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Domingo, Novembro 28, 2021

Ó Diabo, quando é que voltas ao céu?

Onélio Santiago, em Luanda
Bacharel em Ensino da Língua Portuguesa pelo Instituto Superior de Ciências da Educação de Luanda, é jornalista do semanário angolano Nova Gazeta.

“Deus e o Diabo na Terra de Miséria” é uma farsa para teatro de rua - Foto Kiran
Foto Kiran – “Deus e o Diabo na Terra de Miséria”, farsa para teatro de rua

Deus, na sala de audiências, cochichava qualquer mambo no ouvido de Jesus. Acho que estava a nomeá-lo mestre de cerimónia, pois Cristo ordenou, de seguida, que cada um ocupasse o seu lugar.

Diabo, ao contrário do que se esperava, não vinha acompanhado. “Se me avacalharem”, pensou malandramente, “ninguém na terra ficará a saber”. E tinha razão. Embora actualmente uma fofoca entre os anjos seja mambo do dia-a-dia, no tempo em que Cristo regressou ao céu, o mujimbo era punido com fuzilamento.

Acabando de ler o relatório sobre as mais de três décadas de convívio na terra com os demónios, Jesus passou a palavra ao Pai.

– Diabo, meu caro, – disse Deus – no âmbito da minha incomensurável misericórdia e usando das faculdades que eu próprio me concedi, não te vou condenar a dez mil horas de sodomização em grupo, como mandam as regras. Proponho-te um pacto ao qual tens duas opções: ou aceitas, ou aceitas.

Ouvindo a proposta, Diabo sorriu de caxexe. Jesus, por sua vez, observava tudo com o semblante de alguém que esteve a chupar limão sem açúcar. Porém, com a ousadia própria de quem acaba de entrar na casa dos trinta, Cristo revelou, avontademente, a sua opinião sobre o acordo, mesmo sabendo que um gesto daqueles colocaria em causa uma reputação milenar. E prosseguiu.

– Querido Velho, – disse Jesus – considerando que, na terra, garanti que ninguém ia ao Pai sem passar por mim, proponho um intervalo. Preciso revelar um detalhezito que omiti no relatório.

A sala foi inundada de murmúrios. Jesus e Deus, este último com a cara trombuda, retiraram-se por uns instantes. Diabo olhou para cima na esperança de descobrir o que havia depois do céu, mas nada mais viu senão uma imensa aldeia com gente deprimida. “É o paraíso”, disse-lhe um dos anjos, piscando-lhe o olho.

Quando Cristo e Deus regressaram à sala, Diabo foi libertado com a recomendação de voltar no dia seguinte para receber a sentença. No entanto, até hoje, quando lhe telefonam do céu, o desgraçado só diz “não me pressionem, meus! Estou a chegar.”
O autor escreve em PT Angola

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