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Quarta-feira, Agosto 10, 2022

Onde está o movimento estudantil?

João Vasco AlmeidaDesapareceu da sociedade a revolta juvenil, a batalha revoltada e refrescante dos estudantes, o movimento cheio de garra e imaginação. Foi-se há uns 20 anos e nunca mais voltou. O que perdemos é incalculável. A domesticação dos jovens foi conseguida e levará, ainda mais, a um país sem qualquer rasgo.

Não vos sei oferecer grande explicação para isto. Um dos motores dos movimentos estudantis eram, sempre foram, as juventudes políticas, mais ou menos organizadas. Entravam nas escolas e nas universidades numa tentativa de captar talentos antes de estarem maduros. Havia também casas e famílias com ambientes normais, onde a política se discutia tanto como o Festival da Canção ou o futebol. Os putos eram educados com valores concretos e estavam acompanhados. Claro que nem todos: conheço gente que, com 40 anos, não distingue um Freitas de um Cunhal e nem imagina quem foi o Mota Pinto ou o Armando Vara (ainda bem, neste caso).

Outro dos contributos para a revolta eram os professores que provocavam o pensamento. Colocavam desafios e inquietavam os alunos. Gente que sabia que a Escola era, e ainda é, mais do que local de instrução. É um mundo onde se passam oito ou mais horas e se estabelecem as primeiras relações extra-familiares, afectivas, sociais, criativas e políticas. Bons professores (que ainda há, mas raros) tomavam boa conta destas características.

Mov estudantesHá dias, em conversa com um líder partidário dessas jotas, perguntei onde andava a revolta saudável dos putos. O rapaz, de blazer e sorriso plástico, fugiu a sete pés e atirou-me um assessor para a frente, que me deu um cartão e me pediu para ligar depois ou mandar um e-mail. “Estamos a trabalhar nisso”, rematou. Entre os dois não somavam a minha idade.

Não tenho explicação, proponho apenas isto: obrigámos os putos a crescer depressa demais e a mitigar toda a imaginação que advém da boa revolta. Se antes as famílias cretinas da burguesia e da nobreza falsa afastavam os filhos do conhecimento e lhes indicavam a medicina, o direito e a engenharia como graal, hoje a maioria exige que a prole dê lucro e seja bem comportada e figure nos rankings. Cortámos as pernas, as mãos e o cérebro às crianças e aos jovens. Exigimos-lhes que sejam o que nunca fomos – bem educados, modais, normalizados, com uma noção do ridículo que os afasta do pensamento criativo e curioso.

Estamos no mau caminho. Não vejo gente nova a ser gente nova, apenas miúdos a tentar ser adultos.

De adultos estamos nós fartos.

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