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João de Sousa

Domingo, Agosto 14, 2022

Ao Fundo Pitangas

Vítor Burity da Silva, Angola
Vítor Burity da Silva, Angola
Ph.D em Filosofia das Ciências Políticas. Pós Doutorado em (Educação e Psicologia). Doutor Honorário em Literatura e Filosofia. Professor Honorário de Filosofia da Educação. Professor Catedrático. Investigador da Universidade de Évora. Membro da Sociedade Portuguesa de Filosofia. Membro da Associação Portuguesa de Escritores. Escritor.

Certo escuro. Repentino. Intencionalmente me envolvo nestas penumbras ocasionais. Neste marasmo nocturno de peles secas.

25

Acordei. De frente, atenuadamente acordado, parecia o vidro incandescente sobre as águas, reflectia o sol imaginado da noite, sobre o olhar espantado do despertar surpreso, ouvia o eco ruidoso das águas, sobre o meu rosto, que parecia não existir, estando ali, do outro lado do tempo, vendo a outra margem do sonho, sem reflexos e apenas a insónia, viva nos lençóis adocicados do chuvisco raro, mas presente. Descendo, cobria lentamente e cada vez mais desaparecia a medida que o sol se recolhia, sob as árvores, menos chovia, creio, menos existia a gota anónima que se recolhia no meu peito enxuto, te certo momento, não mais continuou enxuto, colhia a gota rara do céu que me entrava lenta e feroz, como quem foge do fogo, ou se era em mim que procurava um lar seco, eu ali, seguindo talvez e continuando, sentia sim, algo entrando-me, pela orla aberta da camisa de Verão numa tarde fria, a lágrima dizimante do longínquo azul parou diante mim, diante o que não via, senti como me entrou peito a dentro, recebida como uma coisa estranha, recolhi sim, claro, sem sequer a ter aceitado, claramente.

Como serias o outro eu nesta mesma mão? Aprecio a tua ausência. A indiferença das minhas palavras é quase comum. Ah… aqui sentimos amar-nos o mar, sentimos fugir de nós o que já nem sequer lembramos. Senta-te na montanha de sol aqui pintada pelo tempo, pelo ausente e do silêncio, vens rigorosamente de mim, onde posas quem somos, quem somos?

Vem.

Quando beber do teu sonho a calmaria será nocturna. Taciturna. Orquídeas vagas entre os crepúsculos do raro silêncio dos beijos, acoplados na alma, guardados no tempo solto da manhã, na ribeira antiga da cidade, ou o fumegar da chaminé ausente do teu olhar, que coloco nestas resmas brancas de que te sugo tertúlias galopantes e viciantes apenas, enquanto puder durar, a noite das tuas preces. Nossas presentes falésias e de ti, tuas ânsias inconstantes e rumantes caminhadas com passos invisíveis, descalçando a fantasia destas nuvens que me adornam pelo teu corpo, quando te despes simplesmente contra os meus lábios.

Preciso-te autêntica. Diferente de ti talvez. Como tu quiseres que te invente. Que me construa repentinamente às mesmas horas em que precises dos beijos enferrujados da lua escondida da chuva. Jardinar-me como quiseres no teu corpo. Como sentires fluir o sonho sonhando lentamente, as carnes da madrugada que se solta em tons de fado, nesta atribulada esquina do teu abrigo. Faço contigo o mesmo destino que houve um dia. A nossa arma içada ao desejo. Ao esplendor. Ao despertar de novos horizontes como gaivotas soltas na distância, mergulho a tua alma, a tua azáfama, a tua casta pele salgada quando já vens quente do banho, e me embelezas com sorrisos, com versos também, vens sempre mesmo seca. Mesmo áspera. Mesmo transformada em mim quando não podes chegar, deixas-me no teu recado ansiado.

É como sou. Entrando ostensivamente e arrombando conscientemente, as muralhas invisíveis do teu corpo que dormem sempre e repetidamente as invento. Que existam ou não as contrastantes aparências inventadas certamente, como sou. Qualquer dia estarei com toda a certeza, onde melhor me esconder das minhas ânsias. Indecifráveis gestos e absolutamente contornados os escuros da tua ausência, cantas entretanto vagamente e partes, sais da rua e segues, destinos incomuns dum mundo disfarçado, inventado, criado aqui para sentir como se fosse de facto vida, esta imagem que sinto tua na minha pele. Indecifrável?

Gravitam. Gravitem. Entretanto, divertem-se castrando tempo, limpando da alma espaços que a morte evite, penteando recursos morando a espaços, entre a falência anunciada do fim, o fim de coisas remanescidas no diálogo do vazio, levitando entre existir e continuar, como caspa de funerais anunciados, num fim de ciclo e de contos, por inventar a cada dia de ruas por onde desfilem teus decotes de pura fantasia.

Ficaram entre as unhas. As purgas sacadas da pele. Rasgadas como horas de beijos lacrados entretanto, dedos como sinal e setas marcarem cantos, leveza subtil também, parecem ir no contar suculento das histórias que insinuem madrugadas, abrindo o olhar a distâncias que nos levem num sonho sonhando-nos, ficarem enfim, restos que se abrem devagar distribuindo os odores finais por cada espaço amuado, cada dor secando assim, à janela da vida esperando o trem do fim.

Certo escuro. Repentino. Intencionalmente me envolvo nestas penumbras ocasionais. Neste marasmo nocturno de peles secas. Neste esconderijo vulgar. Recanto meu, entre diversas ruas movimentadas. Num local sem bares nem fantasias. Sem janelas, o vento cúmplice anuncia-se, reclama o encerramento da sua antiga via. Do seu quarto de passagem pelos cantos do mundo enfurecido pela sua agora ausência. Encerrei-lhe a vontade. Como que se os gritos me comprassem numa tentativa só, paz completa. Não encontro neste mar o teu apelo.

Faz falta não haver falta, o compêndio do erro, a enciclopédia do medo, o vocabulário do vulgar, num ritmo insano, a vida deflagra-se sem orientação como uma nave sem bússola… faz-se tarde adiar o sonho. Empolgar-se ante a maresia do funesto, os riachos mórbidos do tempo que cavalgam distraidamente as margens do encanto, levando-se a si próprios como correntes do vento, saciando com brevidade a incoerência da própria existência, molhando suavemente os pés num sonho que se inventa. Cedo será assumir como destino, o inevitável aprumo do fim deambulando verdades esmeradas, ousando nesta mesa de café a partida de uma vida realizável, digitados num firmamento os sepulcros acres do silêncio. Com o que se queiram os momentos, repteis sossegos escravizam o descontentamento, os labirintos do tempo ou que se ingira sob verdades ocultas partes de espólio da vida consagrando-se quase que aleatoriamente, quando ou como seguir e por onde, se enclausuravam os dogmas da realidade riscadas na breve e solta folha da existência, com salpicos de uma noite vandalizada Ou como doer-me a cabeça. Ou como perder em mim o sentido inócuo de uma qualquer dor que me assuma e oriente, ou doar-me nefasto contra certezas dum tempo invernal largando nas hortas da noite as incertezas por cada passo recriado lentamente. Os pensamentos, cremos como e neles apostamos, divina crença conspurcando as essências da inevitável existência nestes preâmbulos cépticos, com a certeza alheada jogando-se rendida a um canto do mar dos nossos sonhos. A cidade dorme, e conforta-se como qualquer coisa dum absoluto findar, as luas ásperas da falência física dos meus sagrados marasmos que me levam ao interior dos meus íntimos mundos, afundando-se confortáveis e rendidos aos propósitos conseguidos, girando sobre a estrada desfeita da noite. Pelo menos por quanto tempo valerem, se assumam ou que se rendam, serem destes serões os momentos entregues como a ceia da vida junta, corporizadas ausências de mentes presentes sempre, elevando-se em cada um de si, o que restar da vontade ou do que se consiga rentabilizar na consciência, fugindo como se conseguir da morte que alimentara o futuro.

Furos permanentes e todos os caminhos sempre raros, porque inventados constantemente e a cada instante novos pecúlios na orla antiga do ter que confortar-me comigo, diante mim mesmo num olhar ofuscando a falésia das nossas vidas, nas mãos furtivas do presente. Caminhar por aí que me resolve? Mas não será por isso apenas este camuflado rastejar pelas falésias velhas, pelas raras verdades, ocultadas vaidades, ou mesmo pelo que nunca poderão representar as minhas efusivas confidencias com estas maresias quase minhas só. Entregues a liberdade do espaço que nos envolve, que nos ladeia, que nos comunica com a sensibilidade do vento as vibrações que na alma repousam, seguindo como sempre e sempre verdadeiramente a sul, dos horizontes nómadas das manhãs, que nos encaminham por eternas noites ate que repetitivamente nos iremos consular num leito qualquer, quase sempre um qualquer, mesmo que seja sempre o de todos os dias, diferentemente do estado em que nos entregamos a esse momento, individualizando-o por dentro, como sonho dum sempre encontrado. Como será ser cedo ou indiferentemente ser tarde. Que importarão esses conceitos numa vulgar necessidade apenas, que se decorram livremente as inconstâncias e saibamos com elas lidar e caminhar, sendo elas o folgo dos instantes mais comuns, de mortais prisioneiros de nós mesmos, falíveis, sabes? Acreditas? Que importa ainda assim duvidares dessa falibilidade, desse incontornável destino dos paraísos que cada um de nós será certamente? Será sempre cedo. Ou sempre tarde. Que importa?

Mas quando este ignorante silêncio me invade a pele, quando a pele cede, segue os rios do tempo que invadem o vagar distraído da pele, a distância, sem amargura, sem azedume, Cipriano rico e seco, debaixo das pedras da vontade, sem vontade, sem obrigação, sem revolta e distraído que importa, que importará ser resquícios de si próprio se da sua consciência a morte ali sempre desperte e instrua quanto aos valores que sinceramente, valem apenas o que valerem e isso será tudo ou nada, mas será sempre e garantidamente uma ignorância que não se larga nem da qual fugimos, nem que lá estejamos, nunca sabemos, nunca, nada saberemos se por ventura formos, onde não importa. As pedras nunca se esquecerão.

Quase sempre repito lugares antigos, onde a passagem por eles me transporte com a vida ali dissecada, enterrar e desenterrar silêncios, mesmo que conspurcados ainda, ou adormecidos para sempre, arrumar em cada canto do tempo o que parecer nunca ter existido, como existências que parecem nunca sentidas, obrigatoriamente vividas, num silêncio violento, ferindo os calcanhares da vida por cada olhar regalando-se num mórbido passado, ou atónito presente deslizando sobre mim a brisa varredora das planícies adormecidas num futuro que se espalha pela cidade, dos nossos momentos, que parecem não ter existido, nunca terem sido sentidos, nunca deixarem que a pele os recorde, que as gramas de terra adormeçam sobre anterior verdade, neste contexto nulo do presente, vadiando as gralhas do infortúnio neste mar azul e infinito, que me leve bem longe tudo o que seja recordar de mim, aquilo que te fora no futuro, sem o assedio errado do amor que te oferecera, quando ainda querias partilhá-lo nestas ausências de nos, perante águas antigas e viagens secretas dos fundos escuros dos rios, Em que janela soaram as badaladas dos nossos beijos? Sentada ainda, vejo-te provavelmente na mesma e no mesmo lugar onde pela última vez nós, encrostados, no âmago de cada um.


Como aperitivo à deliciosa prosa de Vítor Burity da Silva, apresentamos novo capítulo do livro Ao Fundo Pitangas

 

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