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Sábado, Setembro 25, 2021

Pão e Utopia

Rui Miguel Duarte
Filólogo; investigador do Centro de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

Este capítulo poderia chamar-se de outro modo. Por exemplo, Pão e revolução. Mas também poderia chamar-se O pão da esperança, ou das esperanças, por simbolizar esperanças de poetas e profetas, diversas nos meios e em parte nos resultados, mas partilhando o ideal de um estado civilizacional perfeito, ou a raiar a perfeição da justiça, da paz e da prosperidade. Chamei-o Pão e utopia. Como designação, é mais bela e evocadora de um fértil e longo imaginário cultural e literário. Estes dois vocábulos definem, julgo que de forma mais perfeita do que nenhum outros, as isotopias que nortearão a análise que se seguem e aquilo que há em comum entre o poeta Sérgio Godinho, Pablo Neruda, Artur Fonseca, Vasco Matos Sequeira e Reinaldo Ferreira e o hino do PSD.

Entre os cinco primeiros nomes ainda se pode, à primeira vista, perceber a partilha de pontos em comum. Trata-se de poetas, portugueses e um chileno, sendo que um, Sérgio Godinho, é o que se chama um cantautor, um autor de poesia que canta os próprios poemas, uma espécie de trovador dos séculos XX e XXI. Mas o que faz aqui o hino de um partido político? Bom, um hino o que é, senão um poema cantado? Sim, o PSD tem um hino. Pouco tem a ver com o PSD e a sua realidade de hoje, mas remetem para um ponto no friso cronológico da História em que a utopia emergira e conduzia a realidade, em que era o motor da História. Vamos então ao pão e à utopia.

O pão mereceu a Neruda um longo poema de versos curtos e rápidos, a Oda al pán. E o poema merece ser transcrito na íntegra:

Oda al pán

Pan,
con harina,
agua
y fuego
te levantas.
espeso y leve,
recostado y redondo,
repites el vientre
de la madre,
equinoccial
germinación
terrestre.
Pan,
qué fácil
y qué profundo eres:
en la bandeja blanca
de la panadería
se alargan tus hileras
como utensilios, platos
o papeles,
y de pronto,
la ola
de la vida,
la conjunción del germen
y del fuego,
creces, creces
de pronto
como
cintura, boca, senos,
colinas de la tierra,
vidas,
sube el calor, te inunda
la plenitud, el viento
de la fecundidad,
y entonces
se inmoviliza tu color de oro,
y cuando se preñaron
tus pequeños vientres,
la cicatriz morena
dejó su quemadura
en todo tu dorado
sistema de hemisferios.
Ahora,
intacto,
eres
acción de hombre,
milagro repetido,
voluntad de la vida.
Oh pan de cada boca,
no
te imploraremos,
los hombres
no somos
mendigos
de vagos dioses
o de ángeles oscuros:
del mar y de la tierra
haremos pan,
plantaremos de trigo
la tierra y los planetas,
el pan de cada boca,
de cada hombre,
en cada día,
llegará porque fuimos
a sembrarlo
y a hacerlo,
no para un hombre sino
para todos,
el pan, el pan
para todos los pueblos
y con él lo que tiene
forma y sabor de pan
repartiremos:
la tierra,
la belleza,
el amor,
todo eso
tiene sabor de pan,
forma de pan,
germinación de harina,
todo
nació para ser compartido,
para ser entregado,
para multiplicarse.
Por eso, pan,
si huyes
de la casa del hombre,
si te ocultan,
te niegan,
si el avaro
te prostituye,
si el rico
te acapara,
si el trigo
no busca surco y tierra,
pan,
no rezaremos,
pan,
no mendigaremos,
lucharemos por ti con otros hombres,
con todos los hambrientos,
por todos los ríos y el aire
iremos a buscarte,
toda la tierra la repartiremos
para que tú germines,
y con nosotros
avanzará la tierra:
el agua, el fuego, el hombre
lucharán con nosotros.
iremos coronados
con espigas,
conquistando
tierra y pan para todos,
y entonces
también la vida
tendrá forma de pan,
será simple y profunda,
innumerable y pura.
Todos los seres
tendrán derecho
a la tierra y a la vida,
y así será el pan de mañana,
el pan de cada boca,
sagrado,
consagrado,
porque será el producto
de la más larga y dura
lucha humana.
No tiene alas
la victoria terrestre:
tiene pan en sus hombros,
y vuela valerosa
liberando la tierra
como una panadera
conducida en el viento.

A Ode aparece no livro Odas elementales, de 1954. Exalta essa coisa simples e elementar que é o pão e seu processo de fabrico, mas também a sua qualidade matricial, genesíaca, da vida humana na terra. Palavras e isotopias como “el ventre / de la madre, germen, tierra, la ola / de vida, fuego” são disso sinal. Intrinsecamente ligado à terra, torna-se símbolo de fecundidade, com formas de corpo feminino. Uma função e uma essência que se tornam redentoras, mas não divinas, porquanto “no somos / mendigos / de vagos dioses / o de ángeles oscuros”, antes por acção do homem (“acción de hombre”, “porque será el producto / de la más larga y dura / lucha humana), que de pão colonizará mesmo os mares e planetas, mas o “pan de cada boca”. O ideal do poeta visa pois um alcance universal. Mas vira-se irresistivelmente para os homens, todos, cuja fome o pão matará: “no para un hombre sino / para todos, el pan, el pan / para todos los pueblos”. O anseio do poeta é de uma salvação para a Humanidade inteira, no pão irmanada. O seu discurso incessantemente se alarga e estreita entre o particular (cada homem) ao universal (todos os homens e povos, terra e planetas). O pão que dá o sabor à “terra”, à “belleza” e ao “amor”. Três lexemas que por sinédoque dizem o alcance universal, o todo do homem e da sua vida.

Na utopia nerudiana, os povos e a terra ver-se-ão livres de opressores, do “rico” e do “avaro”. É uma utopia ateia, inteiramente épica e por isso resultante da obra e realização humanas, embora não isso menos “sagrado, / consagrado”, qualificações próprias do domínio do transcendente, dos domínios espiritual e religioso. Outro desses lexemas do domínio religioso, usado pelo poeta, é “milagro”. Neruda era comunista e o comunismo é filosoficamente um ateísmo. Todavia, o seu ideário, a sua aspiração de uma espécie de redenção da Humanidade releva do mesmo impulso religioso que, em qualquer outro membro da espécie humana, percebe os mais diversos males na sua espécie e procura fora e acima de si o desatar das ataduras e a salvação. Face à negação de Deus, ou de qualquer deus, um Ideal ocupará esse lugar. O poeta não é filósofo nem o puro materialista dialéctico: expressa o anseio da alma, busca a redenção. Quer seja a alma do crente, do santo ou de um qualquer homem. Ao poeta autorizado está a celebração e o sonho arrebatado de plenitude e liberdade, aqui na “victoria terrestre”. “No rezaremos”, e porém, quão reminiscente parece ser este apelo e anelo do da da oração pelo “pão nosso de cada dia” de Jesus, “aqui na terra” restaurada que, como nas promessas no livro de Êxodo, “mane leite e mel”. Para todos os povos. O pão que, como o dos Judeus e o pão vivo que é Jesus, é para ser “compartido”. E eis-nos regressados a um ponto a que aportámos noutro capítulo: o pão, mais do que alimento, é um elo entre pessoas.

O pão como elemento do “lema” comunista / socialista remonta, ao que parece, a Vladimir Ilitch Ulianov, Lenine. Era o ano de 1917, a Europa encontrava-se mergulhada na Primeira Guerra Mundial, e na Rússia, que também nela beligerava, corria a revolução contra o regime imperial dos czares, após a deposição do último soberano, Nicolau II. A frase é: “Paz, terra e pão; todo o poder aos sovietes.” Ao partido bolchevique, comunista, não agradava o rumo social-democrata e moderado que a Revolução de Fevereiro estava seguindo. Lenine, regressado a Petrogrado (S. Petersburgo) do exílio, apresenta aos seus companheiros, a 4 de Abril (segundo o antigo calendário russo), uma série de dez directrizes sobre o rumo que, em seu entender, deveria a Revolução seguir. Três dias depois, publica-as em artigo no jornal Pravda. A frase citada constitui o lema que sintetiza estas directrizes, que ficaram conhecidas como Teses de Abril. Todos os pontos expressos no lema se entendem circunstancialmente. O primeiro propósito, de paz, aponta a saída da Rússia da guerra, a mais terrível de quantas até então se haviam travado; segundo Lenine, “uma guerra burguesa do capitalismo”. A terra: o movimento tinha como plano a reforma agrária, com novas formas de redistribuição das terras destinadas ao sector primário, que passariam pela sua expropriação aos senhores terratenentes. Então, o Estado deveria redistribuí-las, com vista a serem exploradas colectivamente por quem de facto nelas trabalhava, os camponeses. O pão representava o desígnio de garantir que todos teriam o que comer, desta forma se acabando com a pobreza e fome. A Rússia era, no contexto das potências europeias e mundiais, um país vasto com uma maioria de população sobrevivendo na mais vergonhosa miséria, governado por monarcas hereditários imperiais, ditos “Césares” (os czares ou tzares), autocratas absolutos, num regime económico e social de tipo fortemente feudal. Finalmente, nas Teses Lenine apelava aos trabalhadores, reunidos em sovietes (conselhos de operários), que cessassem toda a sorte de colaboração com o Governo Provisório e tomassem o poder. Só desse modo se garantiria a mudança total de regime social e económico e a satisfação das necessidades dos trabalhadores do país.

Neruda, filho do marxismo, é, neste poema, um vate (no duplo sentido de poeta e profeta) desta utopia. Esta perduraria com declinações em outras paragens. Aportemos a Portugal. No nosso país, o 25 de Abril de 1974 foi “o dia inicial inteiro e limpo”, como o cantou Sophia de Mello Breyner Andresen. Jovem ainda era a Revolução dos Cravos, os cidadãos, de repente libertos de longa hibernação e jugo, saltam, tão frescos quanto eternos, para o quotidiano social, dos relacionamentos, palavras e gestos, da sociedade e da cultura, para a vida. Na exaltação da mudança, tanto da já conseguida como da esperada, o cantautor Sérgio Godinho regressa a Portugal  com 29 anos de idade, pondo fim a uma ausência de onze. Com o fogo da Revolução ainda inflamado, lança o seu terceiro álbum de originais, À queima-roupa. O primeiro tema intitula-se, justamente, “Liberdade”:

Liberdade

Viemos com o peso do passado e da semente
esperar tantos anos torna tudo mais urgente
e a sede de uma espera só se ataca na torrente
e a sede de uma espera só se ataca na torrente

Vivemos tantos anos a falar pela calada
só se pode querer tudo quanto não se teve nada
ó se quer a vida cheia quem teve vida parada
só se quer a vida cheia quem teve vida parada

Só há liberdade a sério quando houver
a paz o pão
habitação
saúde educação
só há liberdade a sério quando houver
liberdade de mudar e decidir
quando pertencer ao povo o que o povo produzir.

A canção é toda ela um manifesto, um quase completo programa político, social e cultural, a síntese perfeita do espírito e das aspirações depositadas na Revolução dos Cravos por largas camadas de Portugueses, findos os quarenta e oito anos de ditadura. O tempo é de todas as utopias de um devir radioso e mais feliz para todos. É óbvia a inspiração, de novo conforme o espírito do século: socialista. Nela, o pão vem associado, mais uma vez, à paz, e a ambas “a paz o pão / habitação / saúde educação”. A liberdade é um ideal transversal e universal; enquanto conceito, é, na canção de Sérgio Godinho, a matriz de tudo, pois a tudo ela abrange e para ela tudo tende. O novo homem dos novos tempos, os da utopia socialista, é livre, senhor de si próprio e das suas obras, mas é-o na medida em que tem condições de que antes estava desprovido, enquanto direitos que são efectivamente detidos e exercidos: a paz, o alimento, habitação, saúde e educação. Anteriormente, estes direitos mão existiam enquanto tais. Assim se caracteriza a “liberdade a sério”. Respirava-se a liberdade reconquistada, após a longa e odiada ditadura que sufocou as liberdades e as consciências e tratou com injustiça social a população, repartida entre uma elite arregimentada e detentora do poder político e económico e uma maioria de pessoas vivendo “habitualmente” — como o Presidente do Conselho entendia a vida dos Portugueses —, no remedeio, e entre as quais grassavam baixos níveis de escolaridade, para não dizer de analfabetismo. Segundo o Pordata, em 1970 a taxa de analfabetismo contava-se em 25,7 %. Um pouco acima de um em cada quadro portugueses. A tudo isto aponta a canção de Sérgio Godinho, elevando a esperança. Não se diria utopia, mas esperança, vera, de uma concretização no tempo e no espaço próximos, neste mundo referencial. O pós-25 de Abril foi essa era em que o sonho (para me exprimir como António Gedeão) comandava a vida.

Não há acasos nisto. O Zeitgeist era este, e enquanto tal, se insuflava vida à música e às canções, também o fazia às ideologias políticas, à legiferação e às concepções de devir social. Numa época em que se tornara difícil afirmar-se de direita e democrata — porquanto a noção de direita política se confundira, na semiologia política, com a de ditadura e esta com fascismo —, as ideias de democracia e de democrata ficaram impregnadas, em contrapartida, da acepção de ser de esquerda e defender uma interpretação da história e do devir social mais ou menos lineares ou variantes face ao modelo hermenêutico tutelar fundado por Marx. No espírito do tempo, pois, vulgarizara-se o entendimento de democracia como de um regime inclinado à esquerda, em que mesmo os partidos conotados com a direita política liberal (PPD/PSD) e democrata-cristã (CDS) se colocavam ao centro, conforme esta concepção de sociedade. Não há que admirar que os partidos políticos fundadores do parlamentarismo da III República, reunidos na Assembleia Constituinte, reunida a 2 de Abril de 1976, tenham aprovado e votado um texto de Constituição da República em cujo preâmbulo se lia:

A Assembleia Constituinte afirma a decisão do povo português de defender a independência nacional, de garantir os direitos fundamentais dos cidadãos, de estabelecer os princípios basilares da democracia, de assegurar o primado do Estado de Direito democrático e de abrir caminho para uma sociedade socialista, no respeito da vontade do povo português, tendo em vista a construção de um país mais livre, mais justo e mais fraterno.

O ideal de uma sociedade socialista, temperada por outros de génese anterior, oriundo da Revolução Francesa (veja-se a fraternidade).

Não por acaso, o PPD/PSD, assenta no centro, não sem trair a hermenêutica marxista na declinação social-democrata e socialmente defensor de uma matriz democrata-cristã (compatível com a dignidade do indivíduo e da justiça social e com o propósito de proporcionar oportunidades de educação, saúde e trabalho para todos), avança com uma canção identitária, ainda hoje cantada entusiasticamente como hino em conclaves e comícios do partido. Sim, esse famoso:

Paz, Pão,
Povo e Liberdade
Todos sempre unidos
No caminho da verdade
Paz, Pão,
Povo e Liberdade
Todos sempre unidos
No caminho da verdade
Canta Povo canta
Por um Portugal em paz
Por uma democracia
P’lo nascer de um novo dia
Paz, Pão,
Povo e Liberdade
Todos sempre unidos
No caminho da verdade
Paz, Pão,
Povo e Liberdade
Todos sempre unidos
No caminho da verdade
Canta Povo canta
Trabalhando pelo pão
Com toda a tua vontade
Tu ganhaste a liberdade
Paz, Pão,
Povo e Liberdade
Todos sempre unidos
No caminho da verdade

De novo o binómio paz e pão, o pão pelo qual se trabalha, fim e recompensa do trabalho e metonímia pelo sustento. De tudo isto, o sujeito e agente é colectivo: o povo e todos unidos, um plural que é perífrase deste povo. Como no mote de Lenin (os sovietes). Na canção de Sérgio Godinho, um tu, no qual se implica o ouvinte, representante desse povo. Como nesta, aparece a liberdade como alvo: conquistada e a construir, não um evento, um aoristo pontual (como no verno grego antigo), mas um presente contínuo e imperfeito, (ainda) inacabado.

Estranho, se me é permitida esta observação, é verdade. Ou pelo menos, invulgar. O que é a verdade? — foi a pergunta de Pôncio Pilatos, transcrita no Evangelhos segundo João 18:38, a uma declaração identitária de Jesus: “Eu sou testemunha da verdade.” Uma resposta, aparentemente, de cepticismo e de pouca paciência para o que lhe pareceria ser algo mais do domínio dos debates sofísticos filosóficos, com os quais ele nada teria de familiar. Pilatos era um político e um militar à romana, o que lhe interessaria mais senão a pragmática fria da governação, da subjugação e taxação dos povos súbditos e ocupados e a manutenção do seu emprego e vida perante aquele a quem tinha de responder, o imperador? Aristóteles, na Retórica, defendera que esta trata da verosimilhança e não da verdade. Estando a retórica ligada à política (debates de cidadãos nas assembleias legislativas, nos tribunais e em outras ocasiões), a questão da verdade fora relegada para a filosofia.

Então pois, o que é a verdade? E o que faz ela num hino de um partido político? Não parece que se tenha pretendido conferir-lhe dignidade filosófica, mas uma mais banal questão de sublimidade de palavras, de grandiloquência. Sim, o hino como um épico, que para se expressar selecciona palavras grandes, ideais, de absoluto. Assim se podem, penso, explicar, além da verdade, a liberdade e a exaltação do trabalho e do fruto do trabalho, o pão. Questão de estilo, de escolha de léxico, pois. E de espírito do tempo. Sinais de outros tempos, portanto.

 Diferente no tom é a canção de Artur Fonseca, Vasco Matos Sequeira e Reinaldo Ferreira, a celebérrima Uma casa portuguesa, com música do primeiro e letra dos segundos:

Uma casa portuguesa

Numa casa portuguesa fica bem
Pão e vinho sobre a mesa
E se à porta humildemente bate alguém,
Senta-se à mesa com a gente
Fica bem essa fraqueza, fica bem,
Que o povo nunca a desmente
A alegria da pobreza
Está nesta grande riqueza
De dar, e ficar contente

Quatro paredes caiadas,
Um cheirinho a alecrim,
Um cacho de uvas doiradas,
Duas rosas num jardim,
Um São José de azulejo
Mais o sol da Primavera,
Uma promessa de beijos
Dois braços à minha espera

É uma casa portuguesa, com certeza!
É, com certeza, uma casa portuguesa!

No conforto pobrezinho do meu lar,
Há fartura de carinho
A cortina da janela é o luar,
Mais o sol que bate nel
Basta pouco, poucochinho p’ra alegrar
Uma existência singela
É só amor, pão e vinho
E um caldo verde, verdinho
A fumegar na tijela

Quatro paredes caiadas,
Um cheirinho a alecrim,
Um cacho de uvas doiradas,
Duas rosas num jardim,
Um São José de azulejo
Mais o sol da Primavera,
Uma promessa de beijos
Dois braços à minha espera

É uma casa portuguesa, com certeza!
É, com certeza, uma casa portuguesa!
É uma casa portuguesa, com certeza!
É, com certeza, uma casa portuguesa!

Lançada e gravada em 1953, foi celebrizada na voz de Amália Rodrigues. A canção descreve uma casa portuguesa ideal como como pobre, humilde, florida, com esperança de afectos, simples, colorida, rural. Tudo imbuído de um ideal de pobreza remediada e feliz. Para utilizar a expressão do poeta Horácio, uma aurea mediocritas (áurea mediania) económica, social e de espírito. Na década seguinte, Portugal mergulhado na guerra colonial e vendo partir jovens para África e outros, em fuga, para a emigração em massa, poderão ter servido de consolo nostálgico de um regresso à Pátria, aos afectos familiares e à casa deixada no rectângulo do extremo ocidental da Europa. Entre os elementos desse ideal de portugalidade, o pão e o vinho. Da mesma época, aliás (1955), data o filme Marcelino, pan y vino, de Ladislao Vajda, produto de uma Espanha subjugada pela sua ditadura, a franquista, e cujo protagonista é um miúdo travesso e inocente.

Melodia ainda hoje trauteada, contribuiu para associar Amália ao Estado Novo e tornou-se ícone cultural forte de uma certa identidade portuguesa, precisamente moldada pelo modelo ideológico do regime. Esta questão não será aqui tratada, contentando-nos a aceitar a opinião corrente, que a própria expressou, de que nada tinha a ver com governo nenhum:

Embora tenham dito que era uma exportação do governo passado, é mentira, nunca fui nem serei de governo nenhum.”  Disse numa entrevista a uma rádio, citada na sua autobiografia. Nem sequer os autores da canção pretenderam associar-se ao regime. Nuno Pacheco, em artigo do Público de 21 de Setembro de 2017, lembra os pormenores da sua génese: foi escrita num dia da década de 40, numa sala do cosmopolita Hotel Girassol, actual Girassol Bahia Hotel, em Lourenço Marques, hoje Maputo, capital de Moçambique, não no “Portugal profundo”, e surgiu de um episódio “picaresco”. Ora, Vasco Sequeira e Reinaldo Ferreira (filho do célebre Repórter X) entretinham-se a escrever versos pornográficos. Nisto, o maestro Artur Fonseca tê-los-á advertido que se encontravam numa casa portuguesa, o que, implicitamente, requeria “respeitinho”. Num ápice, Reinaldo Ferreira terá exclamado: “Ora aí está um bom título para uma canção!” Amália imortalizou-a, mas não  foi ela quem a estreou. A primeira difusão foi por rádio, na voz foi de Sara Chaves, uma cançonetista de Moçambique. Quanto a Amália, conta-se no livro O Fado da tua voz, Amália e os poetas, de Vítor Pavão dos Santos (Bertrand, 2014), não terá apreciado a canção mas, com vergonha de recusar, acabou por cantá-la, ainda que contrariada. E mais do que uma vez terá expressado um certo enfado em fazê-lo. A tese de Nuno Pacheco: há no poema de Reinaldo Ferreira mais ironia do que exaltação de uma lusa pobreza. Tal não impediu, todavia, que o regime tivesse adoptado, ou mais propriamente se tivesse apropriado, do poema, da canção e da cantora como ícones da sua concepção ideal de Portugal. A concepção de um país de gloríolas baças, de remedeios, de mediania e pobreza. Afinal, Salazar e o regime eram os intérpretes, os profetas e os executores do destino português, ao qual todos estavam sujeitos. O mesmo passe de propaganda e apropriação da excelência da arte, da cultura e do desporto que explica o célebre mito do Benfica como clube do regime. Mas um mito que, ao contrário do pessoano, é o tudo que é nada.

 

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