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Quinta-feira, Agosto 5, 2021

Não ouso aqui inverter a ordem das coisas

Beatriz Aquino
Formada em Publicidade e Propaganda. É escritora e atriz de teatro. Nascida no Brasil a viver em Portugal.

Poema inédito de Beatriz Aquino

Não ouso aqui inverter a ordem das coisas

Não ouso aqui inverter a ordem das coisas.
Tampouco subverter o uso da palavra.
Mas o que escrevo não obedece ao natural.
Ou àquilo que denominam de natural.

Há uma estranha assimetria nas coisas belas.
Sendo que as feias
gostam de andar em fila.

Escapei com custo do sacerdócio.
Quiseram por que quiseram me colocar em vestes santas.
Mas descobri a tempo que é outra a minha liturgia.
O cio do mundo precisa de tradutores explícitos.
É necessário que o sentir humano se exprima sem recortes.

Outro dia vi um anjo descer dos céus.
Vi.
E fiquei feliz ao perceber que em seus pés continham a poeira
dessa mesma terra insana.
E que em seus olhos também moravam pecado e dor.
É bom quando é assim.
Quando o divino nos encontra em nossa fraqueza.
Só assim, reconhecidos, banhados pelas lágrimas dos trágicos acontecimentos
e também dos felizes, é que chegamos no cume da montanha mais alta.
E ali sabemos apreciar a vista porque entendemos mais de profundezas
do que de ar rarefeito.

Havia um tempo em que senhoras me beijavam as mãos
e diziam-me “pura”.
Lembro de ter sido essa a época em que mais senti medo.
Depois veio a rebeldia e o frio da queda.
Não se prepara as jovens de boa índole para as correntes incertas
dos corredores da vida.

E logo, a certificação de que pura não era.
E o espanto ao constatar que jamais quisera ser.
Em seguida, o delicioso desvario nos braços de um estrangeiro.
Um homem que me ordenava absurdos em uma língua ouvida há muito
pelos meus ancestrais.

E assim como os navegantes daquela época,
também ele me trouxe um espelho
e me fez ver que eu era de carne
e que também sangrava.
Foi bom.

No mais, lembro-me apenas de ter balbuciado algumas pálidas interjeições
e uma ou outra frágil negativa aos comandos daquelas mãos.
Que claro, não foram ouvidas.

Hoje, ao olhar-me o reflexo no espelho que sou,
vejo no róseo do rosto – e do seio- que estou bem viva.
Bem mais viva que antes.

As intempéries do corpo conhecem bem o caminho
até as artérias mais importantes.
E pulsações que antes entendia como sacras,
hoje me são mais naturais que o ar que me sai das narinas.

É bom ser mulher.
É doce, quente e perigoso ser mulher.
E ser uma mulher que sabe que é uma mulher então,
é um perigo de grossa magnitude.

Eu sei.
Sei dos abalos sísmicos que posso causar em mim e no outro.
E não escondo essa satisfação.
Sorvo o que me é de direito
e dispo a túnica ingénua da segurança.

Mas revisto tudo que faço de divindade e beleza.
Porque sou bicho, mas bem antes disso,
sou poeta.

 


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