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João de Sousa

Sexta-feira, Junho 14, 2024

Guerra e paz

Paulo Casaca, em Bruxelas
Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

A celebração a 11 de Novembro de um século do fim da “Grande Guerra” seria a oportunidade natural para lembrar o que foi primeira guerra mundial e o que ela nos trouxe em morte, sofrimento e destruição por todo o mundo.

  1. O armistício de 1918

Nascida das rivalidades imperiais europeias, a guerra foi a grande demonstração da capacidade da revolução industrial para facultar à humanidade os meios massivos para a sua destruição, tendo sido seguida pela mais mortífera epidemia de sempre, uma gripe cuja estirpe poderá ter surgido no propício ambiente das trincheiras.

Se a guerra teve origem na Europa, ela não ficou por aqui e, por exemplo, como sabemos, as forças portuguesas sofreram mais baixas no teatro de guerra moçambicano do que no da Flandres.

Tudo isto deveriam ter sido razões para que as grandes celebrações do armistício fossem marcadas pela homenagem aos caídos – e no coração da Europa, conviria começar por lembrar os que fora dela caíram por ela – e meditassem sobre as formas de evitar a guerra.

Infelizmente, nada dito foi feito. Onde teria sido de toda a justiça prestar homenagem à imensidão de caídos dos quatro cantos do mundo, o Presidente Macron achou conveniente fazer saltar o exército europeu para o primeiro plano do debate político; onde mandariam as regras da diplomacia realçar a homenagem aos caídos de potenciais adversários, Macron resolveu apontá-los como inimigos, juntando a miopia política à falta de boas maneiras.

  1. O delírio estratégico

Apontar o país onde repousa o essencial da defesa europeia como “inimigo” é suicidário, antever uma capacidade de defesa europeia comparável à russa ou chinesa – identificando-os à priori como inimigos – é irresponsável; esquecer o jihadismo, e muito em particular o jihadismo orgânico iraniano, como uma ameaça essencial à Europa, é cegueira, e é tudo isto o que se pode dizer dos termos em que Macron – secundado por Merkel – lançou o debate sobre o exército europeu.

E tudo isto, claro, sem falar no plano operacional onde a fraqueza é total, ou nos inúmeros palcos da defesa que se não resumem ao exército não são equacionados. Em vez de responder positivamente ao desafio americano de reforço do pilar europeu de defesa, em vez de equacionar de forma sensata os perigos eminentes da desbragada proliferação nuclear, as elites europeias viram-se para a retórica pomposa e vácua de um exército de papel.

Macron resolveu também roubar à extrema-direita francesa o papel de reabilitação do colaboracionismo nazi, na pessoa do seu mais proeminente actor, o Marechal Pétain, e do seu tema favorito, o patriotismo, separando-o do “nacionalismo e populismo” – claramente retratados nos EUA – como o inimigo a abater.

Mas contrariamente ao que ele nos diz, não foi o nacionalismo que fez a guerra mas sim o imperialismo, como já o tinha sido com Napoleão; e é esse mesmo imperialismo que ameaça a paz nos nossos dias.

E quanto ao populismo, tão pouco foi ele que ditou o fim dos Estados de direito. A marcha de Mussolini sobre Roma foi feita por um pequeno número de fascistas que qualquer força militar teria dominado caso houvesse nas instituições italianas vontade para o fazer; Hitler ascendeu ao poder chamado por Hindemburgo depois de uma derrota eleitoral, e não por via do voto popular.

A ascensão de um e outro foram a consequência da incapacidade das elites europeias de responder aos mais prementes anseios das populações, a sua tomada de poder deveu-se à fraqueza das instituições dos seus países.

  1. A Europa perante a deriva das suas elites

Continuo a pensar que aqueles que vêm na Europa a raiz dos problemas se enganam. As tremendas trapalhadas do BREXIT, o afundar da alternativa francesa ao quadro institucional partidário europeu, a crise de confiança na Alemanha ou em Itália são a prova de que os problemas do nosso continente abarcam as instituições europeias mas não têm origens nelas, nem no sistema político-partidário que a domina.

A destruição das instituições europeias é apenas mais um passo no aprofundar da crise europeia mas em nada contribuirá para a salvaguarda do que é a Europa ou das nações que dela fazem parte.

Aquilo que temos de fazer, no quadro nacional ou europeu, é entender onde estão os bloqueios ao nosso sistema político e encontrar respostas para eles.

 

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