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Quinta-feira, Junho 24, 2021

Planeta dos Anti-humanistas

Michael Moore defendeu os direitos e interesses dos trabalhadores por décadas. Mas seu novo filme, “Planet of the Humans” (Planeta dos Humanos) abraça narrativas anti-humanistas e anti classe trabalhadora, de superpopulação e consumo excessivo.

por Leigh Phillips, na Jacobin | Tradução de Luciana Cristina Ruy

Não há provavelmente cineasta contemporâneo mais associado em advogar pelos sindicatos e trabalhadores do que o documentarista Michael Moore.

Seu documentário de estreia de 1989, “Roger e Eu”, nos leva da greve de 1936 de Flint, Michigan, que levou à formação da Trabalhadores de Automóveis Unidos, através da desindustrialização dos anos 1980, que devastou sua terra natal e tantas outras comunidades. Sua série documental ousada e inovadora de 1990, “TV Nation”, que expôs episódio após episódio incumprimento corporativo de cair o queixo, desenvolveu o conceito de Roger mais longe e estabeleceu um formato que foi emulado desde então. Todos os filmes que ele fez estão furiosamente, com humor, humanisticamente ao lado dos muitos e não dos poucos.

O mesmo não pode ser dito de seu mais recente trabalho. “Planet of the Humans” – dessa vez produzido por Moore e dirigido por Jeff Gibbs (mudando seus papéis de “Fahrenheit 11 de Setembro” e “Tiros em Columbine”) – conclui que soluções para mudanças climáticas como veículos eólicos, solares e elétricos não fazem jus a sua publicidade. Eles acham que do aquecimento global e perda de biodiversidade a escassez de água doce e esgotamento da fertilidade do solo, não há soluções políticas ou tecnológicas a altura da tarefa, e a única solução para os desafios ambientais é que não haja tantos para muitos. Moore e Gibbs podem não ter abraçado os poucos, mas eles certamente querem menos.

Em um desvio para a política malthusiana de decrescimento e, notavelmente, até abraçando a ideologia marginal de “anti-civilização”, “Planet of the Humans” declara que os problemas causados pela civilização industrial não podem ser resolvidos pela civilização industrial.

O progresso é um mito perigoso, o filme argumenta; há muitos seres humanos consumindo muita coisa, então todos nos países desenvolvidos – incluindo a classe trabalhadora – precisam consumir menos, enquanto o planeta como um todo deve ser despovoado para um número mais sustentável.

Por todas as muitas e generosas contribuições de Michael Moore para as políticas progressistas e humanistas através das décadas, tais argumentos são, bem, literalmente antiprogressistas e anti-humanos.

E nós não precisamos deles de qualquer maneira. Nossa série de problemas ambientais muito reais e desafiadores são causados principalmente não pelo crescimento – tanto das pessoas como da economia – mas pela estrutura de incentivos inerente a qualquer sistema de mercado.

Ao invés de dizer que um mundo atualmente destruído por uma pandemia global que já está cortando o crescimento econômico, enquanto mata centenas de milhares, que isso é basicamente o que queremos, mas feito de uma maneira melhor, nós deveríamos estar abraçando a regulamentação e o planejamento econômico que nós precisamos para salvar o planeta e todas as pessoas nele.

 

Diário de viagem apocalíptico

“Planet of the Humans” oferece um sombrio, às vezes apocalíptico, diário de viagem, listando os múltiplos, frequentemente sobrepostos desafios ecológicos, indo muito além das Mudanças Climáticas – de sobrepesca e perda de biodiversidade a consumo de água e esgotamento da fertilidade do solo.

Mas seu foco é principalmente o fracasso de fontes de energia renováveis, em particular solar e eólica. O diretor Jeff Gibbs viaja de um festival de música solar que, quando começa a chover, consome sua eletricidade de geradores de biodiesel e da rede de energia dominante em carvão da região, para matrizes solares abandonadas da Califórnia, que ele alega terem destruído antigos ecossistemas do deserto, e conservacionistas de Vermont em campanha contra a derrubada das florestas que cobrem a Montanha Lowell para abrir caminho para um parque eólico. Ele também destaca como, ao lado da eólica e solar, a biomassa predomina na produção de energia renovável e ao fazê-lo nivela ainda mais floresta.

Gibbs certamente entra em  uma briga inteligente sobre a ironia de tudo, chamando as dunas de Daggett,  Califórnia, de uma “zona morta solar”, e a destruição causada pelas turbinas em Vermont de “remoção do topo da montanha por vento ao invés de carvão”.

Mas no geral, a análise da produção de energia limpa não é nada inteligente. Seus números sobre a eficiência de são incrivelmente datados. Continua a haver matrizes solares fornecendo eletricidade limpa para a rede virando a esquina de onde Gibbs pensou ter visto sua zona morta.

Os documentaristas estão corretos quando eles nos lembram que a energia eólica e solar não podem por conta própria manter uma rede elétrica confiável. O vento não sopra sempre, e o sol não brilha sempre, e, como o diretor do serviço público de água e luz de Lansing, Michigan   nos diz no filme, às vezes não há sol ou vento. Isso os faz intermitentes, então eles precisam ser apoiados por uma fonte que é o que os especialistas em sistemas de energia chamam “firme”, disponível 24 horas, sete dias por semana.

Nós não queremos que nossos hospitais tenham que esperar que esteja ensolarado para que nós possamos operar as máquinas de diálise.

Gibbs e Moore também não estão errados quando eles destacam como a energia solar e eólica tendem a ser apoiados por usinas de gás natural. Alberta, que optou por aumentar sua capacidade eólica à medida que se desgasta do carvão, sem depender de hidroeletricidade firme ou energia nuclear ao lado dessa fonte de energia variável, está realmente usando créditos de energia renovável para construir novas usinas de gás natural.

O gás natural produz cerca de metade das emissões de carvão sobre seu ciclo de vida completo da extração, distribuição, combustão, então é melhor que nada. De fato, o movimento de carvão para gás natural é responsável a granel pela redução em emissões da América. E a troca contínua de cargueiros de combustível de carvão (um dos combustíveis mais sujos que existe, vindo do que sobra depois que todos os outros combustíveis são refinados) para gás natural liquefeito é um passo essencial pelo caminho para hidrocarbonetos sintéticos neutros em carbono (como a maioria dos envios não podem ser eletrificados devido ao peso e volume das baterias que seriam necessárias para travessias transoceânicas). Mas um dia, provavelmente em algum momento nos próximos dez a quinze anos, teremos que pôr em combustão convencional de gás natural também para alcançar emissões líquidas zero de gases de efeito estufa, até meados do século.

 

Os Limites Reais de Energias Renováveis Variáveis

Alguns advogados das energias renováveis variáveis responderam ao filme dizendo que nós podemos resolver esses problemas com uma mistura de baterias, outras formas de armazenamento em redeg, e redes inteligentes abrangendo continentes, que são capazes de mudar energia daqueles lugares onde o sol está brilhando ou o vento está soprando para aqueles lugares onde não estão.

Estas são todas boas ideias. Mas elas podem apenas melhorar o problema da intermitência de sol e vento – elas não podem resolve-lo.

Ignorando pelo momento os horrendos impactos climáticos dos combustíveis fósseis, nós podemos agora ver quão grandes eles são para uma rede, ou para qualquer outra atividade para a qual nós exigimos energia, tais como transporte e produção industrial: nós podemos usa-las sempre que quisermos.

Há uma razão porque Lênin definiu comunismo como “poder dos trabalhadores mais eletrificação de todo o país”. Os estratigráficos, geólogos, paleontologistas e ecologistas que estão trabalhando para definir a época do Antropoceno concluíram que o que eles chamaram de “Grande Aceleração”, a explosão do impacto humano no sistema da Terra não começou no século XVIII com a Revolução Industrial, mas nos anos de 1950, com o advento do estado de bem-estar, a institucionalização dos sindicatos, e o concomitante crescimento da “classe média”.

É claro, nós agora sabemos que não podemos ignorar os impactos dos combustíveis fósseis na atmosfera. Mas há fontes de energia limpa que são firmes, como a nuclear, hidroeletricidade, geotérmica, que o filme não discute, e biomassa, que o filme fala sobre prolongadamente.

“Planet of the Humans” está certo em se preocupar com a captação agressiva de biomassa, incluindo biocombustíveis. A Alemanha ganha muita imprensa por sua transição de energia limpa Energiewende e sua vasta construção de eólica e solar, mas a realidade é que para fazer isso ao mesmo tempo que ela eliminou baixo carbono e empresas nucleares de seu mix de eletricidade, ela teve que construir novas usinas de carvão e estabelecer novas minas de carvão. Ela também teve que depender de biomassa, principalmente na forma de pastilhas de madeira, porque quase tanto de seu mix de eletricidade vem da energia solar (respectivamente 8,7% e 9,1%).

O filme tem algumas coisas incorretas, contudo. O uso do que é chamado de “corte”, ou os galhos restantes, ramos e outros resíduos florestais, tem que ser queimado em muitas jurisdições, para que não seja deixado no chão como combustível seco, aumentando o risco de incêndios. Se tem que ser queimado de qualquer modo, nós podemos também usá-lo para fazer eletricidade.

Mas “Planet of the Humans” não está errado que muitas jurisdições jogam rápido e solto com o que conta como resíduo florestal. E muito do que a Europa usa para suas usinas de biomassa são na verdade árvores que foram transformadas em pastilhas de madeira; árvores que teriam um impacto muito maior na descarbonização se fossem usadas como produtos de madeira de longa duração, como mobília, ou substituindo o uso de aço e cimento em construções. E na escala que nós precisamos de combustíveis fósseis serem inteiramente substituídos, teria uma massiva pegada na terra, competindo com comida e produção de ração por terra arável.

Uma vez que a mudança no uso da terra é considerada, a maioria dos biocombustíveis de primeira geração como bioetanol na verdade produzem mais poluição de carbono do que seus equivalentes combustíveis fósseis. É na verdade algo como um escândalo escondido que grande parte do esforço de redução de emissões na Europa depende de uma fonte de energia renovável que não é realmente limpa.

Mas ao invés de explorar quão variáveis renováveis como solar e eólica podem ser emparelhadas com formas de energia que são limpas, mas firmes, “Planet of the Humans” conclui que todo o esforço para descarbonizar a rede é um sonho impossível.

 

Superando o medo da energia nuclear

De fato, já aconteceu em oito grandes economias, França, Quebec, Ontario, Suécia, Noruega, Columbia Britânica, Paraguai e Suíça já completamente ou grandemente descarbonizaram suas redes de eletricidade. Nós podemos fazer isso. Contudo, cada um depende principalmente de hidro e/ou nuclear, permitindo-os integrar eólica, solar e outras variáveis renováveis, sem desafio para a confiabilidade da rede.

Na verdade, a mais rápida taxa de descarbonização já alcançada foi a da França, nos anos 1970 e 1980, quando ela nuclearizou sua produção de eletricidade. A Finlândia e o Reino Unido estão indo muito bem, também, e ambos abraçaram a energia nuclear como fundamental para seus esforços de descarbonização. A rede da Islândia também é praticamente completamente limpa, dependente de hidro e geotermal, mas a Islândia, nós temos que lembrar, é uma pequena economia de apenas 360.000 pessoas.

A razão porque nós não podemos depender de hidroeletricidade e energia geotermal sozinhas, e não nuclear ao lado delas, é que as duas são geograficamente limitadas. Você pode construir uma usina de combustível fóssil ou uma usina nuclear em qualquer lugar, mas você precisa ter montanhas e vales para hidro, ou estar situado em uma zona geologicamente ativa (como o “Anel de Fogo” do Pacífico) para geotermal convencional. (O alcance da geotermal pode ser estendido significativamente via sistemas geotérmicos aprimorados, ou EGS, que dependem de fraturamento hidráulico para bombear água para rachaduras em rochas quentes subterrâneas, mas isso ainda não é uma opção que pode ser usada em todos os lugares).

Enquanto os cineastas não tocam em energia nuclear no documentário, como parte da promoção, eles deixaram claro que se opõem a essa opção, também. Michael Moore disse a uma transmissão ao vivo no YouTube que uma das suas primeiras ações como ativista político foi participar do movimento antinuclear do final dos anos 1960 e início dos anos 1970 (que, ironicamente, naquela época, argumentava que nós devíamos abraçar mais o carvão ao invés do urânio).

É tempo para o movimento ambiental pós-Guerra Fria – e, sim, figuras como Bernie Sanders – repensar a postura deles sobre energia nuclear. Nós sabemos agora que a energia nuclear tem o menor número de mortes por Quilowatt-hora do que qualquer fonte de energia, que um único voo de volta de Nova York para Londres expõe um passageiro a mais radiação ionizante do que uma vida inteira de exposição de um trabalhador em uma usina nuclear, e que em qualquer caso, os reatores de próxima geração fisicamente não podem derreter.

Há uma razão porque cada uma das quatro vias ilustrativas para as emissões líquidas zero até 2050, compatíveis com manter dentro de 1,5 graus C de aquecimento acima dos tempos pré-industriais e oferecido pelo Painel Intergovernamental da ONU sobre Mudança Climática (IPCC, na sigla em inglês) supõe entre 100 e 500 por cento de geração nuclear atual. De acordo com a última avaliação das mudanças climáticas do IPCC, a energia nuclear tem uma média de intensidade de carbono, através de seu ciclo de vida completo, de apenas 12 gramas de CO2 equivalente por Quilowatt-hora, a mesma do vento do mar – mas, ao contrário do vento, é disponível 24 horas, sete dias por semana. Energia solar fotovoltaica em escala de utilidade, que é intermitente, atinge uma média de 48 gramas.

“Planet of the Humans” fica muito forte no hidrogênio, também, e de um modo que explica muitos dos outros problemas que o filme tem com todas as tecnologias de baixo carbono que menciona.

Gibbs em um certo ponto entrevista uma figura de relações públicas para um veículo de hidrogênio em uma exposição de tecnologia limpa. Quando perguntado sobre de onde ele tira o hidrogênio, o cara de relações públicas responde que vem principalmente da quebra do metano (gás natural) em hidrogênio e moléculas de dióxido de carbono (CO2), via um processo conhecido como reforma de metano a vapor (SMR, na sigla em inglês), depois do qual o CO2 é liberado na atmosfera. O diretor com razão pergunta porque você lançaria CO2 para evitar liberar CO2. “Em todos os lugares que eu encontrei energia verde, não era o que parecia”, ele diz.

Ele e os acadêmicos que ele entrevista continuam enfatizando quão surpresos eles estão em descobrir que os combustíveis fósseis ainda são usados na produção de energia limpa.

Mas essa não é toda a história. Reforma de metano a vapor é apenas atualmente a maneira mais barata de fazer hidrogênio (e nós precisamos fazer hidrogênio para todos os tipos de propósitos, não apenas para combustíveis limpos). Nós podemos aplicar captura de carbono e tecnologia de armazenamento para o hidrogênio de origem SMR, eliminando as liberações de CO2, no que é descrito nos círculos de sistema de energia como “hidrogênio azul”, por causa da chama azul do gás natural, mas isso aumenta significativamente o custo.

Outra opção é usar algum do excesso de energia solar e eólica para fabricar hidrogênio por divisão de água (eletrólise). Esse é chamado de “hidrogênio verde”, porque não envolve o uso de gás natural. Esse é ainda muito intensivo em energia, então as melhores estimativas que temos no momento sugerem que esse também não vai ser competitivo com a reforma de metano a vapor. E ele é mais eficiente, com menos uso e desgaste em equipamento, se a produção de hidrogênio corre 24 horas sete dias por semana, ao invés de aumentar a produção para cima e para baixo dependendo do clima.

Contudo, nós podemos ao invés usar o calor de reatores nucleares ao invés de sua eletricidade para dividir água (via processo termoquímico, ao invés de eletrólise), um processo muito menos caro. Os reatores na verdade primeiro produzem calor, que eles então usam para transformar em eletricidade, então nós podemos até ter uns que são somente dedicados para a produção de calor para a fabricação de hidrogênio – sem precisar da etapa da eletricidade – para trazer o custo ainda mais para baixo.

Outra alternativa ainda nos estágios iniciais do desenvolvimento em Alberta seria, com efeito, mineração de hidrogênio por quebrar o metano subterraneamente e usar uma membrana especial para impedir a liberação de CO2. As projeções iniciais de custos fazem essa forma de produção de hidrogênio competitiva com a convencional reforma de metano a vapor.

E nós vamos quase certamente precisar de hidrogênio como uma entrada ao lado do CO2 diretamente capturado do ar (DAC, na sigla em inglês, às vezes referido como “árvores artificiais) para produzir hidrocarbonetos sintéticos neutros em carbono, para aqueles setores de transporte como caminhões de longo curso, frotas de navios e aviação, que são difíceis de eletrificar. (Caminhões de médio curso podem ser eletrificados, e muito dos transportes por caminhões pode ser mudado para ferrovias, mas não tudo. E também há considerações de temperatura; durante invernos frios, os combustíveis não enfrentam os desafios que as baterias enfrentam). Isso não é ilusão, tecnologia não testada, mas atualmente está em produção, embora em escala comercial piloto.

 

Limpar a rede

O uso do gás natural para fazer apoiar renováveis variáveis é na verdade inevitável se eólica e solar (e outras fontes variáveis como energia das marés e das ondas) não são gêmeas com fontes de energia firmes como nuclear, hidro ou geotérmica. Mas o uso de combustíveis fósseis em outro lugar nas opções na cadeia de suprimentos da produção de energia limpa declina constantemente ao longo do tempo, quando mais e mais da economia descarboniza.

Esse aspecto das opções de energia limpa – sua atual e declinante intensidade de carbono – é crucial para compreender. Eólica, solar, geotérmica, nuclear, e assim por diante, não produzem zero emissões. Elas apenas produzem muito menos do que carvão, petróleo e gás quando elas correm. Mas os recursos de que elas são feitas ainda têm que ser extraídos e processados. Então essas têm de ser transportadas e o produto final ainda tem que ser fabricado.

A extração é frequentemente remota e desconectada com a rede, então a geração de diesel é frequentemente usada para prover de energia esses processos. O transporte na maioria dos lugares ainda tem que ser descarbonizado, então há outra fonte de emissões na cadeia de suprimentos, e se a fabricação ocorre bastante em qualquer outro lugar do que aquelas oito principais economias que descarbonizaram suas redes, essa é outra parte da cadeia de suprimentos que adiciona uma pegada de carbono. Mas cada uma dessas etapas pode ser descarbonizada também.

Gibbs está um pouco certo em se horrorizar ao descobrir que carros elétricos pegam sua eletricidade de uma rede dominada por carvão, mas então a solução é limpar a rede. A descarbonização representa um círculo virtuoso: tudo mais limpo faz parte da economia, tudo mais limpo estará em qualquer outro lugar da economia.

Pequenos reatores nucleares modulares são provavelmente nossa melhor aposta para substituição do gerador diesel para extração. A eletrificação de caminhões de pequeno e médio curso, navios e aviões, junto com hidrocarbonetos sintéticos para caminhões de longo curso, frotas de navios e aviação, vão provavelmente nos levar a maior parte do caminho para o desafio do transporte.

Ter redes limpas também limpa a maior parte da fabricação. Há dificuldades próprias representadas pela produção de aço e cimento, porque as emissões aqui não vêm apenas de combustão de combustíveis fósseis, mas principalmente dos processos químicos usados para fabricar esses materiais. Mas há processos de fabricação experimentais atualmente em vários estágios, de através de bancada de laboratório a projetos pilotos que, dado o apropriado apoio do setor público, podem ser capazes de descarbonizar até aqueles processos difíceis de descarbonizar.

Todas essas soluções tecnológicas precisam ser guiadas pelas mãos do setor público para completamente realizar suas capacidades de descarbonização. Há muitas críticas injustas sobre a legislação de estímulo econômico de $800 bilhões da administração Obama, a Lei Americana de Recuperação e Reinvestimento de 2009. Mas ela dá uma dica do que é possível. Se você apertar os olhos, você pode até pensar nisso como o primeiro Novo Acordo Verde.

Pouco lembrado agora, mas o estímulo também incluía alguns $90 bilhões (reconhecidamente abaixo dos $150 bilhões prometidos na plataforma de Obama de 2008) investidos em eletricidade e transporte limpos – incluindo para avançadas tecnologias de veículos, uma rede elétrica mais inteligente e eficiência energética. Lançou as bases para a transição limpa nos Estados Unidos, que não havia realmente decolado antes desse ponto.

O “mini” Novo Acordo Verde de Obama gerou um aumento de vinte vezes nos gastos com energia limpa nos Estados Unidos, e permitiu a construção do que foi naquela época a maior fazenda eólica do mundo e um número das maiores matrizes solares do mundo. Em essência, o estímulo de Obama, junto com a China abraçar a fabricação de tecnologia limpa, pastoreou o que havia sido anteriormente tecnologias muito caras para abaixo da curva de custo.

A capacidade eólica dos Estados Unidos é agora três vezes o que era em 2008, e a capacidade solar, seis vezes. Lâmpadas de LED eram apenas 1% do mercado de iluminação americano, naquela época; agora elas possuem mais de metade do setor.

O estímulo também criou a Agência de Projetos de Pesquisa Avançada – Energia (ARPA – E, na sigla em inglês), um laboratório de pesquisa modelado na Agência de Projetos de Pesquisa Avançada em Defesa do Pentágono (DARPA, na sigla em inglês), que foi famosamente responsável pelo desenvolvimento da internet, mas também pela maioria das dezenas ou mais tecnologias no smartphone no seu bolso. O que pensamos sobre a quebra de união de Elon Musk, provavelmente nunca haveria um Tesla, sem subsídios de fabricação de bateria de estímulo elétrico e compartilhamento de riscos.

O impulso em gastar com renováveis em particular, junto com a mudança de carvão para gás de xisto mais barato, foram aproximadamente igualmente responsáveis por cortar as emissões de CO2 nos Estados Unidos no setor de energia por 28% desde 2005. Onde o mini Novo Acordo Verde de Obama falhou foi em escala: $90 bilhões em dez anos foi um grande catalisador, mas longe de suficiente para alcançar a escala de profunda descarbonização necessária: 100 por cento de redução líquida de emissões, em meados do século.

Um esforço muito mais ambicioso e muito mais intervencionista vai ser necessário nos Estados Unidos e além. Nós precisamos de um Novo Acordo Verde com uma etiqueta de preço de multi-trilhões de dólares dessa vez, na escala do que Bernie Sanders pediu.

A ironia é que tal intervencionismo gigantesco, construção de infraestrutura colossal do setor público, aumentos acentuados em gastos com pesquisas de tecnologias limpas e desenvolvimento nos laboratórios de governos e universidades, compartilhamento de riscos com firmas com tecnologias promissoras para assegurar que elas não desapareçam se o capital de risco secar – requer exatamente o tipo de críticas dos mercados deixados por conta própria que devia ser o pão com manteiga de Michael Moore.

 

Câmeras de filme também precisam de mineração

Um Novo Acordo Verde que coloca energia nuclear e hidrocarbonetos sintéticos no coração de uma abordagem acima de tudo incluindo solar, eólica, geotérmica aprimorada, ondas, maré, hidrogênio e captura e armazenamento de carbono (CCS, na sigla em inglês) representa o tipo de estímulo econômico que comunidades desindustrializadas podem compreender como entregando transformação genuína.  Isso pode assegurar um futuro para tanto o planeta, quanto para a esquerda política.

Ao invés disso, Michael Moore e Jeff Gibbs concluem que a única solução é uma redução no consumo e na população do mundo – e ainda mais desindustrialização. Vídeos promocionais acompanhando o filme nos dão mais informações sobre o que eles consideram: as pessoas no Sul Global devem poder continuar a desenvolver suas economias, mas aqueles nos países desenvolvidos precisam cortar fortemente.

Esse argumento de eco austeridade, pedindo por cortes no padrão de vida dos trabalhadores ocidentais ainda mais depois de 40 anos de restrição salarial neoliberal, não faz sentido, dado os admiráveis e de longa data comprometimentos políticos de Moore. Moore ficaria feliz em mostrar sua solidariedade em uma linha de piquete. Mas quando trabalhadores entram em greve, o objetivo, junto com melhores condições, é um aumento em nossos salários, o que significa necessariamente que nós seríamos capazes de consumir mais.

A posição de “Planet of the Humans” de crescimento não é apenas anti-trabalhador; também é desnecessária. Nenhuma das genuínas vitórias ambientais que nós verdadeiramente vencemos ao longo das décadas, do fim da diminuição da camada de ozônio e do envenenamento por chumbo, às proibições de PCB e amianto, e as leis do Ar Limpo e Água Limpa, resultou de restringir o consumo dos trabalhadores. A camada de ozônio deve ser completamente recuperada em meados do século, mas nós temos mais geladeiras e latas de spray de cabelo do que nunca.

Em todas essas vitórias, o que foi necessário foi o reconhecimento de que o mercado, deixado por conta própria, continuaria a incentivar a produção de mercadorias prejudiciais, tais como gases CFC, então precisava de uma intervenção do governo para forçar comutação de tecnologia contra os atores do mercado.

Essas empresas lamentaram-se e processaram e fizeram lobby, reclamando em boa moda neoliberal que não era o papel do governo “escolher vencedores”. Mas no final, graças às campanhas do movimento ambiental precoce e sindicatos e comunidades locais, o bem público venceu sobre o ganho do privado.

No seu pior, “Planet of the Humans” até ataca a própria civilização industrial e tecnologia. Nisso, uma antropóloga especializada em primatas do Velho Mundo e a evolução da pigmentação da pele, Nina Jablonski, denuncia qualquer tentativa de resolver problemas ambientais com “correções tecnológicas”. Como se por toda parte da história humana nós não tivéssemos tentado resolver problemas via novas tecnologias e então usado a luta de classes para forçar as elites a compartilhar os benefícios daquelas tecnologias com todos.

Uma montagem simplesmente oferece clipes de minas, fábricas, escavadoras, caminhões basculantes e crianças trabalhadoras produzindo o silicone, grafite, cobalto, níquel, lítio, cobre, lata e outras substâncias com nomes difíceis de pronunciar, como fluoreto de amônio, hidróxido de sódio e acetato de etileno vinil (ecoando as Gwyneth Paltrows quimiofóbicas do mundo, temendo os perigos do monóxido de Di-hidrogênio) que vão na fabricação de tecnologia limpa. Não há argumento narrativo feito por cima da sequência. Ao invés, o filme nesse ponto parece simplesmente dizer: “Viu? Minas! Fábricas! Produtos químicos! Bú!”

Os problemas com a tecnologia limpa estabelecidos por Moore e Gibbs basicamente resumem-se ao fato de que ela ainda envolve mineração. Bem, o mesmo acontece com as câmeras de filme.

Em muitos países desenvolvidos, com sindicatos historicamente fortes e onde a mineração ainda faz uma parte significativa do GDP, como Canadá ou Austrália, o setor se tornou, através das décadas, um que fornece trabalho altamente pago, seguro e sindicalizado, e as empresas são forçadas pela regulamentação a corrigir os lugares. Ainda há problemas tais como o terrível desastre dos rejeitos de cobre do Mount Polley, em 2014, na Colúmbia Britânica? É claro. Mas esse principalmente se relaciona aos cortes neoliberais em regimes de inspeção, pelo lobby bem sucedido da inspeção terceirizada para as próprias empresas, e captura regulatória.

Em outras palavras, o problema é o mercado deixado por conta própria, não a própria mineração. A mineração pode ser limpa e amigável ao trabalhador, ou pode ser tão brutal quanto um armazém da Amazônia. Não há setor da economia que é intrinsicamente mal. As condições, ao invés, inteiramente dependem da força dos sindicatos, do nível de responsabilidade democrática do governo, e a vontade do setor público de intervir contra o mercado.

Então, ironicamente, ao focar na civilização industrial e “superpopulação” como a causa dos problemas ambientais, Moore e Gibbs nos distraem do real problema: o mercado sem limites.

Você pode até ir mais longe ao dizer que nos distraindo dos problemas dos mercados e, ao invés, focando no crescimento, Michael Moore e Jeff Gibbs inadvertidamente apenas fazem o filme mais neoliberal de suas carreiras.

Contanto que Moore, Gibbs e os ativistas inspirados pelo pensamento Malthusiano estão focados em tentar fazer a classe trabalhadora reduzir seu já inadequado consumo, ou ter menos filhos, declarando em suas bandeiras: “Sigam-me! Eu prometo menos a você!”, as empresas de combustíveis fósseis vão estar bastante contentes, que elas não correm perigo algum.

 

O documentário está no Youtube, mas sem tradução para o português:


por Leigh Phillips, Escritor de ciências e jornalista de assuntos da UE. Ele é autor de “Austerity Ecology & the Collapse-Porn Addicts”   |   Texto em português do Brasil, com tradução de Luciana Cristina Ruy

Exclusivo Editorial Rádio Peão Brasil / Tornado


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