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João de Sousa

Segunda-feira, Setembro 27, 2021

O mar que nos abraça

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Cabo Verde, Ilha da Boavista

A chegada a Cabo Verde é um pouco como aquela canção do brasileiro Toquinho (“Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo/ E com cinco ou seis rectas é fácil fazer um castelo”).

Há sol, e o aeroporto é um castelo de areia autêntico. Como ele, temos medo de que toda a ilha desapareça de repente por baixo da violência de uma onda – é tudo belo demais.

Do avião, ainda antes de aterrar, já dá para ver o que os panfletos da agência de turismo não contam: há uma estrada boa, vinte estradas más, duas cidades pobres, e dois hotéis ricos – é tudo simples demais.

De resto há betão, há madeira, há terra. E há pessoas.

O mundo gira para um lado diferente, a inocência transborda: vive-se muito mal, dança-se muito bem, chora-se muito mar, joga-se muito futebol.

E sorrir é o remédio mais santo, numa terra a que os milagres e os santos vão tão pouco, mas em que talvez os santos estejam por todo o lado.

Em 2015 o furacão Fred atingiu a ilha da Boavista num ponto histórico que tem o nome de Santa Mónica e que foi a primeira zona colonizada daquela ilha. É uma vila pequena, em que se avista ao longe o mar. Não pode ter mais que 30 casas de madeira.

Antes da tempestade tinha um enorme salão de pedra que servia para todas as actividades da região enquanto comunidade (reuniões, extensão da escola primária, bailes, futebol), mas o furacão destruiu as paredes e o tecto.

É agora uma mancha de pedra e lixo tão grande como a própria vila.

Santa Mónica tem uma capela pequena que está vazia. Tem nas traseiras um caixão que já foi usado, mas que agora está só à espera. É uma capela sem deus. Santos há, pelo menos aos olhos de quem chega ali vindo de uma europa fácil.

Quem morre num país com uma livraria, uma democracia, e um cinema, não pode ser tão santo como quem morre entre a solidão, a injustiça, e as montanhas, num caixão talhado por si mesmo à mão.

São tão imensos o pó e o silêncio, que talvez nem a própria Santa Mónica soubesse morrer assim.

Há uma escola primária. Era dia de receber o professor que vinha de novo e os 20 alunos, misturados em género e em idades, cantam o hino nacional de cor com olhos de quem sabe e quer cantar mais alto: “Canta, irmão/canta, meu irmão/que a liberdade é hino/e o homem a certeza/Com dignidade, enterra a semente/no pó da ilha nua/no despenhadeiro da vida/A esperança é do tamanho do mar/que nos abraça/Sentinela de mares e ventos perseverantes/Entre estrelas e o Atlântico/Entoa o cântico da liberdade.”

A educação é vista, tanto por professores como alunos, como um bem extremamente necessário e urgente. Como uma arma-flor contra a doença crónica que é ter um povo inteiro embebido na noção de que pertencer ao “Terceiro Mundo” é condição irreversível.

Disseram-me que ali qualquer livro a mais é futuro a mais. Deixei todos os que trazia comigo.

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A ilha da Boavista é pouco menos que uma tela empoeirada, descolorida, triste e linda. Entre as casas em roxo-pungente e verde-cimento, há pouca coisa. Há, no entanto, muito espaço para tudo o que virá porque a esperança é do tamanho do mar.

E longe de um mundo diferente (com muito mais cimento que casas, com muito menos mar e muito menos esperança), Cabo Verde é quem com dignidade, enterra a semente. Porque num mundo assim, com tantos mundos assim, é preciso viver como na velha canção de José Mário Branco: “fazer de cada perda uma raiz, e improvavelmente ser feliz”.

Canta, irmão. Cantem, meus irmãos.

 

Por Catarina Alecrim

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