Diário
Director

Independente
João de Sousa

Quarta-feira, Julho 6, 2022

Uma história bárbara e inacreditável

NINM
NINM
Colaboração do Núcleo de Investigação Nelson Mandela – Estudos do Humanismo e de Reflexão para a Paz (integrado na área de Ciência das Religiões da U.L.H.T.)

De 2011 até ontem de manhã

“Pelo menos 59 civis, entre os quais numerosas crianças, morreram desde segunda-feira em Raqa, na Síria, em bombardeamentos da coligação internacional liderada pelos Estados Unidos, informou o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH)”. em 17 ago 2017 15h14mn

Quando se começou a notar que na Síria o extremismo assinava mais uma página de terror na história do mundo estava-se em março de 2011. No princípio do mesmo ano, no meio da crescente pressão para abandonar o poder, na sequência da “primavera árabe” (fevereiro 2011), o líder líbio Kadhafi, que o poder ocidental ajudara a manter o poder e a consolidá-lo em muitas ocasiões, dava uma entrevista em que se mostrava convicto de que o povo o adorava e que morreria para protegê-lo. Interrogado sobre se tencionava abandonar a Líbia, respondeu com uma gargalhada. Foi uma das suas últimas gargalhadas, pois o ciclo de poder estava a chegar ao fim.

Kadhafi, na grafia corrente, e a Líbia

Muammar Abu Minyar al-Gaddafi, na grafia corrente Kadhafi, militar, político, ideólogo e ditador líbio, foi chefe de estado do seu país entre 1969 e 2011.

Verdade seja dita, já ninguém se lembra de Idris I, o primeiro rei da Líbia depois da independência, deposto por Kadhafi com o apoio de um grupo de coronéis que invadiram Tripoli e tomaram o poder, sob a chefia de Mahmud Sulayman al-Maghribi – chefe militar que “desaparecerá” da esfera do poder. Talvez desconheçam até que a Líbia havia sido colonizada pela Itália! E que a Itália tinha a pretensão de “fechar” um “portão aquático” no mar Mediterrâneo, entre o Mediterrâneo Ocidental e o Mediterrâneo Oriental, tendo os seus eixos entre a Itália e a Líbia.

Em 24 de Dezembro de 1951, a Líbia declara independência (separando-se da colonização italiana) e constitui um reino independente, tendo Idris I como rei.

Kadhafi toma o poder. Com ele traz o sonho da unidade do mundo árabe. Por isso procurou  alianças que o levaram a querer criar os Estados Unidos do Saara, promovendo fusões efémeras com o Egito, a Tunísia, a Argélia e Marrocos.

Em 1986, após um atentado à bomba numa discoteca de Berlim, quando morreram dois cidadãos norte-americanos, os EUA lançaram ataques aéreos em Trípoli e Benghazi e impuseram sanções económicas contra o país.

No final da década de 1980 o governo líbio foi acusado de envolvimento nos atentados contra aviões da Pan Am e da UTA, o que motivou a imposição de sanções também pela ONU, em março de 1992.

Devido a indícios de crimes contra a Humanidade, cometidos pelas tropas do governo contra os rebeldes e civis líbios, nas áreas de insurreição e combate, em 16 de maio de 2011, Luis Moreno-Ocampo, Procurador-Chefe do Tribunal Penal Internacional, sediado em Haia, solicitou mandato internacional de captura e prisão contra o líder líbio, por crimes contra a Humanidade.

Abatido a tiro, acabará por morrer ainda em maio de 2011.

De acordo com o jornal francês Le Figaro, “o corpo de Muammar Gaddafi foi enterrado no meio do deserto num local não especificado para evitar que o túmulo se torne um local de peregrinação de seus partidários”.

Síria. Repete-se a história?

Pois exatamente em 2011 começava o conflito na Síria. Acreditamos que este inventário que aqui fazemos, sobre Kadhafi, seja útil, pois tudo o que se passou terá caído no esquecimento. Como daqui a seis anos a Síria será provavelmente um ponto sem cor no mapa das tragédias.

Nos últimos dias, comandantes russos gabaram-se de terem protagonizado mais de 2500 bombardeamentos aéreos no território sírio e difundido a mensagem para o mundo, o presidente sírio Bashar Assad, um caso de sobrevivência física e política notável, afirmou que o “projeto do Ocidente” em relação ao seu país fracassou. Agradeceu aos seus aliados, Rússia e Irão – pelo apoio no combate contra os terroristas. Esta tomada de posição anti ocidente deve mobilizar os comentadores e acautelar os dirigentes. Assad sabe o que diz e quer e tomou há muito o seu partido.

Assad fez o discurso no congresso de diplomatas em Damasco que foi transmitido ao vivo pela televisão nacional síria. Disse: “Pagámos um alto preço nesta guerra, mas em troca do fracasso do projeto ocidental na Síria e no mundo”. De acordo com Assad, o projeto consistiu em “manipular a Síria através da chegada ao poder da organização islâmica radical Irmandade Muçulmana”. O presidente frisou, contudo, que “a batalha continua” e agradeceu à Rússia, ao Irão e ao grupo libanês Hezbollah pela assistência na luta contra o terrorismo. Recorde-se que o Hezbollah foi a única força a quebrar, em 2006, a invencibilidade de Israel, sendo apoiada pela Síria. Sayyed Hassan Nasrallah, secretário-geral do Hezbollah orgulhou-se daquele feito e disse: “Beirute foi destruída por Sharon e reconstruída por Hafez Al-Assad. Hoje dizemos ‘Longa vida a Al-Assad da Síria’”. Foi também o grupo que, ao lado dos EUA, mais pressionou para a interdição de Kadhafi em 2011.

Ligações árabes

Depois da guerra de 2006, a popularidade do Hezbollah aumentou muito entre os árabes. O que tornou ainda mais difícil a posição de vários governos árabes. A resposta destes, comandada pelas monarquias autocráticas reacionárias do Conselho de Cooperação do Golfo, foi conseguir que a Liga Árabe declarasse o Hezbollah “Grupo Terrorista”.

A triste verdade é que as monarquias ditatoriais de Arábia Saudita, Qatar e Bahrain essencialmente controlaram a Liga Árabe, por causa do dinheiro e do poder que têm. Um controlo que não impede as lutas entre si, como acontece na atualidade entre Qatar e Arábia Saudita, que têm relações muito tensas e com tendência a piorar. A Liga Árabe, recorde-se, recebeu com entusiasmo a guerra no Iraque, apoiou a agressão saudita contra o Iémen e, em 2013 apoiou mesmo a decisão dos EUA de bombardearem a Síria, assim como, antes, havia apoiado a decisão dos EUA de bombardearem a Líbia.

A Rússia nunca parou de apoiar o exército sírio com tudo o que fosse necessário para realizar a missão de combate ao terrorismo; depois passou a enviar a Força Aeroespacial para participar no combate diretamente, sacrificando vidas na terra síria”

Disse agora o Presidente Sírio.

Comentadores russos afirmam que a Rússia precisa de testar no terreno a sua Força Aeroespacial. Foram quase 2600 bombardeamentos dessa força nos últimos tempos. Na Síria. Um bom exercício de fogo num laboratório amplo.

Líbia e Síria. Por favor, apresse-se

Confronte o que escrevemos, por exemplo em Síria, Hezbollah e o Eixo da Resistência e até na wikipédia, em todos os sítios disponíveis, onde os detalhes sobre o que se passou  e passa no médio oriente ainda estão disponíveis. Mas, por favor, apresse-se. Há sítios na Internet, provavelmente os mais próximos da verdade, que são simplesmente suspensos. E, por favor, tente perceber quem lhe mente. Nem tudo o que se lê é o que se vê. Nem tudo o que se vê se chega a ler. A vida é sempre mais intensa.

Por opção do autor, este artigo respeita o AO90

Receba a nossa newsletter

Contorne o cinzentismo dominante subscrevendo a nossa Newsletter. Oferecemos-lhe ângulos de visão e análise que não encontrará disponíveis na imprensa mainstream.

- Publicidade -

Outros artigos

- Publicidade -

Últimas notícias

Mais lidos

Caminhar

Boa pergunta

VER…

- Publicidade -