Diário
Director

Independente
João de Sousa

Segunda-feira, Janeiro 24, 2022

Denunciantes

José Cipriano Catarino
Professor (aposentado) de Português. Licenciado em Estudos Portugueses e Franceses pela Faculdade de Letras de Lisboa. Mestre em Linguística pela mesma faculdade.

Manhã de segunda-feira, a arrumar a mala para a escola.

Mãe, a minha bata?

Ainda está molhada, sempre a chover, não enxugou, não a levas.

A professora bate-me!

Bate-te lá agora! Quando entrares, vais-lhe logo dizer que eu não ta mandei porque ainda está ensopada, com este tempo não enxugou.

Bom, que remédio! Pelo caminho, encontro colega, mais velho.

E ele: Tenho de voltar a casa, esqueci-me da bata!

Sempre fui fala-barato. Do género que fala sem pensar: Ora, não precisas, quando a professora te perguntar por ela dás uma desculpa qualquer!

Mas ele voltou atrás. Afinal, estava a meia dúzia de passos de casa.

Entramos. José Cipriano, a tua bata?

Minha senhora…, e repeti a desculpa encomendada pela minha mãe.

A professora, compreensiva, ia passar a outro menino quando o meu vizinho se levanta e fala acusador:

Minha senhora, eu voltei a casa para buscar a minha bata, e ele disse-me que não valia a pena, para dar uma desculpa qualquer à senhora professora quando me perguntasse por ela!

O olhar da jovem professora endureceu, o rosto crispou-se. Levantou-se, furiosa, já com a régua em riste: O quê? Vem já aqui!

A tremer, lavado em lágrimas, tentava inutilmente convencê-la de que tinha dito a verdade. A pesada régua bate impiedosa, dor lancinante, dor sofrida também por antecipação enquanto a próxima reguada não martiriza a minha mãozinha enfezada, que por entre gritos e contorções procura, em vão, fugir ao castigo!

Agora a outra mão, para se não ficar a rir desta!

Quem ria era o feliz denunciante, pelo meu sofrimento, pela sua colaboração no exercício da justiça sobre o sabichão preferido da professora.

Então como agora, a justiça era cega, e exercida com imparcialidade — sobre os pobres. Os meninos abastados, “ricos”, como o meu delator, nunca apanhavam mesmo se  burros que nem portas!


Receba a nossa newsletter

Contorne o cinzentismo dominante subscrevendo a Newsletter do Jornal Tornado. Oferecemos-lhe ângulos de visão e análise que não encontrará disponíveis na imprensa mainstream.

 

Receba a nossa newsletter

Contorne o cinzentismo dominante subscrevendo a nossa Newsletter. Oferecemos-lhe ângulos de visão e análise que não encontrará disponíveis na imprensa mainstream.

Artigo anteriorO Farripas
Próximo artigoFabricado em Roma
- Publicidade -

Outros artigos

- Publicidade -

Últimas notícias

Mais lidos

- Publicidade -