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Quinta-feira, Maio 26, 2022

Ao Fundo Pitangas

Vítor Burity da Silva, Angola
Vítor Burity da Silva, Angola
Ph.D em Filosofia das Ciências Políticas. Pós Doutorado em (Educação e Psicologia). Doutor Honorário em Literatura e Filosofia. Professor Honorário de Filosofia da Educação. Professor Catedrático. Investigador da Universidade de Évora. Membro da Sociedade Portuguesa de Filosofia. Membro da Associação Portuguesa de Escritores. Escritor.

Ao que me pedes e largas, todas as manhãs, todos os dias, ao que por que mim dizes sentir e calas, quando te pergunto quem sou, a resposta que evitas quando te peço que me beijes

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Existes garantidamente da mesma forma como se nada existisse. Os teus lábios deitarem-se sobre a minha madrugada com uma realidade de todo imaginada como a minha própria existência diante todo este impróprio desejo de ti, numa não possível evidencia, que possa desejar-te então porque precise.

Obtusa e permanente e prematura constância, este mero devaneio de lágrimas espoliadas incessantemente, como rasgos vindos do nada desfrutando este doce luar, sugar da tua alma com uma vontade imensa e evadir-se, sem que antes faça repercutir no teu rosado feitio de breu, a presença incessante da tua alma acendendo-se, rodopiando por completo um silêncio quase possível desse teu sangue madrugador excomungando-me desse extra-mundo fértil, as muralhas do infinito.

E que maravilhas demais existentes, até porque o contrário delas obrigaria, seria uma sequência inexplicável de sorrisos que a saudade obrigaria a ignorar, escrevendo e descrevendo num rol meticuloso que apenas existe em determinadas estrelas da alma, num contrário nunca sério, nunca fiel ou fácil, continuando frágil, até onde os corações possam ou consigam tocar, dilacerando dedadas marítimas estas gotas de sal e continuadas salivas sorvendo-me distraidamente o silêncio, içando incessantes distâncias de noite num berço dorido, este lento seguir de mim onde te veja, o impossível cerrar do tempo das minhas ideias, cercando-as de morte contra a vontade do destino, vastos objectos de nada. A vida é a primeira prioridade.

Ou reminiscências da cidade por cada pensamento, momentos em que a ingira circunstancialmente, percorrendo sem enredos, o segredo da vontade, como se por ventura querer sorrir fosse alimento, ou que seja mesmo, das horas tépidas, água salvando a sede, do mergulho psicológico sobre a tua face… de belos e rosados beijos.

Não sei nem consigo, onde queres que esteja não estarei, não consigo chegar sem que me remes com os teus braços, não conseguirei incorporar nos teus gestos o leque veludoso da tua voz, nas tuas mãos, não sei constituir os teus desejos nem a vontade que alimentes, não sei, mesmo que tente fragilizar a minha verdade, a minha essência, não sei, mesmo que viole os meus princípios, faça guerra contra as minhas limitações, não sei, onde conseguir inventar passos que me devassem e arruínem, até que me despreze e me entregue aos teus deliciosos beijos, não consigo percorrer os vazios da minha alma e alimentar-me como se tua vida fosse, beber de ti e alimentar-me de sonhos teus, não consigo, não, mesmo tentando, perco, perco-me nos escombros do meu silêncio e na minha incapacidade de decidir-me, se vou até ti ou se me deixe por cá, entregue aos instantes que me façam escutar-me, aos sonhos que tivera sobre ti, aos momentos porque ainda em ti vivi, vi, senti, mais não sei, nem consigo, nem forças mais tenho, fico-me nas ostras do meu tempo e nas limitações do meu desejo, porque chegar aí, onde estás, me é impossibilitado pelas tuas próprias inconstâncias e passos, que se deslocam, cada vez mais, aos glossários oriundos de ti mesma, que se distam da vida que subestimas, e vives, num rol próprio dos teus ideais, que ultrapassem ou não o que tu mesma saberás entender.

Ao que me pedes e largas, todas as manhãs, todos os dias, ao que por que mim dizes sentir e calas, quando te pergunto quem sou, a resposta que evitas quando te peço que me beijes, quando finges não entender que existo, ou que sabes ser verdade estar aqui, entre mim e ti, o soluço axadrezado dos nossos sonhos engendrados por momentos que em tempos, verdadeiros e mais calorosos, nos protegeram instantes e breves segundos, se dissipam sei, mas nunca se perderão garanto, sou mais que aquele inventado cruzar de intenções, ou de palavras atiradas ao corpo um do outro, parecendo um acaso da circunstancia, porque nos queríamos apenas ali e nunca para sempre, fugindo depois da verdade porque mais do que isso, nada seria interessante, nada valeria constituir e nada mesmo valeria construir, por isso, te digo simplesmente porque nada mais mesmo sei.

Se pensar chegar, pensarei, ou se menos até for suficiente, fá-lo, mas não me peças mais que vontades que não conseguirei nunca, não porque não queira, não porque não tenha vontade, mas sim porque como entendes não sou capaz, sou limitado até aí, não conseguirei chegar, nem que lances ventos a empurrem-me até ti, onde estás e nada dizes, a não ser o que apelas quando o teu coração sente solidão e sonha com outro, que seja o meu, reclamas devagar e gritas contra as paredes o vazio do teu tempo que a vida resolvida assim, por ti, tenha culminado num mar maior onde se torne impossível os nosso dedos tocarem-se.

Não sei, sei apenas que não consigo e assim não sigo, onde moras com a tua voz e não comigo, os beijos serão teus e não meus.

Valadares intermitente, não. Presença inconstitucional, não. Resquício? Vontade? Ou a vida de dentro do que na certeza é, de facto, telúrico, emblema ou catarata da ria, riacho, estrada? Lúcia, sabes certamente que me vertes, inebrias, eu sei que sabes que a estrada que me arroja às tuas portas, é principio dum sonho que a arte recria, como a escultura da tua vida, sabes que sei, e do que vi, não mais inventarei, és beleza divina nas ruas de Deus, dos teus lábios, que me rogam, ou memória, o telefone amorfo foi verdade, estive lá, como o viajante dos sonhos que se inventam no amor, na pele das cidades que cantam noites de ópera, inventei a serenata e só a ti, não vi… chove copiosamente, as estradas de lado a lado, repletas como vento entre o som da água, melodia, silêncio, como harpas do piano enchendo sob o escuro, e eu, plantado numa cadeira de café bebendo o tempo, de olhares que quase rasgam a saudade. Valadares.

E a serpente aflorava, como um longe esquecia a vida de flor, as pétalas badalavam qualquer sorriso, eu ouvia, que por cada canto, chovia e sentia, como emerges do fundo da sala que a vida escondia, e parecendo um hino a água fluía, subia a serra e eu a adorá-lo, sobre mim a sombra da noite, descerra o desnorte da ânsia, encobre a flatulência e enche de sonho o caminho, ela dorme já certamente, virada suavemente como recordo ainda como ela gosta, virada para o lado esquerdo do silêncio, de costas para o douro até que sinta suave, enquanto flui sem cessar, os sorrisos que sempre envia antes do ultimo suspiro, que surge sempre, antes do adormecer.

Cessam as horas, cessa a chuva, cessará depois esse sono, calmo, estas estrelas que me acompanham na viagem.

Quando às vezes penso como é ser silêncio, numa cidade a norte dos tempos, como é inventar um caminho, ou porque as mãos sintam a falta do teu carinho, mãos que lavas num rio pequenino e cheio de água, que vaga saudade do que nem sequer senti ainda, mas como te penso, cheios de lágrimas, sonharemos percursos percorridos, neste lugar, tão perto do mar como quisermos imaginar.

Inevitáveis, sabes? Se a compararia com o mar? Nasço todos os dias, é possível, sim, porque acordar signifique um despertar, sensações renascidas, um lugar qualquer, uma viagem acoplada, reaquecida, a fotografia sentir-se na almofada dos sonhos e depois de tocar nela, sentir a mão que dela nasceu, a mesma foto, repetida que importa, a diferença é o lugar, das tuas viagens permanentes, interiores ou intemporais, dos sonhos naturais que fazes com que a vida renasça, neste berço anfíbio de letras escondidas num papel amarrotado, que amordaça a vontade de vertigens, ou precinta novamente o meu nascimento neste lugar onde nem sequer a minha mãe vez alguma esteve, e breve foi, isso sim, o amor que aqui mantive até estar vivo…

– Aqui?

– Naturalmente…

– Verdade, quem discute isso?

– Quem sabe?

– A distância, sabes? A verdade, entendes?

– Vou sabendo…

– Que esperas?

– Nada. Escuto, quem vier, diga, às vezes ser um bom… interlocutor dos momentos, renasçamos…

– Nem parece Lúcia, nem recordo Lúcia, quanto tempo…

– Conversamos, à sombra da vontade… sob o silêncio deste palpitante instante… invertendo o tempo… parece, sinceramente, termos nós capacidade para furar da vida certas iras e aqui, náufragos da razão… falar da noite… da vontade… que mais?

– Constrangidos percursos… estes os caminhos… viagens irreais onde se está dum e doutro lado, quase no mesmo instante… nem da voz se perde o que quer que seja… É como se estar na paragem, esperando o arranque, ou o regresso, a sequência deste ritmo bifurcado, onde sempre estou, que esteja…

– Ah… sim… mas não entendi, Lúcia…

– Deixa estar, não te incomodes…

– Claro, não vou mesmo incomodar-me, pretendo que fiques descansado…

– Já estou… ah… coisas atiradas ao vago, deixa-te disso…

– De que forma realmente te perturbo…

– É o que sentes?

– Talvez… sabes, que leve sensação, olhando-te, translúcido, a impressão de que na realidade isto é uma passagem, sabes? O cumprimento da existência, recalcando a cada passo, o fruto vida, há sempre marcas que ficam, mesmo quando está já terminado o percurso de cada um de nós…

– Na verdade consegues…

– Que consigo?

– De que falas?

– Creio que o que mais conseguimos é interrogarmo-nos sucessivamente…

– É prelúdio das certezas…

– Ou o contrário?

– Por este andar, ainda concluo que nada…

– Como estás absorta e indiferente Lúcia…

– Estou aqui… olhando quanta maravilha, aqui, desventrando da tua alma os resquícios de tudo que de ti perco, e busco, ou quero, como se na realidade, tudo fosse de facto o que me fazes sentir, esse telúrico e frio silêncio, embora tanto fales, tanto dizes, enches a maresia do meu destino com risos e lágrimas, ainda assim, busco de ti mais que a presença, distância, restos de sonhos e maravilhas alicerçadas em tudo que de facto terá sido construído, continuação da viagem, embebida de tudo que sejas sempre, mar de todas as viagens, recado calado, como quando me pestanejas, pareces sorrir, pareces querer permanecer assim, numa distância metafísica e real, a tua carne entranhada nestas esferas de pedra que piso diariamente, vendo quando não estás, mesmo que seja quando partes, somos mar, acredita…

– Fria a tua mão, silêncio sim, mas tu, como este rio escondido por entre as pálpebras, os soluços vagos quando gesticulas, as harpas coladas ao caminho e nós, que nem seguimos, sei, ou paramos nunca, sei, aceleramos sem propósito e com marcas ofuscando o relento que nos aflora a essência, num relento coberto e quatro paredes sobre nós, aninha-nos à secreta dispersão… vem Lúcia!

– Rejeito com prazer o teu pedido… não vou.

– Sobrevoar a noite, este relento inventado…

– A pele vagabunda…

– Elástica, rasgando o fundo dos sonhos…

– Do rosto.

– De ti.

– Somos nós.

– Ah… esse resto pálido, essa crosta aguçando tudo o que for parede nesta cidade que não existe…

– E nós, existimos… ai como existimos…

– Às vezes, às vezes é mesmo assim, nem sempre isso acontece, é como quando pensamos lá estar, e o nosso pensamento nos invade, deixa lá isso…

A madrugada surge como o resquício de mais uma viagem. Deambulando secretos abismos, ouve-se como o vento acompanha cada passo, aligeirando a vontade, sem que os prenúncios me sigam, alvitram-se desejos, rompantes instantes acoplam-se num silêncio desejado, ou que seja requisitar de ti mais um instante, que me possa valer na companhia de mais uma ausência.


Como aperitivo à deliciosa prosa de Vítor Burity da Silva, apresentamos novo capítulo do livro Ao Fundo Pitangas

 

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