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João de Sousa

Sexta-feira, Abril 19, 2024

O conteúdo determinará a forma

Nem sempre a cena política se desenrola conforme planejado. Fatores objetivos determinam mudanças no rumo dos acontecimentos, à revelia da vontade subjetiva dos eventuais principais atores. Karl Marx menciona isso no 18 Brumário de Luís Bonaparte. A deputada Luciana Santos, tem se referido ao elevado grau de imprevisibilidade na conjuntura política atual do Brasil.

O fato é que o roteiro traçado pelas forças que conduziram o impeachment da presidenta Dilma encontra enorme dificuldade de se concretizar. As entregas prometidas não estão sendo feitas e provavelmente não serão. Nem a estabilidade política, nem a retomada do crescimento econômico e muito menos a prometida “reunificação” da nação.

A votação do projeto de lei de iniciativa do Executivo que refaz a programação das dívidas dos estados para com a União, anteontem, na Câmara dos Deputados, pode ser um sinal emblemático. A derrota do governo chama a atenção. A aparentemente sólida base parlamentar de Temer — uma mescla do tucanato e seus aliados neoliberais mais próximos com o chamado “centrão” de natureza eminentemente fisiológica — tudo indica sofre fissuras.

Aqui e acolá surgem desavenças esplícitas entre o PSDB e o núcleo peemedebista que governa com Temer.

O “mercado” mostra-se impaciente. Seu menino de ouro, o ministro Meirelles, a todo instante é alvo de “solidariedade”. Ontem, na Rádio Jornal do Commercio do Recife, o ex-militante de esquerda senador Cristovam Buarque manifestou apreensão quanto à possibilidade da substituição do ministro da Fazenda. Para ele, caindo Meirelles a situação se complicaria mais ainda.

Enquanto isso, a insatisfação da população em relação ao governo se amplia rapidamente. As pesquisas mais recentes revelam isso.

Os números da Datafolha são contundentes: 58% o consideram Temer desonesto; 75% o vêem comprometido com os interesses dos ricos e apenas 7% o acham preocupado com os pobres. Para 63% ele deve renunciar já.

Na última rodada Vox Populi, a aprovação de Temer despenca para 8% e o situa como o pior presidente da História. A oposição manifesta-se em várias instâncias – no parlamento e nas ruas – ainda sem um norte comum, porém em intensidade crescente. Nesse cenário, 2017 deve se iniciar sob temperatura elevada.

Quem se alinhará com quem? A pergunta eu a escuto com frequência, de militantes e de muita gente via redes sociais. “Não podem ser os mesmos aliados que traíram Dilma”, dizem alguns.

Depende. Para que possamos avançar, quem sabe conquistando a realização de eleições diretas antes mesmo de 2018, o conteúdo da plataforma – democracia, soberania, produção e emprego – que venhamos a construir é que ditará o desenho das alianças. E determinará a feição de uma frente ampla. A esquerda sozinha não avança. Impõe-se atrair forças ao centro. Quais?

Ora, esquerda, direita e centro – digamos assim, de modo simplificado -, refletem interesses de classe e de segmentos de classe reais existentes na sociedade. Individualmente, pode ser que muitos atores já não venham a marchar com a oposição. Mas surgirão novos representantes do sentimento de insatisfação da população.

Esta será uma variável significativa no evolver da situação após o réveillon. Preparemo-nos.

O autor escreve em português do Brasil

* Médico, vice-prefeito do Recife

Nota do Director

Reproduzimos este artigo ao abrigo de um acordo de cooperação Portal Vermelho / Tornado.

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