sempre em movimento, atravessando fronteiras à procura do que nunca encontram e não querem encontrar. E a poesia é o seu modo de comunicar a partir desse intervalo perpétuo em que vivem: em permanente privação. Sem tempo nem lugar.

Os seus poemas são cantos com que querem encantar para logo partir, deixando um rasto de inquietação, que é ao que de mais belo a poesia pode aspirar.

Ilustração: Fernando Pessoa, de Filipa Antunes. Tinta acrílica sobre tela. 2016. Inédito.

 

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