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João de Sousa

Sábado, Outubro 23, 2021

Uma vida

Maria do Céu Pires
Doutorada em Filosofia. Professora.

Sábado de manhã, Praça da República, em Portalegre cidade, ali, junto à Casa de José Régio, uma leve brisa outonal sacode as folhas em tonalidades de verdes e castanhos, deixando a respiração seguir, com enlevo, o voar rasteiro dos pombos. Nesta praça aprendi a primeira lição de política, há mais de 40 anos.

mariaceupiresEm Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De montes e de oliveiras
Do vento soão queimada,
(Lá vem o vento soão!)
Que enche o sono de pavores,
Faz febre, esfarela os ossos,
Dói nos peitos sufocados,
E atira aos desesperados
A corda com que se enforcam
Na trave de algum desvão…)

José Régio

 

Sábado de manhã, Praça da República, em Portalegre cidade, ali, junto à Casa de José Régio, uma leve brisa outonal sacode as folhas em tonalidades de verdes e castanhos, deixando a respiração seguir, com enlevo, o voar rasteiro dos pombos. Nesta praça aprendi a primeira lição de política, há mais de 40 anos. Sempre que aqui volto ligo passado e futuro, sinto como muito clara uma linha de continuidade na vida. Aqui, experimento o sentido e sou capaz de reflectir sobre ele. Desde esse tempo, a constante interrogação: a vida vale a pena ser vivida?

Uma vida humana (todas as vidas) é preciosa e não tem preço. Aprendi com Kant que a única coisa no mundo que é fim em si, que tem dignidade e não tem preço é a pessoa; aprendi com Aristóteles que o fim a que todos os humanos aspiram é a vida boa. Por isso, lutamos cada dia, cada hora, para a preservar e para a tornar melhor. É essa a aspiração de todo o ser vivo: desenvolver as suas potencialidades, realizar-se de modo autêntico.

Pastel.sem.titulo; 2005Contudo, algumas pessoas decidem pôr fim a essa continuidade de respiração e de esperança que é a vida. A justificação não é simples… Como explicar que, em dado momento, para uma dada pessoa, a vida tenha perdido o sentido e não se encontre nenhuma vereda por onde orientar os passos? Como explicar que o sofrimento e a dor possam ser tão fortes a ponto de se tornarem insuportáveis e de se sobreporem a todas as hipóteses de comunicação? O que leva alguém a esse beco de “nada vale a pena”? Como pode a morte ser entendida como consolo, tão forte, capaz de se sobrepor ao instinto de conservação presente em todos os animais? Sabendo-nos seres para a morte, o que leva ao desejo da sua antecipação?

Aspectos de ordem biológica e/ou psicopatológica como por exemplo, as situações depressivas, não podem ser esquecidos. Para além de outros aspectos pessoais como a personalidade e, portanto, o modo como cada um/a lida com as frustrações, a tensão, o sofrimento e outros factores de risco, também não devem ser ignorados os aspectos demográficos, económicos e sociais. É conhecido o aumento da venda de anti-depressivos (23 mil caixas por dia, em Portugal, em 2015). Relativamente à Europa calcula-se que 20 milhões de europeus sofrem de depressão e 60 mil morrem anualmente por suicídio. No que diz respeito a Portugal, duas questões se impõem: por que razão Portugal é o país com maior índice de suicídios? Por que razão o Alentejo é a região com maior taxa de suicídios no país?

Acontece que, paralelamente a uma crescente desumanização das sociedades (que estão, elas próprias doentes) se verifica uma gradual perda de sentido, um profundo vazio existencial. E, assim, a interrogação existencial mais íntima e radical torna-se, igualmente, uma questão de saúde pública e, portanto de políticas públicas. Veja-se a este propósito os resultados do estudo realizado por investigadores da universidade de Zurique (Carlos Nordt) e divulgados no passado mês de Março.

O aumento do desemprego e as situações desesperantes daí decorrentes, o aumento das migrações (sobretudo jovem e qualificada), a falta de perspectivas de futuro, as condições de trabalho escravo, a pobreza e a solidão a ela associada, o despovoamento das regiões do interior contribuem, a meu ver, para o potenciar de situações onde pôr termo à vida aparece como única saída. Este quadro negro de um país em derrocada é particularmente doloroso no Alentejo. O silêncio imenso da planície ou da serra, uma experiência secular de injustiça e de revolta, um profundo sentir da autonomia em relação aos deuses e aos senhores da terra, o vento soão, o tal que enche o sono de pavores conjugam-se com a actual situação económica e social numa simbiose perturbadora e inquietante.~

Subo a Rua do Comércio que é, agora, lugar de tristeza e de vazio. Entro no Alentejano, outrora espaço de animadas tertúlias, agora também entregue à solidão que corrói Portalegre cidade.

Sorrio. Mesmo com o vento soão a esfarelar os ossos e a sufocar a respiração, temos que continuar a imaginar Sísifo feliz.

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