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Segunda-feira, Setembro 20, 2021

Processos Marquês e Lava Jacto – um jogo de xadrez

Carlos de Matos Gomes
Militar, investigador de história contemporânea, escritor com o pseudónimo Carlos Vale Ferraz

A corrupção em Portugal e no Brasil sempre existiu. A sua exaltação repentina, como uma descoberta, com as operações Marquês, em Portugal e Lava Jacto no Brasil foi um pretexto para impor uma estratégia de domínio.As armas de destruição massiva no Iraque nunca existiram. Foram um pretexto para uma estratégia de domínio.

A corrupção em Portugal e no Brasil sempre existiu. A sua exaltação repentina, como uma descoberta, com as operações Marquês, em Portugal e Lava Jacto no Brasil foi um pretexto para impor uma estratégia de domínio.

Estabelecer uma estratégia é jogar factores de risco para obter um resultado pretendido. Estratégia é o grande jogo do poder utilizando todas as armas, incluindo a inteligência, a ambição e o atrevimento.

A estratégia é um jogo de xadrez. Desenvolve-se manobrando várias pedras, ocultando intenções e fazendo crer que o objectivo é outro que não o real. A estratégia é um jogo de falsas intenções.

Neste ano da graça de 2019, em Portugal, Sócrates e Ricardo Salgado são duas personagens execradas. Não há excremento que não lhes seja atirado e culpa de males cuja origem não lhes seja atribuída. Não é possível falar deles sem um palavrão. Estão na boca dos cães.

No Brasil, é Lula da Silva que serve de alvo a todas as frustrações e maldições.

Sócrates, Ricardo Espírito Santo Salgado, Lula da Silva, também e, já agora, Hugo Chavez são infrequentáveis, indefensáveis e são-no porque gizaram uma estratégia que saía do controlo do poder absoluto do Grande Irmão, em Washington.

Analisar as suas acções é um exercício de alto risco. Como entrar numa jaula à hora da distribuição da ração a animais cegos de fome e ódio. Não estou a fazer exercícios de provocação, mas sim de relaxe.

Do mesmo modo que, quando a esmola é grande o pobre desconfia, eu desconfio dos poderes dos maus absolutos, daqueles que são acusados de responsáveis por tudo o que nem o diabo conseguiu, de tipos como Nero, Napoleão, Hitler, Mussolini, Estaline, ou até o avião Enola Gay que lançou bombas atómicas no Japão. E também desconfio quando idiotas são apresentados como salvadores: Bush o filho, Trump, Bolsonaro, Blair, Boris Johnson, o Salvini… e ainda quando faquistas de alto coturno nos surgem como figuras exemplares de patriotas, caso de Putin em primeiro lugar… ou Kissinger… ou Bolton…ou Netanyahu…

Enfim, desconfio quando, entre este naipe de figuras que fabricam estilhaços humanos com muito maior desembraço com que numa charcutaria as operárias fazem hambúrgueres e chouriços, se introduzem figuras menores como Sócrates, Lula da Silva ou Hugo Chavez. Haja respeito pelas hierarquias. Mas, como nada no mundo destas (daquelas) figuras sinistras é um acaso, há que procurar por que em vez de um Trump como mau da fita mediática surge Lula da Silva. Porque em vez do presidente da Reserva Federal americana surge o Ricardo Salgado, porque em vez do príncipe saudita que compra milhões em armas e esquarteja jornalistas desafectos surge como assassino do seu povo o Maduro.

A estratégia explica as razões. A acusação de corrupção a Sócrates, a Lula e a Chavez encobre-as. Na origem das acusações está o poder. Para manter o poder há que desacreditar os que os desafiam. Aqui em Portugal as epidemias eram habitualmente atribuídas a um judeu que roubou a imagem de um santo.

José Sócrates e Lula da Silva

Dir-me-ão: Estás a defender corruptos és como eles. Defendo o que entendo e imagino como me parece que as coisas se passaram.

Imaginemos:

Com Sócrates em Portugal, Lula no Brasil e Chavez na Venezuela existia e estava delineada uma estratégia entre os três Estados. Ela é hoje descortinável, até pelos resultados da sua derrota.

O Brasil assumia o papel de navio almirante com investimentos na produção e comercialização de petróleo, concertando preços e condições de fornecimento com a Venezuela e Angola – em conjunto valiam e valem uma percentagem significativa do mercado, seriam grandes fornecedores da Ásia. O Brasil faria parte dos BRIC’s e as suas empresas poderiam integrar grandes projectos em África, em particular em Angola e em Moçambique, com empresas portuguesas. Estes projectos envolveriam as portuguesas GALP, Mota e Engil (entre outras) a Odebrecht e a Petrobrás. Dado que o futuro da luta pelo poder global se encontra no aeroespacial e nas comunicações, a Embraer entraria em Portugal e na EADS (European Aerospace Defense Systems/Airbus) através das OGMA e seria constituída uma grande operadora de comunicações luso- brasileira, daí a entrada e a importância da Telecom portuguesa e do negócio com a OI e da Viva do Brasil… e havia o financiamento do BES, Ricardo Espirito Santo e de alguns bancos brasileiros a empresas no Brasil, em Angola e na Venezuela.

Esta estratégia criava com Portugal e o Brasil e, por arrastamento, Angola e Moçambique, um espaço político, económico e cultural de grande relevo estratégico mesmo a nível mundial. Logo ameaçador para a supremacia dos Estados Unidos na América do Sul e em África, ameaçador para o seu controlo de matérias-primas estratégicas, mais ameaçador quando o Brasil se tornasse uma potência aeroespacial, um factor de risco acrescido para os EUA porque associado à China, à Índia e à Rússia. Os Estados Unidos perderiam o controlo da parte mais rica e decisiva da América do sul, a que inclui o Brasil (um quase continente), a Venezuela, a Bolívia e a Colômbia. Basta olhar o mapa. Mesmo com um ministro dos negócios estrangeiros pró-americano, Luís Amado, esta estratégia não podia ser tolerada pelo poder imperial de Washington.

Era vital para os Estados Unidos impedir este triângulo Portugal – Brasil – África Austral (Angola e Moçambique). Era fundamental quebrar a ligação Brasil – Venezuela. Era decisivo e exemplar reduzir os ambiciosos à sua menor expressão e apresentá-los como exemplo do que acontece a quem quer sair do rebanho e da órbita do pastor.

Agora tudo está resolvido: Sócrates é um proscrito, Lula está preso, Chavez morto e o seu sucessor Maduro em apuros, na Colômbia está um traficante amigo e resta a Bolívia de Morales, até ao dia em que seja acusado de corrupto. Por sorte não é um produtor de petróleo. O pivot financeiro desta estratégia, Ricardo Salgado, está manietado por processos que nunca terão fim. Todos, ele e os seus aliados, acusados de corrupção, mas jamais julgados. Um julgamento seria de todo inconveniente. Veja-se a atrapalhação que está a causar a exposição das rábulas de Sérgio Moro enquanto juiz.

O sistema judicial português e brasileiro, com juízes como Carlos Alexandre e Sérgio Moro, entrou até ao pescoço na contra-ofensiva à estratégia de construir um espaço autónomo, maioritariamente falante de português. Foi não só cúmplice como actor no contra-golpe.

Os processos Marquês e Lava Jacto são estratégia ao mais elevado grau. Agentes internos derrotaram as intenções dos seus protagonistas. A estratégia de construir um espaço lusófono com peso significativo na divisão de poder mundial foi derrotada. A acusação de corrupção foi a “arma de destruição massiva” apresentada como pretexto.

Asfixiado o projecto através da guerra da justiça e da manipulação da comunicação, Portugal virou-se para o interior da União Europeia, o quintal europeu. O Brasil foi excluído dos BRIC’s e é hoje um estado idiota, como o classificaram os franceses, a Venezuela é um Estado asfixiado, Angola tenta aliviar a dependência do petróleo e Moçambique sofre de males diversos, desde o ataque dos fundamentalistas islâmicos financiados pela Arábia Saudita às calamidades naturais.

Reina a paz nas Américas. Os submissos brasileiros rezam e pagam dízimo. O principal e único perturbador está preso. A sua sucessora foi “impechada”.

Reina a paz em Portugal. Somos campeões de futebol e temos as contas certas. Os agitadores estão em guarda à vista. A grandeza de Portugal e o seu futuro  joga-se agora, a acreditar nas televisões, nas contas municipais e nos ajustes directos dos edis.


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