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Terça-feira, Novembro 30, 2021

No centenário do nascimento de Sophia – Parte I

Adrienne Savazoni Morelato, de São Paulo
Mestre e doutora em Estudos Literários pela Unesp, é professora da rede estadual de São Paulo e poeta

Trajetórias Poéticas entre Cecília Meireles e Sophia de Mello Breyner Andresen: Da gênesis da criação à poesia como salvação no espaço e no tempo – uma análise do  Percurso e do caminho comuns

A poesia é a linguagem capaz de unir seres humanos no tempo e no espaço, abrindo o caminho para um grande encontro universal e primevo. Ela capaz de devolver o humano para a sua matriz e carregar de sentido todas as coisas que já perderam suas representações e vivificação. A poesia é o gesto que sela uma nova promessa de linguagem e com ela, outra significação para o ser. Neste sentido, Sophia de Mello Breyner Andresen e Cecília Meireles partilharam, sem se conhecerem fisicamente, uma grande atmosfera mítica e cíclica numa consciência poética comum, onde suas obras são envolvidas por temas e símbolos semelhantes.

Cecília Meireles

Cecília Meireles nasceu em 1900 e Sophia em 1919, uma diferença exata de 19 anos. Quando Sophia estava nascendo em corpo físico, Cecília experimentava outro nascimento. O nascimento como poeta! Neste ano, ela publicava o seu primeiro livro: “Expectros”. Desse modo, a coinfluência será dada direta de Cecília para Sophia e não ao contrário, o que resulta de uma inversão cultural interessante, na qual uma poeta brasileira serviu como parâmetro e inspiração para uma poeta portuguesa, isto é, a Colônia influenciando a Metrópole. Sophia de Mello Breyner nunca negou a presença que poesia da brasileira teve em sua obra. As duas de um lado ao outro do Atlântico serão colocadas por Luciana Stegagno Pucchio (1997, p 557), junto com Rosália de Castro e de Florbela Espanca, como as “vozes mais puras da poesia de expressão portuguesa de todos os tempos”.

A poeta de “Dia de Mar” bebeu da poesia brasileira, como também dos seus antecedentes da literatura portuguesa na busca de uma poesia limpa e pura, onde toda a palavra tem uma voz fixa e exata. Já Cecília procurou o seu próprio caminho na poesia nacional, trilhando seus percursos poéticos com originalidade e princípios estéticos enraizados na lírica tradicional, mas que não deixaram de expor dilemas da Modernidade. Neste sentido, exercer a função poética, principalmente para as duas poetas, passa a ser não meramente um acontecimento artístico, mas antes de tudo; um compromisso com o ser, com a realidade e com a vida.

São 20 anos e um mar que as separam uma da outra. Embora separadas pelo além-mar, elas partilham da mesma atmosfera de indagações, angústias, medos e vazios dos meados do século XX. O encontro presencial das duas não ocorreu, assim também como o de Cecília com Fernando Pessoa. No lugar, a poeta brasileira mandou uma caixa com pinhas de Natal que passou a enfeitar a árvore de Natal da poeta portuguesa todos os anos. No desencontro, a presença simbolizada por pinhas:

Aconteceu uma coisa, que não foi um encontro, foi mais um desencontro, porque nesse tempo eu estava muito metida nas lutas contra o salazarismo, e a Cecília estava em casa de um escultor que era muito boa pessoa, mas tinha uma mulher – ela já deve ter morrido – que lhe disse que eu era perigosa, e isso fez um bocado de confusão (…) Organizámos com os melhores escritores portugueses, com o Casais, o Jorge de Sena, etc., uma sessão de homenagem à Cecília. E a Cecília não apareceu. E depois soubemos que lhe tinham dito que éramos uma organização de comunistas. E eu fui à sessão e li os poemas da Cecília com o mesmo entusiasmo. Quando daí a dois dias o amigo da Cecília que lá estava lhe disse que a sessão tinha sido muito bonita, a Cecília ficou arrependidíssima, porque tinha feito uma figura pouco simpática. A Cecília era muito bonita. Mas era uma mulher muito dominada (…) Então, daí a dois dias, dela recebi um grande cacho de uvas, pinhas do Natal e flores. Sabe que nunca agradeci? Mas todos os Natais eu pus no presépio as pinhas que a Cecília me deu. Penso que ela sentiu um certo arrependimento.
(ANDRESEN apud BELLO , 2011 p.8)

Apesar de Sophia dizer que Cecília era uma mulher muito dominada, e que não teria ido ao encontro por achar que aqueles poetas eram todos comunistas, a poeta brasileira foi uma das vozes mais rígidas contra a ditadura de Getúlio Vargas escrevendo crônicas combativas nos jornais do Rio de Janeiro, como também teve a   Biblioteca Infantil, projeto de sua autoria e primeira biblioteca do gênero no país, fechada pelo regime do Estado Novo. Além da liberdade de expressão, Cecília defendia a própria literatura infantil, a educação democrática e a Escola Nova. Em 1929, por exemplo, ela defenderá a tese O Espírito Vitorioso para tentar a cadeira de literatura da Escola Normal do Distrito Federal (RJ) com a Ode Triunfal de Álvaro de Campos. Mas foi reprovada, justamente por ser uma candidata oposta à Igreja e defensora do Estado Laico. Saberá também o que chegou para Sophia sobre o não comparecimento de Cecília? O fato é que houve um desencontro e esse artigo tentará uni-las.

Em 1944, quando aos 25 anos de idade Sophia de Mello publica o seu primeiro livro: Poesias, Cecília Meireles já é a madura poeta de Viagem, Vaga Música e Mar Absoluto. A poeta carioca, nesta data, havia já ganho o Prêmio da Academia Brasileira de Letras e se firmara desse lado do Atlântico como uma das maiores personalidades femininas do continente sul-americano. Por isso, não deixa de ser natural a admiração da poeta portuguesa pela  brasileira, além do mais, a poesia ceciliana se solidifica como uma das mais representativas da tradição lírica de língua portuguesa. Ela talvez seja a que mais se aprofundou em trazer para a poesia moderna, a melodia e a doçura das cantigas medievais, sua força de expressão em cantar o sofrimento, em fazer do pranto a palavra como no poema A doce Canção de Vaga Música:

 

A doce Canção de Vaga Música

Pus-me a canta minha pena
Com uma palavra tão doce,
De maneira tão serena,
Que até Deus pensou que fosse
Felicidade – e não pena.

Anjos de lira dourada,
Debruçaram-me da altura.
Não houve, no chão, criatura
De que eu não fosse invejada,
Pela minha voz tão pura.

Acordei a quem dormia,
Fiz suspirarem defuntos.
Um arco-íris de alegria
Da minha boca se erguia
Pondo o sonho e a vida juntos.

O mistério do meu canto,
Deus não soube, tu não viste.
Prodígio imenso do pranto:
-todos perdidos de encanto,
Só eu morrendo de triste!

Por assim tão docemente
Meu mal transformar em verso,
Oxalá Deus na o aumente
Para trazer o Universo,
De polo a polo contente.

(MEIRELES, 2001 p. 348-349)


Texto original em português do Brasil



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