Diário
Director

Independente
João de Sousa

Quarta-feira, Fevereiro 8, 2023

O comboio que nunca chegou

Beatriz Lamas Oliveira
Beatriz Lamas Oliveira
Médica Especialista em Saúde Publica e Medicina Tropical. Editora na "Escrivaninha". Autora e ilustradora.

Pedro e Clara são irmãos gémeos. Vivem numa aldeia agreste mas bonita aos olhos dos dois irmãos. Cercada de serranias, um ribeiro bravio corre no fundo do vale.

Na aldeia de Carril Velho, ambos vivem com os pais e o Avô. A Avó Cremilde só conhecem de ouvir falar. O Avô foi ferroviário, e antes dele ferroviários tinham sido o bisavô e mesmo o trisavô. São a família dos Oeste, todos eles Pedro de primeiro nome. Conta o avô Pedro Oeste que, o primeiro da família de que há notícia com esse nome,era o tal trisavô Pedro, cujo pai, grande admirador das modernas formas de transporte teria dado o nome do então rei D. Pedro V que morrera jovem, aos 24 anos, e que tinha sido grande entusiasta dos caminhos de ferro.

A família Oeste é conhecida pelos “Ferros” e os meninos Pedro e Clara, no primeiro dia de escola tinham naturalmente declarado serem os irmãos Ferro. A Professora, que os via pela primeira vez, pois os meninos deslocavam-se, da aldeia onde moravam para a Vila de A-dos-Frades, onde ficava a escola básica, procurou na sua lista de novos alunos pelos nomes dos recém chegados. E de facto havia um Pedro e uma Clara, de Carril Velho, mas tinham o apelido Oeste.

_Meninos, expliquem-me aqui uma coisa: o vosso pai é Pedro Oeste a a vossa mãe é Teresa Moniz?

_ Sim, responderam os gémeos em coro.

_ Então o vosso nome, que vão aprender aqui a escrever, é Pedro Oeste e Clara Oeste.

Os gémeos olharam um para o outro e, envergonhados, riram baixinho.

_ E de que riem ambos e dois? Perguntou a Professora numa primeira tentativa de fazer conversa e os pôr à vontade.

A Clara, mais afoita, levantou-se e disse:

_ O nosso Avô ensina-nos muitas coisas. E diz que nós estamos sempre a leste. Agora a senhora diz que somos do oeste!

A Professora riu e explicou que iam todos agora aprender os nomes uns dos outros para se poderem começar a conhecer e a fazer amigos.

O Pedro Oeste pensou que podia meter a colherada:

_ Também podemos ficar a saber os nomes das aldeias de onde vêm os outros rapazes e raparigas?

_ Acho uma boa ideia_assentiu a Professora. Então cada um dos alunos vai levantar-se, dizer o nome e a aldeia de onde vem.

E assim começou a primeira rodada de nomes e os lugares de onde vinham os alunos. Crianças, umas tímidas, outras alegres e desembaraçadas. Algumas com lágrima a descer pela cara e outras mais traquinas já prontas para dizerem alguma graça.

No fim desta apresentação a Professora perguntou:

_ E então, quem quer saber o meu nome? Pensei que mo iam perguntar.

_ O nome e o lugar de onde a senhora vem?_ Adiantou um menino que disse chamar-se Luís Manuel, por alcunha o Barbancha.

_ O meu nome é Estefânia e venho de Lisboa.

_ Estefânia como a rainha que casou com o Rei D. Pedro de quem o meu trisavô escolheu o nome para os rapazes da minha família?

_ Muitas coisas sabes tu_exclamou surpreendida a Professora.

_ Sabe, minha senhora, o Avô diz-nos sempre que quantas mais coisas soubermos melhor. Pode ser que não vejamos logo para que servem esses conhecimentos. Mas o Avô diz que os conhecimentos são como as traves de madeira dos carris dos comboios. Só depois da via feita é que as pessoas acreditam que o comboio existe e vai passar.

_ Então e na tua aldeia, a tal de Carril Velho, o comboio passa quantas vezes ao dia?

_ Não passa, senhora Professora. A construção da linha parou uns metros antes de Carril Velho. Mas as pessoas lá da nossa aldeia dizem que um dia, o pedaço de linha que falta vai ser construída e o comboio vai chegar.

_ E então as pessoas estão à espera de que isso aconteça?

_Estão sim, interveio agora a Clara. Dizem mesmo que um rei chamado Sebastião, há-de vir na primeira carruagem e vai visitar-nos.

_ E lá na vossa aldeia há muito que admirar? O que vai esse rei ver?

_ Mesmo muito, minha senhora. Subindo a serra, lá do outro lado, ao longe, vê-se uma linda terra, chamada Alvíssaras. Diz o meu Avô que escavando um túnel por dentro da serra, pode passar o tal comboio e Alvíssaras fica logo ali à mão de semear.

E, à pergunta da perplexa Professora_ “Semear o quê”, logo a Clara esclareceu:

_ Esperanças.

 

Ilustração: O comboio da Esperança, de Beatriz Lamas Oliveira


Por opção do autor, este artigo respeita o AO90



Receba a nossa newsletter

Contorne o cinzentismo dominante subscrevendo a Newsletter do Jornal Tornado. Oferecemos-lhe ângulos de visão e análise que não encontrará disponíveis na imprensa mainstream.

 

Receba a nossa newsletter

Contorne o cinzentismo dominante subscrevendo a nossa Newsletter. Oferecemos-lhe ângulos de visão e análise que não encontrará disponíveis na imprensa mainstream.

Artigo anterior
Próximo artigo
- Publicidade -

Outros artigos

- Publicidade -

Últimas notícias

Mais lidos

- Publicidade -