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João de Sousa

Quinta-feira, Dezembro 9, 2021

Símbolo da luta contra a ditadura, Bonafini resiste, aos 87 anos

«Eram pouco mais das seis da tarde quando Hebe de Bonafini falou, pela segunda vez naquele dia, a uma multidão que a abraçava.»

Às primeiras horas da manhã, o advogado da Associação Mães da Praça de Maio tinha apresentado, diante do juiz Marcelo Martínez de Giorgi, um documento antecipando que Hebe não se apresentaria à segunda convocatória para depôr no caso relacionado com a organização “Sueños Compartidos (Sonhos Partilhados)” (no qual Hebe é acusada de desvio de fundos públicos).

Nora Vieras, jornalista do Página|12 faz um relato detalhado do que aconteceu e transcreve testemunhos.

«Um aparato policial, inédito para executar a ordem de detenção de uma mulher de 87 anos, deslocou-se então para a Praça de Maio, na mesma hora em que, desde 1999, as Madres saem para a sua vigília semanal.

A polícia não conseguiu cumprir a missão e a notícia começou a espalhar-se pelo mundo, ao ritmo de centenas de pessoas que afluíam à praça e em seguida, em caminhada e formando um cordão humano de protecção em redor de Hebe e das restantes activistas, levaram-nas de volta à casa das Madres a dois quarteirões do Congresso, onde permaneceram impedindo os intentos da polícia.

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– “Cercaram-nos de polícias, atravessaram um carro em frente da carrinha das Madres mas saímos por cima. Demos um drible”, contou Hebe, um pouco depois, ao jornalista Víctor Hugo Morales.

– “Fizeram uma jogada de Maradona”, respondeu ele.

– “Sim, e o povo completou para o golo”, concluiu Hebe.

“Estupor”, “desgosto”, “barbaridade” eram as palavras repetidas por todos.

Chegaram as mulheres que lutam nas ruas há quarenta anos e o ânimo mudou. “Com Hebe não se mexe”, “Madres de la Plaza / el pueblo las abraza” começou o coro.

As Madres saudavam: “sempre igual, na luta, vivas”.

As pessoas foram chegando, espontaneamente. “Estava no trabalho, fui alertado por um whatsapp e estou aqui. Isto é um ensaio. Estão a testar para ver até onde podem chegar, o nível de reacção que temos”, dizia Fabian, 47 anos, assalariado.

A alguns passos dali, Andrés Eraso estava presente com sua máquina fotográfica para registar um daqueles dias que não poderia esquecer:

“Onde possa levar o meu corpinho, estou, trato de acompanhar. Esta gente não sabe o que fazer deste país. Em sete meses, geraram uma trapalhada fenomenal, que não sabem como consertar”.

“Amanhã, não se esqueçam de ler o Clarín e o La Nación para ver o que aconteceu”, ironizava um fotógrafo surpreendido por uma multidão que se foi formando ao longo de vários quarteirões. “Pela Avenida de Maio, quando as Madres voltavam da Praça, foram saudadas por chuva de papéis picados”, contava.

“É doloroso, mas estar juntos é a forma de recarregar as baterias”, sintetizava outra senhora.

As Madres chegaram, precedidas por uma guarda improvisada de motards.

Desceram da carrinha e abriram caminho como puderam, até chegar à cozinha da sua “casa”, o lugar onde se encontram diariamente.

“Alguns crêem que isto é o Kremlin. E a primeira coisa que dizemos todos os dias é que viemos comer. Pedimos alguma coisa e depois morremos de rir, porque não nos lembramos o que cada uma pediu”, contaria Hebe mais tarde, desdramatizando o dia em que pela primeira vez quase a encarceraram em “democracia”.

Dirigentes de movimentos sociais e apoiantes do movimento pró-Kirchner foram chegando. Na última hora, depois de falar por telefone, chegou o deputado Máximo Kirchner, :

“Resgato a dignidade de Hebe e das Madres. Estão sempre dispostas a envolver-se com o próprio corpo. Foi assim na ditadura; em 2001, quando a polícia as atacou com cavalos e também agora”, disse o deputado.

“A única luta que se perde é aquela a que se renuncia. Este ataque não é apenas contra Hebe. Começou com Milagro Sala . Seguiu com a perseguição mediática e judicial a Cristina Kirchner. Hoje é Hebe; amanhã, todos os militantes populares”, disse o advogado Oscar Parrilli.

Andrés Larroque, , destacou que “o povo esteve à altura das circunstâncias e inundou as ruas”.

O deputado Martín Sabatella afirmou: “Hebe é um monumento à dignidade. Se lhe tocam, e em Cristina , tocam-nos a todos”.

Daniel Catalano, secretário da associação dos funcionários públicos alertou a ministra da Segurança, Patricia Bullrich “para que saiba que há um povo decidido a resistir, por mais que ela queira cumprir as ordens de Washington”.

O economista Axel Kicillof destacou “a vergonha internacional que a tentativa de deter Hebe provoca. A notícia hoje é que aqueles que lutam são perseguidos, enquanto se procura libertar os opressores. Este projecto só pode ser imposto com a repressão dos que lutam”.

O activista Luis d’Elia, principal referência da Federação da Terra, Moradia e Habitat, previu que “o Judiciário e os media não poderão travar a luta popular”.

Jorge Ferraresi, presidente da Câmara de Avellaneda, advertiu: “vamos combater. As Madres não tiveram medo de Videla . Vão temer Macri?”

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Hebe fechou o acto improvisado à porta da casa das Madres confessando a sua felicidade pela “mobilização do povo”.

“Não fiquemos tristes, aflitos, calados ou quietos. A mobilização dos povos é o que liberta. Nós, “Las Madres…” seguiremos nesta posição irredutível, para que não continuem avançando sobre nós. Já fizeram demais em sete meses. Macri, basta.”;

“Se me querem prender, que me prendam, a minha vida já não vale mais nada, tenho 90 anos. Eu não tenho medo das consequências, nunca meço as consequências. Para mim, o mais importante é a vida e a honra dos meus filhos e dos 30 mil ”;

“Quem é Martínez de Giorgi? É um comprado pelo Clarín . Que tome a decisão que queira. Eu estou à espera dele”.

Foram algumas das palavras proferidas por Hebe Bonafini, a activista dos direitos humanos.

Todos juntos cantaram o hino da Argentina. E as Madres voltaram à intimidade da sua cozinha.»

Fonte: Pagina|12

Nota da Edição: O Juiz Marcelo Martínez de Giorgi suspendeu esta sexta-feira (05/08) a ordem de prisão contra Hebe de Bonafini e concordou que o depoimento seja realizado na sede da organização.

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