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Quarta-feira, Outubro 5, 2022

Irrita-me tanto não conseguir falar com ninguém

Vítor Burity da Silva, Angola
Vítor Burity da Silva, Angola
Ph.D em Filosofia das Ciências Políticas. Pós Doutorado em (Educação e Psicologia). Doutor Honorário em Literatura e Filosofia. Professor Honorário de Filosofia da Educação. Professor Catedrático. Investigador da Universidade de Évora. Membro da Sociedade Portuguesa de Filosofia. Membro da Associação Portuguesa de Escritores. Escritor.

Ecos e remorsos a cabeça estiola.

Vómitos vespertinos como sombras de sapos que se vadiam enquanto nada mais ali se passa, nada mais se pode passar, verdade, porque nos engole o momento, imbuirmo-nos nos costumes e verdades sem cor, se é que há cor na verdade, mas talvez haja mesmo, há palavras que afundam em si mesmas sem que delas nada frutifere, nem uma manga apodrecida se consegue recordar de anos de existência e secou, calada no alpendre pendurada no galho da estepe.

“irrita-me tanto não conseguir falar com ninguém”

Este emudecido aquecedor na sala é como um laivo nas iras de qualquer querer, uma necessidade sem fundo neste quintal sem muros para gritar de saudades!

Terei eu assim escolhido o meu mundo?

O único fim que nos consagra está escrito nas estrelas ou nos astros desses tantos longes no céu ou em qualquer outro imaginário, a morte é a garantia até mesmo para os santos.

Procuro diáfases e encantos brandos, nuvens repletas de sonho, viagens imparidas contra todas as paredes do silêncio e a única voz lá é a minha, sim, ela mesma, contra mim, a repudiar-me de tanto sentir necessário dizer e nada, fico-me apenas no que me digo ou sinto e voo para as montanhas do meu quarto resguardado para as insanidades.

“irrita-me tanto não conseguir falar com ninguém”

Tantas vezes me rego neste jardim forasteiro à beira das antigas olimpíadas para me banhar contra o tédio, fugir nem sempre apetece, aliás, há dias em que nem fugir me apetece, prefiro mesmo o refúgio que encontro nos espadais das memória para nem sempre me recordar se é realmente isto o que terei escolhido, este mundo. Se pudesse inventaria um para mim, apenas para mim e sem egoísmos, garanto, para me sentir nele como quem percorre os corredores do hospício sem vozes a incomodarem, opiniões sem trigo nem joio e apenas escárnio como vendavais de tanto se saber.

Prometi também não fazer num mundo repleto de injúrias, fumos nas vozes e que oradores resplandecentes num palco para glória nenhuma, sim, mostrar o rosto enquanto na plateia o gelo adormece os defuntos por terem de ali estar.

Descobri sei lá quando o medo, coisa que nunca tinha sequer ouvido falar, encontrei-o por baixo das saias das tardes que por todo o lado andam e mostram as cuecas nas esplanadas do horror, verdade.

Sabes?

Hoje tenho tanto medo de mim!


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