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Segunda-feira, Setembro 27, 2021

Ao Fundo Pitangas

Vítor Burity da Silva, Angola
Ph.D em Filosofia das Ciências Políticas. Doutor Honorário em Literatura e Filosofia. Professor Honorário de Filosofia da Educação. Professor Universitário. Investigador. Escritor.

Nas ruas, magotes de raros passos, de tudo e todos, ali seguindo todos os vãos, e nada vãos, todos os momentos como quem inventara também, sentia como eu as mãos dele

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Na tenda anterior a estes dias, num provável Agosto antigo, num presumível lugar hoje não existente provavelmente, acoplados os nossos cheiros e quem sabe lá ainda, restam garantidamente os resquícios ainda das lágrimas, na areia preta da noite, barafundas mesmo e que seja, que mais conseguir de lá sacar desse antigo e passado perdido, ou encontrado nos instantes das inconstâncias e memórias do sono, encontrarei certamente em instantes como esse o pensamento que me faça revive-lo mesmo que por momentos, transformá-los em actualidade que me alimente de almas e desejos, quando ainda eu era, rebolávamos escondidos aquele esquecido instante roubado entretanto por alguma coisa que trouxeras na manga, ou escondido o meu exacto projecto de vida aqui, hoje, antes de mim antes, anterior a mim eu, um outro provável eu, ou se era quem sabe, um semelhante barqueiro enfeitado nas embarcações de Inocêncio, que fui ou serei agora, vestido na tua pele ou na alma, quando me beijas agora e sentes ser, se me pensas outra coisa, que importa então? Não mais virás, garanto. Enquanto me imaginavas vago e vazio contavas a história da tua vida. Nem mais verás, tenho a certeza. Sonhas ainda? Ah, não.

A casa fechada entre as mãos curadas. Cerradas pareciam destino de ferias, de contos e reverendos sem mais que pele ali, antes da saída de nos dois, onde nunca estivéramos, sei, juntos, ou num dia qualquer pudéssemos captar como mensagem emergente de urgência, de pedidos colados num postal ouvir a voz partir de dentro da noite os corpos, sequiosos e quase se inventavam, num horizonte díspar, quem sabe se podias, nunca havias tido, nunca pressenti nada mais que esse tão simples ou oculto ou raro e belo ao mesmo tempo, Assim podias consumar a casa de janelas fechadas e cantar ate mim. Se fosse assim tão fácil, que pedi então mais que isso?

Nas ruas, magotes de raros passos, de tudo e todos, ali seguindo todos os vãos, e nada vãos, todos os momentos como quem inventara também, sentia como eu as mãos dele, dadas aos outros e ninguém consigo, nenhum em si, vazios os espelhos encontram as pedras que saltam e se soltam das calçadas mal coladas, Inocêncio queria entrar, fazer parte da casa, abrir e fechar diariamente portas também, ver crescerem os filhos que a mãe deixara em casa, de plumas e calções rasgados junto aos bolsos, ou inocentes também como um pai que ele foi antes da vida mudar os rumos descalços de quem esqueceu de si mesmo os laços dum lar que a vida morta ali deixou. Antes foi marinheiro. Viúvo, vive em qualquer parte da rua. Que importa de facto, se haver ou não lar a melancolia renasce a cada instante? Por isso há sempre em tom alto em cada passo uma voz, Inocêncio ensina-nos como navegar.

Pelos cinco dedos talvez, como esculpidos e falsos, onde apontam o vazio dos tempos que te foras sem tocar a ordem dos que aqui ainda esperam sinais para nada, inventemos como, que sejam talvez e raras sequências num portal antigo, antigo o areal dos amores descarnados na fantasia abrupta da circunstância, incisiva e inconstante, Se fossem prostitutas estariam as ruas sem frio… há sempre como iluminá-las, sempre como eliminá-los, tanto faz se quiseres ao menos a minha inexistência.

Vazias as ruas ainda, enfim, vazias como sempre, enfim, onde ritmos triviais a preenchem, mesmo vazias, ou repletas, cíclicas e rotineiras incursões, nas mãos de Lúcia, o rosto que se busca e busco, como maresia, como heresia, como dispersão? Se ao menos se confunde com depressão. Se ao menos se buscasse outra solução. Entrar pelos fundos desta mórbida distância, pisar paulatinamente e talvez atenção também, os corredores longos desta casa escondida sempre, deste marasmo onde os meus braços haviam em tempos estado, libertos do resto do corpo que nunca os acompanhou nesta viagem, levando sempre em atenção os conselhos do amigo memorizado, Inocêncio sempre me dizia que nunca devia entrar por esta habitação antiga e quem sabe mal ocupada, preenchida de recordações esquecidas na lenta dispersão dos tempos, ou pretendíamos morrer antes ainda do amanhecer. Mesmo antes de Lucas ainda, ou que não tivesse ainda surgido na memória dos meus passos escamoteados pelas inconstâncias e encobrimentos vorazes da natureza substancial dos meus instintos ou desejos, sempre que me soube apelando-te, sempre senti com que indiferença os ressaltos da tua ausência se infiltravam devagar os desejos de emancipação, fazendo de mim um outro qualquer sem significante importância.

Como se imaginariamente me pendurasse nas asas dum corvo e fosse deste sempre alguém que visse das alturas a natureza desmembrar-se, a natureza as vezes desfeita como um sonho pintado sobre a areia de tantos mares, efeitos de mal feitor, atirasse sobre as casas preenchidas e coloridas feios efeitos e contornos que enervassem a minha vista, ser uma chuva de ácidos grossos e perfurantes, derramando-se sobre as casas desta triste cidadela numa falsa ilusão, desfazendo-me contra os muros do tempo num grito de desespero, até que eu próprio me ouvisse e solucionasse de forma ágil tremenda dor. Os meus miolos esbarrados contra a natureza do meu sonho. Às vezes, com calças de outros e mesmo as de Inocêncio, num mínimo gesto como que apelando uma calma peculiar só nele. Aprenderia a voar, acredito.

Pensar no presente é não ter saudades. Esquecer. Se ao menos houver na mente algo existente, que recorde que futuro nos traga recônditos passos e um mar onde consiga navegar, aquele, o de sempre, que foi já passado, que seja também no futuro a mesma água que me molhou sempre, onde naveguei quando ainda em Inocêncio, o marinheiro, que nunca usou farda por nunca ter sido militar, mas marinheiro solteiro e déspota com todos os vagares, saudades sim, essa tenho eu, essa que me trás as inconstâncias residuais nos meus escombros de quando ainda as mãos de Lúcia se passeavam nuas e cruas as artérias da nossa vida, e desta casa os compartimentos da minha solidão agora, ele surgiu vagarosamente trazendo quem nunca fui. Não terei dor mais, que seja, se conseguir assim viver, que viva então, que queira então suplantar os piores momentos de todos os estados e circunstâncias, e todos os passos e todas as pessoas, Maria rasgada na maresia de pescadores aqui, refastelados numa embriaguez vulgar.

Nas areias perdidas o tédio sente-se. O isolamento é doloroso e só o movimento das ondas deste mar salgado chega até eles. Os pés gretados e as mãos doridas. Garrafas vazias espalhadas por todos os lados, o lixo expressa-se como rosto de abandono. Que fim de dia tão amargo, amargo destino, silêncio, sim, já ninguém procura afecto, procura carinho, todos se refastelam saboreando apenas o que do mar vem, as ondas que irrompem areia acima e trazem a única frescura conseguida ali, num restante doloroso de vida, talvez perdida de vez. Tenho de me retirar daqui. Vou mesmo sair e seguir, evito voltar a verificar coisas como as que aqui estão. Aqui a vista apenas consegue ver o mar, até a vista não mais alcançar.

Procuro ainda a casa onde ninguém esteve ainda. Com ou sem campainha, que remédio terei, terei de bater os portões. Talvez a longa marcha me tenha ofuscado, talvez, digo-o com uma certa convicção, talvez, porque se há certeza de estar ou não junto ao portão, ou imagino essa sensação, o portão está longe ainda, verdade, será? Carrego e nada ouço. Sem campainha quase me apetece arrombá-lo, violá-lo com a intenção de me colocar pelo lado de dentro, nas mãos do acaso, será? A não ser que me engane mesmo, a não ser que Lúcia tenha já abandonado o que nunca se conseguiu combinar, acertar. Melhor assim, nunca me pareceu que as coisas previamente marcadas tivessem melhor resultado… ainda assim, insisto no inevitável… ter de esperar ate me fartar do nada. Ou do todo nulo deste peso anunciado.

Quase noite, sentia uma brisa nómada resvalar-me as ânsias, parecia ser do frio, pensei ser nada, chovia longe, na alma a dor cansada, nas ruas a confusão do tempo em tempo de crise, manifestação sobre desemprego, gritos sobre polícias descontentes. As águas, como sempre, com ou sem vento, sem ou com gente, as lágrimas, que importa em que rosto, que adianta por quem ou sobre quem, os latifúndios, as agrárias reminiscências, os incultos e apolíticos, os gritos vindos da alma, sinto sem que saiba a ânsia bater por dentro um apelo que vinha vago e de longe, Desculpe, haverá onde possa eu passar esta noite aqui perto? Cheguei neste instante e nem sequer alguém conheço… uma pensão, hotel talvez não, algo simples e de pouco custo.

Estranhei de repente este pressentimento, reagi sem me aperceber, sem reagir e agi dizendo, Quem és? Que cara tão estranhamente conhecida… que queres? Repete, Sou Marco e vim de longe, quero apenas passar esta noite em repouso, vim de longe, nada conheço por estes lados, preciso de uns momentos de repouso, falaremos outra altura, indique-me por favor onde poderei ao menos passar a noite.

Tentei ser útil. Indiquei mesmo não sabendo. A rua mostrava o lar à esquina, ou alguém além, seguiria o mesmo que havia eu tentado. Marco seguiu e ficou, quase garanto, num lar que pretendia. Maria vestiu a noite. Maria sorriu comigo. É noite de amor. As portas da vida cerradas embaciavam o meu mundo.

Continuei caminhando. Andava sempre por ali aquela hora, dispersando os sonhos e os amargos dos momentos que perdia. Procurava nesses momentos afastar-me e encontrar-me, algas díspares dos meus sonhos nos braços que perdia, a maresia alienava a distância dos meus sonhos, sentia presentes os meus desejos de mim, enquanto permanecias nas entranhas da minha, vadia, vaga, presente, camuflada e na realidade, buscando-te, quem sejas e prepares como eu em mim, um lado de nós, um no outro, enquanto distraidamente chegava de longe e era ali eu, que fosses também, o mesmo reflexo dos nossos âmbitos e movimentos… pareces-me bem Lúcia… enquanto o mar aqui, nesta Lisboa, percorro as margens desta brilhante saliência, As ondas triviais de onde me chegas branda e calma, pensando como seguir contigo, um interior de mim, as nossas mãos unem-se… sentes-me? Ou serei claustros de Maria? Ou serei sorrisos que se explanam distraidamente a falésia de beijos. Um navio atracará ruas e destinos do meu corpo, que navega as ruas do tempo, perdido num templo de sorrisos onde procuro sentir-me, onde sei ter-me perdido, onde estarei a hora que vieres? Não espero do mar o teu sorriso, não perpétuo na distância as portas do teu lar, eu enclausurado num destino de ruas interiores, da minha sagacidade psicológica, buscando quando me sentir cansado um conforto real, nestes bancos de vista para o mar.

Das tuas portas cerradas num antigamente presente num futuro que busco e deixei, ou quando a minha voz entrar as cálidas janelas semicerradas, ocupando este quase frio de tarde terminada, porque sentir ai o meu caminho, quando da busca o distante me ocupa e desfalece, quando não sei onde me quero e me perco, não, talvez queira mais confundirem, conturbar as essências do meu intrínseco tu, lendo um jornal antigo as noticias de quando chego e me apresento às tuas preces, vem Maria, vem.

Há que continuar. Onde largaremos o futuro e os espinhos do momento. Há ainda assim memórias. Como tantas. Detestá-las, a impiedade da terra que nos cobre quando indefesos e mortos já. Nem mesmo da mão que antigamente se colocavam sobre o meu, transmitindo-me o teu calor com uma simples frase, me demonstrasses aí com uma simples frase que não, que estava só. Vem olhar comigo as estrelas consteladas no infinito belo desta noite… se inventássemos um estar solene aqui?


Como aperitivo à deliciosa prosa de Vítor Burity da Silva, apresentamos novo capítulo do livro Ao Fundo Pitangas

 

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