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Sábado, Dezembro 4, 2021

Nem Rio, nem Salvador, vem pro Carnaval de Belô!

Caroline Césari, em Minas Gerais
Mestre em Antropologia Social e historiadora formada na Universidade Federal de Minas Gerais.

A capital mineira vive um momento de intensa revitalização de seu carnaval de rua. Durante muito tempo Belo Horizonte (MG) era um refúgio para quem não gostava da folia.

Durante a festa a cidade ficava vazia, podia-se caminhar tranquilo nas ruas do Centro, não havia nada para se fazer a não ser descansar. A única exceção era o desfile das escolas de samba que se manteve aos trancos e barrancos, mesmo contando com pouco ou nenhum apoio para a realização da festa.

No entanto, nos últimos cinco anos, o carnaval belorizontino vem ganhando fôlego e tomando grandes proporções. Mesmo com dificuldades financeiras e falta de apoio, as agremiações mantém a tradição do desfie nas ruas do Centro da capital mineira.

Para este ano a prefeitura municipal informou que acontecerão apresentações de mais de 360 blocos de rua, um aumento de 30% em comparação com 2016. Os desfiles vão se espalhar por toda a cidade, dando o caráter desse carnaval que se constitui num evento democrático, acessível e gratuito.

Felizmente a prática da comercialização de abadas (camisas que dão o direito a participar do bloco) ainda não é praticada na cidade, onde a festa é aberta a todo tipo de público. Os desfiles se concentrarão principalmente nos bairros mais tradicionais e charmosos da capital como Santa Teresa, Santa Efigênia, Floresta, Carlos Prates e Santo Antônio. Mas é a descentralização da folia que permitirá que a maior parte das regiões da cidade receba seus blocos e participem dessa grande festa.

Famosa por ser berço de grandes músicos e compositores, como Toninho Horta, Vander Lee, Samuel Rosa, entre outros, BH mantém em seu carnaval essa criatividade musical, trazendo para a rua além das famosas marchinhas já conhecidas e consagradas pelo público, novas letras com a característica de levar para a folia questões relacionadas -à política nacional, e aos descalabros sociais ocorridos no país.

Há também os blocos que trazem, para além das marchinhas e do samba, outros ritmos como os tambores e os maracatus, além de releituras de famosos cantores nacionais como o bloco “Chama o Síndico” que desfilará na próxima quarta-feira (22) e toca músicas de Jorge Bem Jor e Tim Maia e o “Beiço do Wando” (26), que traz as músicas do famoso cantor romântico da década de 1980.

Já o bloco “Volta Belchior” estreante neste carnaval, faz uma brincadeira com relação ao desaparecimento do compositor cearense Belchior, que fez os clássicos “Como Nossos Pais”, que ficou imortalizado pela voz de nossa inigualável Elis Regina. O cantor também foi autor de sucessos como “Medo de Avião”, “Paralelas” e “Rapaz Latino Americano”.

Belchior ficou conhecido por sua poesia engajada e sua atitude de não fazer concessões à indústria cultural. Segundo Pedro Martins, um dos idealizadores do bloco:

“A obra de Belchior tem um aspecto extremante político. Ele é um contestador do capitalismo, da relação com o dinheiro. Ele fala da luta diária para sobreviver nos centros urbanos, das migrações entre sertão e cidade, das relações de desigualdade entre povo e poderosos, dos sofrimentos dos excluídos, da força dos brasileiros e latinos diante de tudo isso.”

A proposta do bloco é trazer o conteúdo político das músicas do compositor para as ruas e assim sensibilizar os foliões sobre a atual situação política que vivemos. O desfile será comandado pelos mestres Eros e Manjado e percorrerá no sábado (25) as ruas do tradicional bairro de Santa Teresa, conhecido por sua vida boêmia e muitas opções de bares, gastronomia e atrações culturais.

Em um carnaval politizado,  integrantes da Bateria “Alucinação” do bloco “Volta Belchior” trazem em seus instrumentos musicais mensagens contra o (des) governo de Michel Temer.

Prova de que o carnaval de Belo Horizonte tem em sua natureza esse conteúdo de reivindicação e sarcasmo com relação às questões políticas é o Concurso de Marchinha Mestre Jonas, que está em sua sexta edição, e teve até hoje todas as músicas vencedoras consagradas por seu teor politizado e irreverente.

Se o povo não tem voz nas ruas, se seu voto não é respeitado, ou se nossos políticos são corruptos e não tem vergonha, e continuam governando alheios às reais necessidades da população, nosso carnaval vem com toda alegria e picardia parodiar, fazer troça de tudo aquilo que cotidianamente nos oprime, e que atinge nossa cidadania.

Este ano a marchinha vencedora do concurso chama-se “Baile do Cidadão de Bem” e foi composta por Jhê Delacroix e Helbeth Trotta. A música faz um deboche aos “Cidadãos de Bem” que defendem o “Estado Democrático de Direita” e foram para as ruas manifestar a favor do Impeachment da Presidenta Dilma, contra a corrupção, mas que levam taça de champanhe pra manifestação.

É esse o cidadão que estaciona em lugares proibidos, que é contra o aborto, mas defende que bandido bom é bandido morto, que bate panela em suas varandas gourmet, mas que não sabem diferenciar o público do privado.

E como bem finaliza a marchinha: “Nessa privada, o público é de ninguém! É o carnaval cantando a vida real. Em BH brincar (a folia) rima com manifestar!!!

A autora escreve em português do Brasil

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