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Terça-feira, Junho 22, 2021

O paradigma dos Prémios de Gestão

Arnaldo Xarim
Economista.

A subida em flecha dos prémios de gestão, desde sempre associada ao crescente predomínio do sector financeiro nas economias, necessita de um devido enquadramento histórico para a sua cabal compreensão e crítica.

Recentes notícias sobre as conclusões de uma auditoria do Tribunal de Contas e a distribuição de prémios aos gestores de um banco – o Novo Banco que continua a acumular prejuízos, requerendo a injecção de dinheiros públicos – e a natural polémica que regularmente envolve esta prática, justificam uma releitura sobre a crise financeira de 2007. Não porque esta tenha resultado daquela prática, mas porque muito do que esteve na sua génese a ela se liga, começando pela ética associada à ideia de premiar especialmente o sucesso, expresso nos resultados de curto prazo, e concluindo na liberalização das sociedades actuais.

A subida em flecha dos prémios de gestão, desde sempre associada ao crescente predomínio do sector financeiro nas economias, necessita de um devido enquadramento histórico para a sua cabal compreensão e crítica.

A reestruturação gradual das economias mais avançadas em direcção à forma extrema de capitalismo conhecida como neoliberalismo, começou na década de 1980, regida pela crença na desregulamentação ou numa auto-regulação, que se traduziu numa alteração significativa no papel dos reguladores financeiros, que deixaram de vigiar a actividade bancária para assumirem a função de seus facilitadores. Esta alteração permitiu aos bancos passarem a realizar uma série de actividades altamente lucrativas, mas fortemente especulativas e potenciadoras de graves problemas para todos o conjunto dos restantes agentes económicos.

O afã do sector financeiro pela busca de lucros crescentes levou os bancos a aumentar os volumes de crédito concedido, especialmente crédito imobiliário, e a estendê-lo a franjas da população com menor capacidade para o pagar e iludidas pelo mecanismo das taxas variáveis; os chamados créditos subprime. Como se não bastasse o risco destes contractos, tantas vezes angariados por simples comissionistas (intermediários pagos à peça), os bancos condensaram esses empréstimos em títulos tão complexos e opacos que quase ninguém os conseguia entender e venderam-nos a outros investidores num processo conhecido como securitização, esquecendo-se de lhes explicar que era improvável que os empréstimos fossem pagos.

Com o apoio das agências de notação de risco, que classificavam aqueles títulos com o mesmo risco do banco emitente em lugar do seu risco real (o dos activos subjacentes que eram os créditos hipotecários de alto risco), e transferido o risco de reembolso para terceiros, quanto mais empréstimos de alto risco os bancos fizessem maior era a possibilidade de continuarem a acumular lucros imediatos; alguns, como o norte-americano Goldman Sachs, criaram até formas de ganhar ainda mais dinheiro, e depois de terem criado as hipotecas de alto risco, de as terem revendido como títulos de baixo risco ainda apostaram, no mercado de derivados, contra os seus próprios investidores que esses empréstimos não seriam pagos.

As hipotecas de alto risco originaram uma espiral de preços no imobiliário (a chamada bolha de preços) que rebentou quando os mutuários começaram a entrar em incumprimento e levou a uma rápida queda dos preços dos imóveis, deixando os mutuários ainda solventes a braços com hipotecas superiores ao valor dos imóveis e assim atirados para uma situação de património líquido negativo; neste processo bancos houve que sofreram perdas tão grandes que efectivamente faliram, enquanto os restantes, num claro sinal do clima de insegurança e de suspeição inter pares, suspenderam os financiamentos interbancários, ou seja, os empréstimos que os bancos realizam entre si para colmatar dificuldades de liquidez.

As irregularidades descritas acima são apenas uma pequena parte daquilo em que se transformou a actividade bancária. Há décadas que os bancos se envolveram em práticas de legalidade duvidosa, mas de garantida violação da ética que os devia nortear; alimentados pela necessidade de remunerar crescentemente os accionistas e os gestores, começaram a vender produtos manifestamente inadequados aos seus clientes enquanto tentam manipular os mercados em benefício próprio.

Os bancos empregam exércitos de especialistas para maquilhar os seus negócios e a sua contabilidade, no que é conhecido como engenharia financeira, elevando a escala e a complexidade das suas operações para tornar ainda mais opaca a situação geral e escamotar a precariedade da sua situação financeira. A crise levou à revelação da complexidade e da interligação de todo o sistema financeiro, que criou um tal nível de contágio que justificou a sua designação como crise sistémica. A sucessão de falências e resgates bancários fez com que o que começou como um problema com as hipotecas subprime nos EUA se tivesse propagado rapidamente mundo e desestabilizado as economias de muitos países.

Com o tempo, a expansão da teia organizacional e bem financiadas campanhas informativas, os grandes bancos conseguiram começar a ser considerados tão importantes para a economia, ou “grandes demais para falir”, que os governos acreditam que precisam resgatá-los quando as coisas não correm bem; assim chegámos à situação, que hoje é conhecida como resgate. Para piorar esta realidade, os bancos e os reguladores têm vindo a mentir repetidamente para encobrir o quão instável é a situação e por isso continuamos ainda hoje a ouvir falar das “necessidades” de certos bancos e de transferências de mais valores para cobrir prejuízos daqueles que foram absorvidos pelos concorrentes, numa clara demonstração que o dinheiro dos resgates não foi usado para reduzir as dívidas dos cidadãos comuns ou para financiar actividades na economia real, foi dado aos bancos e acabou a aumentar os seus activos e a riqueza dos super-ricos.

Desde a crise sistémica de 2007 que os grandes bancos se tornaram ainda maiores e são cada vez mais numerosos os “comentadores” e os “especialistas” que dizem agora que os actuais bancos globais não são apenas grandes demais para falir, mas grandes e complexos demais para regulamentar. As crises dos últimos anos ajudaram, e muito, o processo de concentração bancária e a criação da ideia da indispensabilidade de um apoio público, acrítico e permanente, a um novo sistema financeiro ingovernável, não regulamentado e hiperconcentrado que exacerba a ganância e a desigualdade que provocaram (e vão voltar a provocar) as crises; o sistema bancário está estruturado de forma a criar problemas, pois os bancos aconselham os clientes, mas também podem negociar por conta própria, criando o que é conhecido como conflito de interesses (de que é claro exemplo a já referida situação em que o Goldman Sachs pôde apostar contra os seus próprios clientes) ou envolver-se noutras formas de comércio danoso. Sem uma reforma profunda, os problemas vão continuar a crescer, determinando que haverá outra crise financeira no futuro e ninguém sabe que dimensão poderá atingir.


Ver:  “O paradigma dos Prémios de Gestão” – Parte II

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