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Sábado, Outubro 16, 2021

A paixão e o risco

Christiane Brito, em São Paulo
Jornalista, escritora e eterna militante pelos direitos humanos; criou a “Biografia do Idoso” contra o ageísmo.  É adepta do Hip-Hop (Rap) como legítima e uma das mais belas expressões culturais da resistência dos povos.

No amor, como na política e na vida, a humanidade viveria uma estagnação se as pessoas não se arriscassem.

Em junho de 1997, o economista-filósofo Eduardo Gianetti andava às voltas com o autoengano, terminando de escrever o livro sobre o tema, quando me recebeu, na sua sala na FEA-USP (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo).

 Ainda não havia escrito seu livro sobre a felicidade (de 2002), continuava muito imerso em aulas e textos de economia, mas me chamou a atenção quando, numa aparição no Programa Roda-Viva, da TV Cultura, fez uma pergunta tão inteligente e deliciosa ao entrevistado da noite, o cantor e compositor Caetano Veloso, que o Caetano, lógico, elogiou com sua generosa tietagem: “Que pergunta linda!” Foi o que bastou para a minha mira de jornalista apontar na direção do Gianetti.

 Fui à luta por uma entrevista, que consegui com mais facilidade do que previa. Durante a nossa longa conversa, um incidente econômico de médias proporções sacudiu a nossa vida pública e dois ou três colegas, jornalistas de economia, ligaram para saber a opinião do solícito Gianetti a respeito. Esperei pacientemente retornar a minha vez e, palavra a palavra dele, vi que o filósofo o possuía com muito mais paixão do que o analista econômico. Foi o que pareceu, mas posso ter me enganado! Jornalistas adoram se auto-enganar, mistificando suas fontes e entrevistas. Segue Giannetti por Gianetti na minha edição apaixonada:

O autoengano é uma certeza a priori do acontecimento, que é falsa e tem probabilidade muito pequena de se realizar, mesmo assim essa pequena porcentagem prevalece.

O amor-paixão é um autoengano.

O problema é o da promessa que é verdadeira quando é feita, mas que se mostra falsa no momento em que tem de ser cumprida. Essas declarações de amor eterno, no calor do momento, são feitas com toda sinceridade, não é uma mentira deliberada que a pessoa conta para o outro ou para si mesmo, ela está plenamente convicta do que está falando. Eu cito o Caetano, na música Dom de Iludir: Você diz a verdade e a verdade é o seu dom de iludir’.

É isso, uma verdade que mente. É uma verdade exant no momento em que é pronunciada, mas na hora da verificação mostra-se falsa. E não quer dizer que foi feita hipocritamente com intenção de falsidade‚ já que a própria pessoa que a pronunciou está iludida e não conseguiria fazer isso friamente como um manipulador cínico da situação.

Você, de fato, durante aquele instante estava enganado a seu próprio respeito, disse coisas que o tempo mostrou que você não acreditava. Uma hipótese um pouco mais sofisticada é que a pessoa engana a si própria para poder enganar melhor o outro. Se essa declaração fosse feita de modo cínico e frio o outro detectaria de alguma maneira a sua falta de convicção. Agora, como você está tomado por aquele sentimento, aquela verdade interior, você é muito convincente, e isso acaba fazendo com que o outro embarque junto porque ele está  percebendo que você está  realmente sentindo aquilo. Mas num momento posterior aquilo não se revela uma certeza.

Não há nada mais escorregadio do que as declarações e promessas que são feitas na intensidade do calor do momento de uma grande paixão.

A experiência humana mostra isso e, no entanto, a gente acredita nisso recorrentemente, a vida é feita disso. São grandes apostas que a gente faz em momentos muito peculiares da nossa trajetória e, na esmagadora maioria dos casos, infelizmente se mostram perdedoras. O outro fica com a ideia de traição e até paranoicamente acha que foi vítima de uma má intenção, quando muito dificilmente é o caso.

Existe a figura de Don Juan que de fato é o manipulador cínico da situação, o calculista. Na experiência humana não é o mais freqüente, o mais freqüente é realmente uma entrega genuína no momento em que ocorre, mas que a passagem do tempo se encarrega de desmentir, porque não se sustenta. Do outro lado é o desejo de acreditar, a pessoa está morrendo de vontade de acreditar na força do sentimento que está sendo transmitido, é um autoengano. Mas numa situação muito delicada você acaba se convencendo que deve acreditar e o seu desejo de acreditar prevalece. Há uma idealização do outro. Há um filtro que você coloca no outro e que o transforma numa pessoa muito diferente do que os outros percebem.

A pessoa apaixonada perde o sentido da realidade em relação ao objeto de sua paixão.

A característica da paixão é essa forte idealização da figura do outro. Tanto que o apaixonado vê coisas que ninguém mais está vendo, é um momento muito singular de experiência e que contamina, inunda a mente, e é muito poderosa e que muito provavelmente tem raízes biológicas.

Há uma passagem de Shakespeare que capta tudo isso, que é a peça dentro da peça. É um estado arrebatador. Há um padrão muito definido de um êxtase efêmero e que não se sustenta. A palavra êxtase, do grego, quer dizer estar fora de si, a pessoa apaixonada sai de si e isto é um autoengano. Ela já não é ela mesma, ela se tornou outro ser, sente-se muito bem, é uma euforia muito grande que contamina os estados mentais, e ela faz declarações sinceras, nesse momento, que o tempo vai mostrar que são falsas. E isso é muito comum, muito frequente na vida de qualquer ser humano. ‘Quando meu amor diz que ela é feita de verdade acredito sim no que diz embora saiba que está mentindo’.

A pessoa está muito mais propensa a viver o autoengano quando uma emoção muito poderosa é despertada dentro dela.

Porque as emoções afetam a formação de crenças e os nossos estados mentais. Elas o inundam e você forma crenças do seu desejo nas quais acredita, mas não acreditaria nelas se observasse de fora e visse isso ocorrer com outra pessoa. Para quem está de fora não existe o mesmo apelo, a mesma realidade.

É um pai observando a primeira grande paixão de seu filho, não há como ele transmitir para o filho que o que o menino está vivendo é algo fugaz e passageiro e que não deve tomar decisões muito importantes com base no que está sentindo naquele momento porque vai se arrepender, possivelmente. Mas a pessoa que está vivendo isso se sente tomada de uma certeza e de uma força inexplicável que torna muito difícil a situação para quem está fora. A pessoa fica parecendo que é contra, que é muito destrutiva e muito negativa em relação a ela por estar exatamente tentando alertar para a fragilidade de tudo aquilo. É jogar um balde de água fria em algo que está fervendo.

O ser humano busca a paixão profundamente.

Aí entram as forças biológicas. Nós somos seres biológicos e duas características em nós são muito fortes: o impulso de sobreviver e o de reproduzir. A natureza nesses dois vetores é muito exigente e o animal humano é essencialmente programado para corresponder a isso, sobreviver enquanto indivíduo e perpetuar a espécie, tanto que qualquer crise na satisfação dessas duas exigências altera profundamente toda a nossa auto-percepção e o nosso pensamento. Aí que as coisas realmente importantes são decididas e quando esses dois impulsos ficam prejudicados, faltam, o ser humano entra em estado de ebulição.

A paixão é o momento em que a premência biológica de perpetuar a espécie toma conta do animal, eu não estou condenando não, acho que é parte da nossa ligação com o mundo natural. É como a fome, se você passar alguns dias sem comer, sem saber como vai ser a próxima refeição, você muda de pensamento, não controla mais o que vai acontecer com seu estado mental, com as crenças que tem. Você começa a viver um pouco fora de si, vai estar disposto a fazer coisas que em outra situação não faria para conquistar o acesso ao que vai te manter vivo. Você muda muito seu comportamento e o risco que está disposto a assumir para satisfazer o instinto.

É uma fome afetiva, momento em que o instinto de reprodução se torna dominante e contamina todo seu processo subjetivo, sua vida subjetiva fica inteiramente voltada e tomada por essa premência‚ uma força não-racional. Essa é uma visão naturalista desses fenômenos.

Na cultura latina essas vivências são mais intensas, tem a ver com o clima. Os trópicos têm uma generosidade que intensifica os afetos, a vida emocional tem a ver com um certo primitivismo, um processo civilizatório que ainda não está  muito desenvolvido. Os sentidos são muito vivos, tem a ver com educação, com valores.

Vivi sete anos na Inglaterra e uma coisa que sempre me chamou a atenção é que ninguém exibe publicamente suas emoções, pelo contrário, toda sua formação tem foco em conter e disfarçar o que você realmente está  sentindo. Não é parte do jogo da convivência humana ficar dizendo ou exibindo as emoções poderosas que você está eventualmente tendo. Tudo conspira para que você mantenha uma sobriedade, uma fachada uniforme de polidez civilizada. Num contexto como o nosso, da herança latina, há a cultura da exibição da emoção, há até uma cobrança disso, as pessoas gostam de ver pessoas intensamente emocionadas e vivendo emoções poderosas. É valorizado.

A nossa cultura é muito afetiva, o mundo da produção não é tão eficiente quando as pessoas trazem uma carga emocional forte. O mundo da produção exige frieza e racionalidade, portanto uma supressão dessa vivência subjetiva emocional. Ele cobra objetividade. Enquanto que o mundo das emoções, das paixões é a subjetividade de cada um e interfere na atividade cognitiva. Se o que está sendo buscado é o progresso científico com a eficiência econômica provavelmente o padrão superior é o da convivência em que os afetos ficam subordinados e contidos; agora, se o que se busca é uma vida emocionante, plena de aventuras, com grandes paixões e grandes perdas, esse é um outro caminho.

Há mais generosidade humana nessa anarquia dos afetos da nossa convivência do que no mundo rigidamente organizado, pontual e frio da convivência. Uma paixão é um jogo de alto risco. Se você quer viver essa experiência sublime, você deve levar em conta que ela vai ter um custo extremamente elevado, do qual você pode não sobreviver, numa situação extrema de perda. Alguma coisa que é sua te aprisiona, uma imagem que você tem, uma construção que você fez na sua própria mente adquire vida própria e te aprisiona e te oprime durante muito tempo.

As pessoas inclusive procuram ajuda se isso se torna algo muito grave. Eu acho que é uma situação de autoengano.

Agora a perda também tem de ser vivida, e faz parte da experiência de superação da perda uma depressão, um período de recolhimento, é natural que isso aconteça; você manter um estado de euforia permanente também é outro autoengano. Tanto ficar bancando a vítima — e não conseguir se libertar, chegando a uma fase crítica — quanto passar por aquilo fingindo que nada aconteceu e que a vida é uma sucessão de euforias, são casos de autoengano.

O amor? Se nem Dante conseguiu definir, como é que eu vou tentar?

As relações afetivas não pressupõem o autoengano necessariamente. O autoengano faz parte do comportamento exploratório, você tem que conhecer o outro, porque você vai fazer apostas em relação a ele.

O autoengano se configura quando você é tomado por crenças poderosas e muito improváveis de que aquilo será uma realidade eterna, irá durar  para sempre daquela maneira.

A literatura tem muitas imagens e metáforas para caracterizar essa condição muito singular do apaixonado. São poções mágicas, são feitiços, são situações até que demandam uma força superior e que nós não controlamos, que nos toma. É algo que te possui e sobre o que você não tem controle, está tomado, está em êxtase, fora de si e aquilo te arrasta com a fatalidade de uma força natural.

É como se um vendaval, um furacão estivesse passando por você. Provavelmente isso tem raízes biológicas no sentido de que é um momento em que a natureza tomou conta de você. A sua capacidade de dizer não fica muito limitada. No fundo é de um absoluto que estamos falando, é de algo que toma conta e passa a governar tudo o mais. É uma concentração excessiva de valor: aquilo concentra tanto valor para você que o resto não é mais valorizado. O mundo ganha um foco único, singular e absoluto naquilo. Exatamente porque uma concentração tão forte priva de valor tudo o que está  fora daquela situação, daquele objeto.

O “Wether”, de Goethe, se mata, sucumbe. O crime passional é uma realidade. A autodestruição é o recurso, as drogas, a destruição do outro são saídas muito ruins para lidar com a perda.

Para sair da paixão você passa por um processo de revisão interno doloroso, de uma experiência falsa que te arrastou para um mundo ficcional, você no fundo viveu uma ficção.

Eu não vejo curas e soluções não, eu tenho mais a pretensão de ver o fenômeno e de mostrar as encrencas em que ele nos coloca.

Tem um lado muito criativo no autoengano. São apostas no imponderável que fazemos com baixíssima probabilidade de sermos bem-sucedidos, mas que, em alguns raríssimos casos, vingam.

No campo da arte, por exemplo, entre centenas de milhares que tentam‚ um apenas que consegue efetivamente. Você aposta a sua vida numa trajetória de criação, a probabilidade de você ver a real envergadura dessa aposta é bem baixa. Muitos são chamados, muitos tentam, pouquíssimos conseguem justificar a aposta tão pesada que fizeram. Mas eu acho que esses poucos justificam todos os outros.

A humanidade viveria uma estagnação se as pessoas não se arriscassem. E um dia muitos podem lamentar justificadamente por não terem ousado mais na sua vida. Você viveu de maneira tão defensiva, tão protegida, tão na retranca, que você em nome da segurança desperdiçou sua vida.

Capítulo “O autoengano e as mentiras sinceras da paixão”, do livro “Para esquecer um grande amor”, de Christiane Brito, 2017

A autora escreve em português do Brasil

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