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João de Sousa

Sexta-feira, Outubro 22, 2021

O jeito «leve-leve» de São Tomé

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Respira-se brisa quente e húmida assim que é oficializado o desembarque. Um empurrão de sufoco bate-nos na face. O ar parece diferente. O vento sopra ao contrário. A atmosfera está desigual. Extravasa odor a terra e….sim, é verdade, cheira a África!

A autorização de entrada na ilha maior do arquipélago santomense, que ora atira com o bafejo tropical, ora refresca com chuva que cai em torrente, é um processo moroso. Autoridades médico-sanitárias e procedimentos burocráticos com averbamentos de vistos e controle de passaportes vão prendê-lo longos minutos no aeroporto internacional de São Tomé.

Digo-lhe, de antemão, que este não é um destino para impacientes. Seja sereno, desfrute da terra, das gentes, e daquilo que a gente retira da terra, e embarque nesta travessia equatorial com toda a quietação. Entre no ritmo «leve-leve» («levi-levi») e deixe de lado as pressas.

No entanto, se procura adrenalina, descanse que vai senti-la quando se aventurar a percorrer a ilha: entre solavancos, abanões e travagens bruscas, não vai cair na tentação de dizer que sofre de tédio. Prepare-se para arrastar pedregulhos, vias inacabadas, ou autênticas «crateras» nas ligações asfaltadas e fora delas. Tudo isto vai poder experimentar em trilhos secundários ou mesmo na única estrada principal, que ainda não dá a volta completa à ilha.

Torna-se, assim, obrigatório o aluguer de um todo-o-terreno, mas saiba que algumas das estradas já deixaram de o ser e encontram-se intransitáveis.

Depois do impacto do aroma, os olhos fitam-se entre explosões de verde e rebentos de azul. Perdidos no jardim flutuante, o êxtase é indiscutível. Para a costa sul: areias douradas. Para norte: seixos, calhaus e fragmentos de rochas basálticas. A biodiversidade hesita entre begónias gigantes, «rosa-porcelana», todos os tipos de orquídeas e bicos de papagaio, um recenseamento que atinge 800 plantas nascidas e criadas no clima insular.

Sorrisos fáceis

Encravadas na memória continuam as roças coloniais, grandes explorações agrícolas que ressuscitam tempos idos. Herança da opulência do domínio senhorial, aqui pairam fantasmas que insistem em folhear páginas negras da história. Da época da escravatura, à produção de cana-de-açúcar, café e cacau, os flashes são quebrados por olhares e sorrisos fáceis. Antónia, Lucília, Dinho, Juka, Netinho, Bilaine. Não interessa o nome. Importa o ar genuíno. O seu jeito de receber. A forma de dar o que se é.

São dezenas as roças em São Tomé: a maior parte em profunda degradação à espera de um diferente destino, como acontece na imponente Agostinho Neto, e poucas recuperadas para o comércio e turismo. A Monte Café é hoje a maior produtora de café do arquipélago e a Bombaim conserva as únicas (e por isso famosas) árvores de mangustão existentes na ilha.

Paraíso selvagem

ig-st-23Mas o que descobrir mais neste país de origem vulcânica, situado no golfo da Guiné, e o mais pequeno estado africano depois das Seychelles? Além das cascatas roubadas ao céu, da vegetação endémica, das elevações rochosas ladeadas de mantos verdes, pode circular por estradas possíveis e no limite de selvas impenetráveis ter a sorte de observar macacos e papagaios no arvoredo.

Se o azar estiver do seu lado, pode ser surpreendido pelas terríficas cobras pretas, habitantes da floresta de Obô, declarada reserva natural em 2006, e que reveste cerca de um terço da superfície do país.

A escolha rumo ao sul vai desembocar na Ponta Baleia. De barco até ao Ilhéu das Rolas aproxima-se a linha do Equador. Com um pé no hemisfério sul, e outro no hemisfério norte, a paisagem afigura-se sublime. O ilhéu de Santana espreita ao largo. Os coqueirais assomam-se nas escarpas. Aqui, está erguido o marco em homenagem aos aviadores portugueses Gago Coutinho e Sacadura Cabral. E aqui, também, é o melhor local para se assistir à desova das tartarugas.

De regresso à capital que fica a 75 quilómetros, o fôlego permite ainda o mergulho nas lagoas de nomes Azul e Amélia. Escutar o som da Boca do Inferno ou Calçada dos Gigantes, onde as ondas batem fortemente nos prismas basálticos. Desfrutar de praias quase inacessíveis e solitárias. E quando de surra chega o fim do dia, traz na memória a voz dos gaiatos, seus sorrisos e correrias, a gritar: «branquinha… branquinhaaaaaaa…doce, doce». As lavadeiras ficaram para trás. Os homens devem estar a sair para a pescaria. As baleias nadam pacientes. E os dias andam devagar. Tão devagar que Príncipe terá de ficar para a próxima. E assim se vai em São Tomé: «leve-leve».

Ilhas chocolate

Conhecido como as ilhas chocolate, por ter sido o primeiro produtor mundial de cacau, São Tomé e Príncipe tem menos de 150 mil habitantes. Quase seis séculos depois dos navegadores portugueses terem aportado nas águas do golfo da Guiné, os vestígios da época da colonização, e testemunhos de reivindicações populares como o Massacre de Batepá, podem ser recordados no Museu Nacional, implantado no Forte de São Sebastião, hoje guardado pelas estátuas de João Santarém, Pêro Escobar e João de Paiva. Registada para a História fica ainda a revolta do escravo chamado Amador, no século XVI, imortalizado como herói nacional e monumento petrificado nas ruas de São Tomé.

Pitéus exóticos

Seja calulu de peixe ou de galinha, peixe fumo, peixe barriga, peixe voador…, os sabores exóticos são apaladados com gengibre, pimenta, açafrão, ou canela – as tão cobiçadas especiarias da época dos descobrimentos.

Rumo a norte da ilha, em Neves, não se furte a experimentar a melhor santola que alguma vez sonhou petiscar, refrescando-se com a cervejola Creola. A casa em construção de madeira, singela e popular, fica paredes-meias com as restantes habitações da cidade costeira. A banda sonora, essa, está sintonizada nos ruídos das galinhas, porcos e demais bicharada em redor. Um luxo, para poucos!

Obrigatório é abancar no café Passante, ao lado do Hotel Miramar, para tomar um pequeno-almoço prolongado. Deixe-se levar pela brisa da baía Ana Chaves, fique a observar e a interagir com as gentes e seu jeito leve-leve de ser.

O restaurante Pirata, à saída da cidade em direcção a Santana, e o Filó-mar, junto à Praia Lagarto, onde se come um cherne magnífico, também merecem uma passagem. Atreva-se a descobrir o snack bar Papa Figo, o Bigodes e o Kudissanga. Mas a verdadeira maga dos pitéus locais, difíceis de imitar, é a nossa tímida Antónia que nos consolou os cinco sentidos e também o espírito com uma galinha à moda de São Tomé, um polvo complexo de sabores degustado até à exaustão e uma feijoada de peixe… que manjar divino neste jardim do Éden!

ig-st-01Há quem diga que neste país tudo cresce com tamanha fertilidade. E que para além da simplicidade desarmante dos filhos da ilha chocolate, esta é uma das suas maiores riquezas: bananas, fruta- pão, matabala, cajá-manga, abacaxi, abacate, jaca, papaia, safu, cola e o famoso mangustão.

Como chegar

A TAP tem três voos semanais para São Tomé (duração média de oito horas) com escala em Acra. Há preços a partir dos 900 €. Se optar por viagens organizadas, há preços disponíveis desde 710€ para estadias de uma semana.

O aeroporto de São Tomé fica a 5 Km do centro da cidade. Dispõe de serviços de transporte através de táxi.

Quando ir

De clima equatorial, São Tomé varia entre duas estações: a estação fresca de Setembro a Maio e a estação seca de Junho a Agosto. De super-húmido a semi-árido, pode enfrentar chuvas tropicais ao longo do dia.

Precauções

É obrigatória a vacina contra a febre-amarela. Aconselha-se o uso de repelentes de insectos, a não ingestão de alimentos crus e de águas não engarrafadas. É ainda recomendada a vacina contra a Hepatite B para longos períodos de permanência, e a profilaxia da malária. Os pedidos de visto deverão ser solicitados na embaixada de São Tomé e Príncipe, avenida Gago Coutinho, em Lisboa, ou no consulado do Porto, avenida da Boavista, mas atenção: faça o pedido com uma antecedência de sete dias e não se atreva a embarcar sem o carimbo no bolso.

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