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João de Sousa

Domingo, Outubro 17, 2021

Pedido sagrado

Delmar Gonçalves, de Moçambique
De Quelimane, República de Moçambique. Presidente do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora (CEMD) e Coordenador Literário da Editorial Minerva. Venceu o Prémio de Literatura Juvenil Ferreira de Castro em 1987; o Galardão África Today em 2006; e o Prémio Lusofonia 2017.

Poemas de Delmar Maia Gonçalves

II

Gosto muito
quando a ausência da evidência
me oferece
o novel, o secreto,o desconhecido,o eterno,o belo
num instante
Gosto de experimentar
o prazer do inesperado
que é eternamente esperado
Gosto que as transparências
de um tecido macio
me revelem o imaginado
O evidente esgota-se em segundos
E eu vivo para o eterno!

“Avançai em silêncios que gritam”

Nem sempre os mártires vêm em silêncio
nem sempre os mártires choram em silêncio
nem sempre os mártires gritam em silêncio
nem sempre os mártires partem em silêncio
Para os mártires, a melhor canção fúnebre é o silêncio que grita baixinho
um silêncio abafado…!
que nem as carpideiras abafam!

Amai pois em silêncios que gritam
caminhai em silêncios que gritam
avançai em silêncio que gritam
sede sempre fiéis em silêncios que gritam
como a terra que nos abraça em silêncios que gritam
e mesmo que a morte venha
aceitai-a sempre, mas sempre em silêncios que gritam!

“Esfera do caos”

Na esfera do caos
choramos futilidades
e sorrimos a desgraça.

“Pedido sagrado”

Se um dia
tiveres tempo
vai a Quelimane
procura-me
e conta aos quatro ventos
se o Mar está morto
no plano dos vivos
ou vivo
no plano dos mortos

Talvez então descubras
quão mortos estão os vivos
e quão vivos estão os mortos
na imensidão da aldeia!

“Lá vai Nonó”

Lá vai Nonó
belo e vaidoso
Não é rei, não!!!
Não vai roto,
nem descalço vai
Usa fato
com gravata de cetim
faz um nó perfeito
usa camisa de seda e calça boca de sino
calça sapato de pele
bem atado e engraxado
Mas Nonó
tem fome
fome de ética
fome de saber
E a fome seja qual for mata,
não mata?

“Alienação”

Construíram um altar
onde todos os dias prostrados gritamos
vivas ao Deus cifrão!!!

III

Não aceitarei
ser Ave enjaulada
porque é meu destino voar
voar bem longe
e se necessário for
jamais voltar!

Porque é meu destino voar
voar bem alto e sonhar
com o verde esperançoso do porvir
sempre no horizonte.

IV

Mãe!
Quando acordo
já os governos
legalizaram
o que nos roubaram!

Os roubos
são abençoados
pelo patriarcado
do Deus cifrão!

V

Não posso ser lua
luz das noites
nem mesmo sol
luz dos dias
Não posso
ser nuvem cinzenta
e nem sequer céu límpido
que povoa a inocência
Mas posso definitivamente
ser eu próprio
esse ser insignificante
que a todos tem fraternos amplexos para ofertar.

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