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Sexta-feira, Dezembro 9, 2022

Quem sabe olhemo-nos ao menos

Vítor Burity da Silva, Angola
Vítor Burity da Silva, Angola
Ph.D em Filosofia das Ciências Políticas. Pós Doutorado em (Educação e Psicologia). Doutor Honorário em Literatura e Filosofia. Professor Honorário de Filosofia da Educação. Professor Catedrático. Investigador da Universidade de Évora. Membro da Sociedade Portuguesa de Filosofia. Membro da Associação Portuguesa de Escritores. Escritor.

Nem só pela literatura passam as diáscrases do tempo.

Tantas vezes os vocábulos dispersos na imensidão dos nadas nos arrestam como lambidelas de beringela ao almoço e a gente, sentados uns à beira de outros,

“quem sabe olhemo-nos ao menos”

dissecamos sem apetite o gengibre amargoso como tantas conversas nos alpendres poderes desse céu da nossa casa, o tecto,

“preferes talvez assim”

essas diáscrases sabes, luto dos ventos de diásporas nunca esquecidas aquando dos nadas ainda vivos no restolho do que apenas ficou, sim, porque razão terá ficado tudo isso ainda mesmo que com tanta imensidão de tempo a devesse engolir como Golias nas telas enormes dos horrores de que cinema sei lá.

“nunca mais me deste um abraço!”

Invento sentimentos para puder ao menos, nem que seja de vez em quando, lê-los para que os teus olhos os sintam como campos do olísio nesta casa de tecto branco ou fosco, sei mesmo que não será isso a preocupar-te, a cor do tecto, mas entende o sentimento que invento apenas para te convencer a leres-me textos vadios todos os dias, sentada ou não, pouco importa, leva-os depois à minha mãe que, mesmo sem saber ler os entenderá como o sangue que lhe corre por dentro.

“quem sabe olhemo-nos ao menos”

Diante da nossa tão impossível possibilidade de nos vermos, olhemo-nos ao menos, criaremos riscos e risos nas linhas de folhas secas que esvoaçam a felicidade dos campos e o dos rosais que planeiam um verão tão colorido como as páginas de um livro que escreverei.

Olhar e saber ver é talvez bom de mais, pensemos ao menos assim, isso trará a felicidade que os cemitérios engolem e disfarçam e deflagram, sim, a vida nem sequer para um breve passeio serve, sim, coisa tão triste meu Deus!

Nunca conhecimento nenhum se sobrepõe ao sabor da terra, da areia comida pela rudez crua de tanto se querer e perceber que mesmo só isso não nos leva ao olimpo, por muito importante que seja ou verdade nesta mistura de respirações a cada passo. Ainda assim preciso e pretendo a tua mão. É assim falar tão pouco para se ter ar e respirar. A sede está no leito que pisamos e nem sempre valorizamos ou ancoramos com palavras e abraços.

Respira comigo então.

E assim ia, enquanto o forno assava o pão a lezíria encantava sem ludíbrios o verde infinito por tidos os cantos da sala. Ainda assim te peço que me escrevas, cartas de guerra, de sonhos, de tempo, de infinidade, seja o que for, leremos à lareira abraçadinhos como pombinhos pecanininos como o meu desejo maior.

“quem sabe olhemo-nos ao menos”


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