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João de Sousa

Sábado, Outubro 23, 2021

Manuel de Azevedo

Helena Pato
Antifascistas da Resistência

(1916 – 1984)

Jornalista (O Século, Norte Desportivo, O Primeiro de Janeiro, Diário de Lisboa), activista cultural e associativo (AJHLP, Sindicato dos Jornalistas, Cineclube do Porto), antifascista, comunista, militante do MUD e MND e, mais tarde, do MDP. Foi um resistente antifascista para quem Abril chegou depois de muitos combates, que travou com grande coragem e generosa solidariedade. Associou-se a todas as actividades da Oposição, numa vida de resistência e de persistência, na qual a actividade profissional, o exercício da crítica no domínio do cinema, o jornalismo cultural e de intervenção, a militância associativa, sindical e cívica, se integraram como componentes da unidade de um carácter e de uma conduta moral e social.

Activista cultural e associativo

Filho de Georgina Tedim Monteiro (1879 – 1925) e de Manuel José Rodrigues (1865 – 1924) e irmão de Elmina Rodrigues Monteiro Tedim (1914 – 1997), Manuel Rodrigues Monteiro de Azevedo nasce em Folhadela, Vila Real, em 1916 e, cedo, parte para o Porto.

(Foto facultada pela filha, Gina Azevedo)

No Porto

Manuel de Azevedo frequenta a secção de Ciências no Liceu Rodrigues de Freitas e Liceu Alexandre Herculano, onde cedo se envolve com as causas políticas e culturais, a par de um grupo de amigos que o irão acompanhar ao longo da vida e de vários dos projectos que integra, como Carlos Espaín, Carlos Barroso, Lobão Vital, Dilermano Marinho e José Soares Lopes, etc.

Ingressa, no ano lectivo de 1935-1936, na Faculdade de Ciências, da Universidade do Porto e, em virtude do seu envolvimento no projecto Sol Nascente, Quinzenário de Ciência, Arte e Crítica (1937-1940), pede transferência, em 1938-1939, para a Faculdade de Ciências de Coimbra.

Com 19 anos, em 16 de Fevereiro de 1935, “o jornalista é preso por esta polícia (…) por propaganda subversiva e entregue no T.M.E. que o condenou a 500$00 de multa e perda de direitos políticos por 5 anos.”. Detido juntamente com Carlos Espaín, sai em liberdade em 25 de Abril de 1935[1].

Em 1937, esteve na fundação da revista Sol Nascente onde colabora em todas as fases da sua produção, com artigos, gravuras, paginação e coordenação da revista, desde o nº 1, de 30 de Janeiro de 1937, a 15 de Abril de 1940. Durante grande parte da vida do periódico, a sede da redacção e da administração funciona na sua casa de família, na Rua do Bonjardim, nº 629, Porto. Manuel de Azevedo parte para Coimbra (1938-1939) quando a sede da Sol Nascente se transfere para essa cidade.

Em Coimbra…

Em Coimbra ocorre nova detenção, enquanto residia na Couraça de Lisboa, nº 38, num quarto partilhado por Jorge Mendonça Torres, morada esta que funcionava, na prática, como redacção, administração e distribuição da revista. A detenção acontece em 25 de Maio de 1939, sob a acusação de os “arguidos professarem ideias comunistas, informação esta colhida pela Inspecção desta Polícia em Coimbra, onde se encontram a estudar. Não se provou no decorrer das averiguações terem feito propaganda, mantido ligações ou desenvolverem qualquer actividade revolucionária, motivo porque foi ordenada a sua liberdade condicional” (da acusação da Polícia Política).

«Campismo, 1950. Natália Maia (ao fundo), Almor Viegas (à esquerda), Manuel de Azevedo (ao centro) e Gina (à direita).» – Agradecemos a fotografia à filha, Georgina Azevedo

Volta ao Porto

De regresso ao Porto, continua a actividade política clandestina associada ao Partido Comunista, sendo companheiro de muitas lutas de António Lobão Vital e de Virgínia Moura, esta última que o refere inúmeras vezes no seu livro Mulher de Abril[2]. Casa com Maria Natália Maia, sendo ambos activistas da Delegação da Associação Feminina Portuguesa para a Paz: a mulher como sócia e Manuel de Azevedo como sócio auxiliar, tal como o cunhado João Arnaldo Rodrigues da Fonseca Maia (24/12/1916 – 03/07/1987), também jornalista e comunista.

Apaixonado pelo cinema, participa no filme Aniki-Bobó (1942) de Manoel de Oliveira, evidenciando-se, nas décadas de 40 e 50, no movimento cineclubista, juntamente com Henrique Alves Costa. Fez parte da Direcção do CPC-CCP e participa em Setembro de 1947, enquanto representante dos Cineclubes Portugueses, no I Congresso Internacional dos Cineclubes, em Cannes, para a formação da Federação Internacional dos Cineclubes.

Em 1949, Manuel de Azevedo colabora activamente na campanha presidencial de Norton de Matos (MND). Nesse mesmo ano, aquando da prisão de Álvaro Cunhal no Luso e da sua transferência para a prisão da Rua do Heroísmo, no Porto, integra o grupo dos quatro responsáveis, com António Lobão Vital (1911-1978), Osvaldo Santos Silva (1913-1951), outro sócio auxiliar da AFPP, e Virgínia Moura (1915-1998), pela publicação do anúncio de 30 de Março n’O Primeiro de Janeiro, onde se publicita a detenção do principal dirigente comunista, evitando possíveis consequências mais graves para o detido. A informação da prisão do dirigente comunista fora dada através de Elisa Amado ao visitar o marido, Armando Bacelar, detido na mesma prisão.

No Porto, quatro pessoas no Café A Brasileira, da Rua Sá da Bandeira, ponderam uma decisão. Virgínia Moura, Lobão Vital, Manuel de Azevedo e Osvaldo Santos Silva temem que, se o silêncio prevalecer, os detidos possam ser espancados até à morte. Receando os ouvidos indiscretos, saem do café e caminham até à Menina Nua, a estátua da Juventude, de Henrique Moreira, discutindo «várias hipóteses mais ou menos impraticáveis». Acabam por concluir, como n’O Escaravelho de Ouro de Edgar Allan Poe (1843), que o melhor sistema é uma mensagem à vista de todos num jornal que todos leiam: O Primeiro de Janeiro. Redigem por isso uma mensagem que, do ponto de vista da encriptação, possa ter dupla valência: por um lado, não desperte o alerta dos empregados do jornal que processam os classificados; por outro, que possa ser descodificada após publicação.

A tenacidade e coragem de Manuel de Azevedo, então jornalista de O Primeiro de Janeiro, continua nas campanhas presidenciais de Ruy Luís Gomes (1951), de Humberto Delgado (1958) e de Arlindo Vicente (1958). Em 1958, dá voz no Rádio Clube Português à campanha eleitoral de Arlindo Vicente, de que era um dos proponentes[3] e é um dos que aguardou a sua chegada na Estação de São Bento, no Porto, em 20 de Maio.

Associa-se, ainda, a todas as iniciativas da Oposição à Ditadura, nomeadamente participando nas diversas celebrações do 31 de Janeiro e do 5 de Outubro.

E vai para Lisboa

Estando há 17 anos como repórter em O Primeiro de Janeiro, Porto, sem progressão na carreira e com Maria Natália Maia desterrada por motivos políticos para a província, enquanto funcionária dos CTT (Torres Novas, Mealhada, Póvoa do Varzim e Lisboa, em 1961), rumam a Lisboa, como forma de reunir a família: Cesaltina Maia (sogra), Maria Natália Maia (mulher), Maria Georgina Maia de Azevedo (filha) e Maria Manuela Maia de Azevedo (filha). Manuel de Azevedo passa a integrar a redacção do Diário de Lisboa, jornal onde trabalha até à sua morte, em 1984.

Na sequência da prisão da sua filha Maria Georgina pela PIDE, em 25 de Novembro de 1964, e do sofrimento físico e psicológico que lhe foi infligido, Manuel de Azevedo escreve uma carta, datada de 7 de Dezembro, ao ministro do Interior, Santos Júnior, a denunciar a situação porque estava a passar a menor e a exigir, “como pai e como cidadão”, “que terminem tais práticas sobre a minha filha e sobre outros jovens que porventura estejam a sofrer o mesmo, pois elas são, não só contrárias às leis portuguesas, como à consciência de todos os homens bem formados do mundo inteiro. Solicito a V. Ex.ª providências imediatas, como é de justiça.”[4].

Através desta acção de cidadania e empenho do pai e cidadão Manuel de Azevedo, que consegue mobilizar solidariedades nacionais e internacionais, em resultado do prestígio de que gozava, beneficia a filha bem como outros detidos.

Manuel de Azevedo continua, até à queda do regime, em 25 de Abril de 1974, a mesma incessante luta.

Após a revolução, milita no MDP/CDE e desempenha várias funções no âmbito do Conselho da Imprensa e do Sindicato dos Jornalistas. Mantêm-se, até falecer, aos 67 anos, a 6 de Julho de 1984, destacado e respeitado jornalista do Diário de Lisboa.

Sobre Manuel de Azevedo

O seu desaparecimento, vítima de um acidente cardiovascular, motivou o sugestivo título de primeira página “Morreu-nos o Manuel de Azevedo”[5]. O Diário de Lisboa e familiares recebem mensagens de pêsames de inúmeros amigos, de leitores, de agremiações, dos partidos políticos (MDP/CDE, Partido Comunista, Partido Socialista), dos órgãos de soberania, e dos colegas de profissão e a evocação sentida e contristada de muitos camaradas da luta antifascista.

Fernando Piteira Santos, intitulou “Uma geração que esteve na Resistência” a sua secção “Política de A a Z”, destacando o papel histórico, e muito pouco (re)conhecido, mesmo entre os amigos, de Manuel de Azevedo: “Muito jovem Manuel de Azevedo se definiu, escolheu um campo, um território de resistência, de sonho, de liberdade. Nele viveu. Quaisquer outros méritos do homem são menores, ou acessórios, perante este exemplo de fidelidade a si próprio. Foi a sua uma vida de resistência e de persistência, na qual a actividade profissional, o exercício da crítica no domínio do cinema, o jornalismo cultural e de intervenção, a militância associativa, sindical e cívica, se integram como componentes da unidade de um carácter e de uma conduta moral e social.” E o director-adjunto do jornal concluí a sua coluna reafirmando que “foi um constante sonhador de uma pátria popular. Era um democrata, o Manuel de Azevedo. Foi um resistente antifascista. Foi um homem para quem Abril chegou tarde e foi uma esperança”[6].

João Honrado (1929-2013), militante comunista que conheceu a clandestinidade e a prisão, escreveu, no mesmo diário, que Manuel de Azevedo “mitigou-nos a fome muitos dias. Deu-nos o pão e o agasalho da sua casa no Porto e em Lisboa. Emprestou à Resistência mais força. Nunca nos fechou a porta. Sejamos mais directos: abrir a porta a clandestinos, referenciados ou não pela Polícia, não muitos o fizeram com a coragem de Manuel de Azevedo. […] Nas melhores e piores horas do percurso manteve uma inalterável boa disposição de combatente. […] Nunca vimos Manuel de Azevedo adiantar-se para situações pessoais de destaque. […] Parecia vaidoso mas era modesto. Legitimamente orgulhoso, isso é verdade. Apontem-lhes defeitos, está certo. Olhem amigos: não lhe podem (lá isso não) referir nódoa de carácter pessoal e de natureza política. Nós não lhas conhecemos. A nossa lidação foi com um homem digno – e por isso não esqueceremos (cívica e politicamente) Manuel de Azevedo”[7].

Armando Bacelar, que com ele tanto conviveu e lutou no Porto, lembrou que “o jornalista que foi a enterrar na tarde dum dia brumoso deste mês de Julho foi figura destacada dos movimentos cultural e político progressistas iniciados na juventude académica na segunda metade da década de trinta deste século e que depois se prolongou”[8]; Luís Francisco Rebello reforçou ideia de que “sem alardes nem hesitações, a causa da Liberdade e a defesa da Cultura democrática (a única verdadeira) encontrou sempre nele um combatente denodado, e pagou com pesados sacrifícios o preço da sua dedicação a essa causa. A sua vida e o seu companheirismo ficam como um exemplo que não pode ser esquecido”[9].

Manuel de Azevedo escreveu: em 1941, O Cinema em Marcha; em 1945, Ambições e limites do Cinema Português e Panorama Actual do Cinema. Em 1948 publicou: O movimento dos Cáneclubes. Em 1951, Perspectivas do Cinema Português; e em 1956, À Margem do Cinema Nacional.

 

Diário de Lisboa de 7 de Março de 1975

(Arquivo da Fundação Mário Soares)

[1] ANTT, Arquivos da PIDE/DGS, Processo 1018/35.
[2] Edições Avante!, 1996.
[3] República, 03/05/1958.
[4] Ana Aranha e Carlos Ademar, No limite da dor, 2014, Depoimento de Maria Georgina Maia de Azevedo.
[5] Diário de Lisboa, 06/07/1984.
[6] Fernando Piteira Santos, DL, 09/07/1984: “Uma geração que esteve na Resistência”, DL, na sua secção “Política de A a Z”.
[7] João Honrado, “Também por Manuel de Azevedo”, DL, 12/07/1984.
[8] Armando Bacelar, “Manuel de Azevedo”, DL, 19/07/1984.
[9] “Uma carta de Luiz Francisco Rebello”, DL, 19/07/1984.

 


Dados biográficos:

Biografia da autoria de João Esteves em colaboração com Helena Pato e Georgina Azevedo Gina (filha de Manuel de Azevedo) | Fotografias facultadas por Gina Azevedo, filha de Manuel de Azevedo.

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