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Sexta-feira, Outubro 22, 2021

O mundo das improbabilidades

Alexandre Honrado
Historiador, Professor Universitário e investigador da área de Ciência das Religiões

DO AVESSO

O Mundo em que vivemos tornou-se um desafio para os analistas.

Procurar grelhas para o seu entendimento ou um qualquer tipo de sociologia da evolução que o interprete, será precoce e já muitos falharam nas pretensões de entendê-lo. Emerge uma nova cultura, de caos, de impurezas, de pele e parede tatuadas, de tecnologias aptas para utilizadores inaptos, de grandes avanços médicos contra a massificação de um planeta de doentes crónicos, de jovens dotadíssimos como os da chamada geração milénio e uma falha na resposta dos sistema que devia acolhê-los e otimizá-los…

Uma nova cultura que se remeteu à ideologia única do capitalismo que, falindo em toda a extensão do que gerou, não permitiu lugar a nenhuma alternativa, sucumbindo por isso na armadilha que criou.

Reparem em nomes famosos, como Fukuyama que fazia a previsão de uma democracia liberal global para o planeta – coisa que viria a revelar-se impossível pelos motivos mais diversos, do terrorismo nuclearmente emanado no Médio Oriente à gravidade das interpretações fundamentalistas religiosas-nacionalistas (como, aqui tão perto, as da Polónia, Hungria ou Croácia), ou qualquer outro exemplo do extremismo de um mundo às avessas (para usar uma expressão de Hegel).

As grandes ações de hoje não parecem mais do que gestos mecânicos e cegos de serviçais dos interesses dos realmente poderosos. E aqueles que ainda acreditam poder apostar no seu espaço interior expandido – dos espiritualistas aos independentistas – debatem-se com as regras ferozes do sistema.

Aparentemente temos referencias boas, como as da liberdade de escolha e a ilusão dos direitos humanos. Na prática temos, isso sim, estratégias individuais de vida condenadas ao fracasso  – pois temos de pagar o imposto com o único dinheiro que nos permitia comer uma refeição quente e retemperadora. Parece uma visão negativista, pessimista e só não o é pela crença no ser humano, na mulher, no homem e em todos os formatos de sexo em que queiram amar-se, a operação ideológica fundamental é a criação, manutenção, promoção das nossas bolsas resistentes – até a uma vitória final.

A tentativa de gerar uma metodologia operatória funcional dentro do âmbito dos estudos culturais para perceber a Terra, é talvez um dos maiores desafios dos cientistas. Podemos alongar-nos pelo Cosmos e esperar uma solução extraterrena ou ajoelharmo-nos a rezar pedindo chuva. Mas sob o ponto de vista científico, há que tomar outras atitudes e continuar a questionar. Em que ser nos tornámos? Que seres estamos a produzir? Não me atrevo a sugerir Ritalina (ou mais concretamente de ‘Metilfenidato’, a droga legal utilizada como fármaco), ou um jogo electrónico para cada assassino terrorista, embora saiba que é esse o caminho ingénuo tomado por muitos dos pais da contemporaneidade. Acredito que normalizaria pessoas como Putin, Trump, Marine Le Pen ou aquele sujeito do cabelo engraçado lá da Coreia do Norte, já sem falar da opositora Cristas ou do Professor dos abraços.

Será lícito generalizar, só para entender o que somos e o que outros depois de nós serão? O nascimento do conceito de civilização é recente – data do século XVIII – e o de choque civilizacional ainda mais recente. Hoje, parecemos concordar num ponto: não há choque civilizacional, mas uma civilização que se perdeu e que, aos ziguezagues, traça um caminho de perdição e desnorte. E essa perdição não é moral, nem espiritual. É estética, ética e humana

O século XXI tem Torres Gémeas, Donald Trump, atentados, príncipes das arábias que declaram uma nova etapa para o progresso, uma China socialista capitalista, milionária na sua ambiguidade, uma Rússia por cumprir-se, um Brasil golpista onde a corrupção sai à luz do dia com o orgulho da impunidade, uma Coreia do Norte alucinada, e um punhado de assassinos que a partir de redutos bem identificados espalham o terror em cenários inesperados; mais de uma centena de países afundados em guerras, conflitos, crises e miséria, só porque sendo pobres mantêm as ilusões dos ricos.

Note-se como é difícil a análise. Peguemos num ano ao acaso: 2015. Nos primeiros meses só se falavam do Syriza e do Podemos. A “ameaça” dos movimentos de emancipação radicais. Saídos das primeiras páginas dos jornais, foram encaixotados numa arrecadação escura, porque chegara a hora de brandir a ameaça mediática dos refugiados. Crise humanitária, terroristas infiltrados, vigilância, repressão ou tolerância e solidariedade, ao gosto liberal-cultural dos mais esclarecidos… Aos radicais terroristas começaram a opor-se os radicais anti-imigrantes, grupos racistas intolerantes e perigosos como os mais perigosos.

O que parece importante, Congo, Líbano, Síria, Iraque, Afeganistão, Chade, Sudão, Níger… só o é enquanto a edição da imprensa vende. Hoje são os incêndios devastadores e a tentativa da direita ganhar dividendos com eles (a título político mas obviamente também económico), amanhã será o levantamento dos catalães e da fuga do seu dirigente ou do calculado silêncio do seu Rei. Mas se um assassino atira com um carro sobre inocentes, todo passa à segunda página. E desaparece, se a seleção nacional vencer uma partida.

Só há dois espaços reversos: os que têm proteção e os que estão de fora. Antigamente chamava-se a isso luta de classes, mas as classes em luta envergonharam-se dos seus chavões e lutam agora nas redes sociais até à derrota final. Ou talvez seja outra coisa o que devemos interpretar desta pântano fétido que gerámos.

Por opção do autor, este artigo respeita o AO90

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