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João de Sousa

Segunda-feira, Dezembro 6, 2021

Sonhos

Yvette Centeno
Licenciou-se em Filologia Germânica, e e doutorou-se com uma tese sobre A alquimia no Fausto de Goethe. É desde 1983 Professora Catedrática da Universidade Nova de Lisboa, onde fundou o Gabinete de Estudos de Simbologia, actualmente integrado no Centro de Estudos do Imaginário Literário.

Para o Sérgio…

Para mim, desde sempre, o sonho que se fixou, ao acordar, é algo mais do que um sonho.

Ou é aviso, ou é chamada de atenção para algum caminho que devemos procurar, pois a nossa vida não é senão esse caminho, nem sempre revelado e que temos de ser nós a descobrir, a percorrer, ou ignorar.

Ignorar tem o seu preço: alguma coisa em nós ficará incompleta, será consciência mutilada. Em regra é no meio da vida que estamos em melhores condições de entender o que nos diz essa narrativa, oriunda de um imaginário oculto, mítico e arcaico cujas raízes provêem do inconsciente pessoal, ou colectivo.

De uma outra esfera que ignoramos até que surge. Diante de nós, estendem-se então situações, paisagens, reacções ou silêncios que nos deixam confusos. Pedimos opinião a algum amigo, ou nos limitamos apenas a contar do nosso espanto. Eu gosto de abrir um sonho como quem abre um poema, ou um fruto maduro.

Demoro a meditar nas imagens mais fortes. No caso a que me vou referir são estas: a visita a uma herdade de família, de uma madrinha que foi segunda mãe, e concluir que não conhecia ninguém. É importante a memória da infância, cheia de perfumes e sabores que depois se perdem já na vida de adulto. Esse é o primeiro passo em direcção ao inconsciente, onde ficam guardadas, noutra esfera, imagens que desejam ser recuperadas.

Porque esse era um tempo feliz, que nem sempre na vida adulta se voltará a viver. Mas ali estão, para que um dia se lembrem, quando menos se espera. A madrinha era mãe: haverá lição mais clara? Não é a mãe o princípio, não é dela que se nasce e se cresce para o resto da vida? A mãe-primeiro princípio, a mãe arcaica, primordial, a Grande-Mãe de que nada se sabe, e hoje em dia cada vez menos? Por isso o nosso viajante sonhador verifica com espanto que não conhece ninguém. O que lhe diz o sonho é muito simples: está na hora de procurar conhecer…

Ou fica ali, rememorando o passado, ou parte, em busca de outra aventura, outra vida que possa ser vivida por estar à sua espera. Onde? Nas caves mais fundas do seu próprio inconsciente, no escuro das confusões que terá de aclarar, até que de novo se libertem mais sonhos, alguma luz se faça, e dessa luz nasça o poema, a Obra que ali estava ainda de reserva à sua espera.

Ficarei por aqui, aguardo que floresça o seu poema.


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