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Domingo, Outubro 17, 2021

O Sultão sentado na cadeira dos czares

Beatriz Lamas Oliveira
Médica Especialista em Saúde Publica e Medicina Tropical. Editora na "Escrivaninha". Autora e ilustradora.

A libertação de Aleppo, capital industrial da Síria, Campo de Damasco, Daraa, Deir Ezzor, Raqqa e todos os quartéis e territórios sírios tem sido o foco e o centro da atenção de todos os habitantes deste martirizado país.

Os sírios celebraram a recente libertação de Aleppo conquistada aos terroristas da Frente Al-Nusra, pelo Exército Sírio. Mas se o povo não tivesse apoiado a campanha militar do exército e os sacrifícios dos militares,se as pessoas que vivenciaram anos de medo, insónia e desassossego, que sofreram bombardeamentos dias e noites a fio, sem poderem dormir, não tivessem apoiado o exército, duvido que esta vitória da Síria, mesmo apoiada pela Rússia, tivesse sido possível. O Presidente Assad dedicou a vitória ao povo e ao exército sírio e às forças aliadas. O Presidente Al-Assad falou recentemente na televisão e lembrou os anos de cerco sem água, sem eletricidade e sem cuidados básicos de saúde ou de escolaridade a poderem ser garantidos.

Aqui no Ocidente a campanha contra o direito dos Sírios decidirem o seu destino foi posto e continua a sê-lo,em causa. Uma qualquer primavera árabe cheira aos ocidentais a amendoeiras em flor.

Mas nem tudo são rosas, amêndoas e romances. Nem tudo, senhor!

O domínio territorial do exército sírio significa finalmente o fim da guerra e isso levará a oportunidades de mudanças políticas no país. Tal como previu o Senador Republicano Richard Black a Turquia perdeu e isolou-se pela sua própria arrogância.

Já em 17 de setembro de 2019, na cidade russa de Sochi, o presidente turco Recep Tayyip Erdogan e o presidente russo Vladimir Putin concordaram em criar uma zona tampão entre os rebeldes da Síria e as forças pró-governo. Na reunião, o presidente russo Vladimir Putin considerou os comentários de seu colega turco sobre a prevenção de desastres humanitários e violação de direitos humanos, dado o número cada vez maior de refugiados sírios. Putin assumiu o comando de um plano para desencorajar os líderes sírios de usar as operações militares para limpar Idlib de terroristas. Prometeu criar uma zona-tampão com 15 a 25 quilómetros de largura a entrar em vigor em 15 de outubro daquele ano. Putin convenceu o presidente sírio a aceitar o acordo de Sochi, celebrado entre a Rússia e a Turquia.

Erdogan e Putin em Sochi

O Irão e a Rússia foram e são grandes aliados do presidente sírio Bashar al-Assad.

Surpreendentemente, o acordo de Sochi foi apoiado ativamente pelos países ocidentais, que já haviam expressado sérias preocupações sobre a situação dos direitos humanos em Idlib. O Ocidente, especialmente Washington, Londres e Paris, que sempre estiveram em contacto direto com os grupos governamentais anti-sírios em Idlib, foram obviamente indiferentes à situação enfrentada pelos civis em Idlib.

O Ministério das Relações Exteriores da Síria foi descrevendo as operações realizadas pelas forças da coligação liderada pelos Estados Unidos como crimes contra a humanidade e o genocídio. Grande parte da Síria foi destruída e centenas de milhares morreram. Em Idlib, parecia, de início, que o acordo alcançado em Sochi entre Moscovo e Ancara poderia melhorar a situação. Mas, com o termo de um prazo para a Turquia negociar com os chamados oponentes de Assad, Ancara deixou de cumprir suas obrigações.

Muitos analistas acreditam que Ancara deliberadamente negligenciou a questão da retirada das forças armadas contra Assad, a fim de usá-las como um “trunfo” para sua política. Erdoğan também pareceu adotar um jogo duplo com a Rússia, o Irão e a Síria, por um lado, e com o Ocidente, especialmente a Europa e os Estados Unidos, por outro. A falta de progresso na implementação dos acordos alcançados em Sochi entre a Turquia e a Rússia, agravou a administração quotidiana da situação em Idlib.

Agora, estamos em Março de 2010 e Erdogan, Sultão da Turquia, volta a ter de ir encontrar-se com o presidente Vladimir Putin, da Rússia Federal, por ter sido obrigado a bater À PORTA do Kremlin.

Será um encontro entre o ocupante turco e as forças que apoiaram o governo legítimo da Síria.

As ameaças barbaras de manipular a crise de refugiados não vai funcionar desta vez. Os refugiados de dezenas de países em todo o mundo foram explorados por Erdoğan.

Assim, as mentiras, distorções e promessas vazias da Turquia caíram de maduras e sem frutos.

Os líderes autoritários e fora de controle, como Recep Tayyip Erdoğan, tendem a pensar que sabem tudo sobre tudo, nunca se enganam, raramente têm dúvidas e são ferozmente intolerantes às críticas. É essa arrogância que finalmente levou Erdoğan e a Turquia ao desastre na Síria, após nove anos de ameaças bombásticas, conflitos por procuração e por último, intervenção militar direta.

Mustafa Kemal Atatürk

Erdoğan está agora isolado, em desacordo com todos os beligerantes na Síria. Enviou 7 mil soldados e material de guerra pesado para Idlib no mês passado para reforçar os postos militares existentes, e vê-se mergulhado numa guerra aberta com a Síria. Atacou aeroportos e instalações de radar muito atrás da “linha de frente”. Declarou todos os “elementos” sírios como alvos legítimos.

Mas o que está acontecendo agora no noroeste da Síria não é mais uma guerra por procuração. É um confronto direto entre os dois estados vizinhos fortemente armados. E ameaça aprofundar a Turquia no conflito militar com a Rússia.

Erdoğan controla a imprensa turca. Não se sabe o número total de militares turcos mortos nesta ofensiva.

Os comandantes russos traçaram a linha vermelha: um comboio militar turco foi atingido nesse mesmo dia. Nas horas que se seguiram, havia soldados turcos feridos com necessidade urgente de assistência médica, e Moscovo negou o pedido de Ancara de abrir o espaço aéreo de Idlib para permitir a evacuação.

Putin deu uma lição ao candidato a sultão. E Erdoğan terá de se ir sentar num divã muito diferente do dos seus sonhos, em Moscovo. Vai na quinta-feira em busca de um cessar-fogo, perfilado no Kremlin.

É previsível que a Rússia exija que a Turquia abandone o território do noroeste da Síria. E até talvez também a região nordeste, dominada pelos curdos, que Erdoğan invadiu no outono passado.

Erdoğan será, espero, obrigado a comer a maçã do paraíso no Kremlin, sentado numa antiga cadeira dos czares. Deve ser semelhante ao Divã com que sonhou!

Mustafa Kemal Atatürk, o estadista revolucionário, autor e fundador da República da Turquia, primeiro presidente de 1923 até sua morte em 1938 devia sentir os ossos gelados dentro da tumba.

 

Tumulo de Mustafa Kemal Atatürk


Por opção do autor, este artigo respeita o AO90


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