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João de Sousa

Sábado, Setembro 18, 2021

Dor Urbana

Beatriz Aquino
Formada em Publicidade e Propaganda. É escritora e atriz de teatro. Nascida no Brasil a viver em Portugal.

Laurinha calçou delicadamente uma das luvas de veludo vermelho, aspirou mais uma vez o perfume das meias de seda e inebriando-se de si mesma, arregalou os olhos

Laurinha morava em uma casa simples no subúrbio de uma cidade de Minas Gerais. Estudou em escola pública e havia acabado de se formar em magistério. Ela voltava todos os dias da escola carregando sem mácula, os livros e cadernos encapados com os papéis de presente que a mãe dela, empregada doméstica, recolhia do lixo da casa de sua patroa. Eram papéis coloridos com gravuras e paisagens que Laurinha pensava existir somente em filmes e sonhos.

Laurinha sonhava muito. Tinha uma vida pacata, mas gostava de inventar histórias, dramas e aventuras só para tornar sua existência mais interessante. Sonhava com contos e conflitos. Sagas de donzelas em apuros que sempre terminavam nos braços de um herói ou de um príncipe escandinavo.

É que Laurinha tinha essa mania com a Escandinávia. Achava que tudo lá era melhor. Se esquentava muito ela logo dizia:

“Na Escandinávia deve estar uma maravilha de frescor.”

Se algum homem lhe falava alguma grosseria na rua ela pensava:

“Na Escandinávia os homens são de uma educação de dar gosto! “

Na verdade eram poucas as vezes que Laurinha ouvia um gracejo. Não era feia, mas estava longe de ser bonita. Tinha o corpo esguio como uma hiena faminta e andava sempre curvada como se o mundo real fosse demais pra ela. E era. Laurinha escondia dos outros seus olhos melancólicos e profundos parecendo estar sempre querendo fugir do contato humano. Seu nariz muito comprido e fino contrastava com o queixo curto e com o longo pescoço. Talvez por isso ela sempre fugia das pessoas evitando conversar com elas e quando não tinha jeito, ficava sempre de lado encostada em alguma coluna ou parede parecendo um animalzinho pronto pra se defender de qualquer ataque.

As pessoas do bairro, já conhecendo seu jeito assustado, se divertiam cumprimentando-a efusivamente.

– Bom dia Laurinha! Como vai a sua mãe?!

– Bem… Obrigada por perguntar… – ela respondia e saia se entortando toda de constrangimento e resmungando que na Escandinávia não se assustava as pessoas assim cumprimentando-as sem prévio aviso.

Mas apesar dos poucos atrativos, Laurinha ainda conseguiu conquistar um admirador. Na verdade era um amigo da família. Filho de uns primos distantes do pai dela. Waltinho era uma figura tão esquisita quanto Laurinha. Muito magro e tímido, visitava Laurinha todos os dias. “Porque seus pais faziam gosto.” Ele repetia sempre que chegava.

Os dois ficavam por horas sentados um ao lado do outro sem dizer nada em um silêncio constrangedor. Cada um em seu mundo imaginando talvez uma vida melhor que aquela.

Certa vez, o rapaz de olhar desmazelado encostou a mão ossuda no cotovelo da jovem e ela teve crise de asma por um mês inteiro. Depois disso ele nunca mais a tocou.

E então eles ficavam a maior parte do tempo quietos e em silêncio. As vezes um dos dois resmungava alguma coisa. Laurinha dizia que sua rinite estava terrível aquela semana e Waltinho respondia dizendo que a bronquite dele havia piorado. E os dois concordavam em um coro quase fúnebre :

“É o tempo…”

Os pais, tanto os de Laurinha quanto os de Waltinho, repetiam baixinho sempre que os viam juntos:

“Nasceram um pro outro “

O fato é que nenhum dos dois se interessava muito pelas coisas do mundo e para eles eles tanto poderiam estar ali quanto em qualquer outro lugar que não faria diferença. Mas ali ficavam porque afinal, “os pais faziam gosto.”

Na verdade os pais dos dois além de fazer gosto faziam mesmo era questão que eles saíssem de casa e fossem viver suas vidas.

Os pais de Laurinha principalmente que já estavam cansados de aguentar a filha que para eles coitada, era como ter uma coruja velha dentro de casa “Mau agouro na certa!” Dizia a mãe se benzendo.

O fato é que por ser filha única Laurinha não era nem de longe o orgulho da família. Nascera muito doente e mirrada. “Quase não vingou.” Repetia a mãe. Dera trabalho a infância inteira e só quase aos vinte e dois anos é que se firmara de vez no corpo e na saúde. Mas mesmo assim ainda era um suplício pra mãe aguentar aquele andar de hiena exaurida e aquela voz desanimada e esganiçada da filha pela casa.

Um dia, a mãe, cismada com o fato da filha passar tanto tempo dentro do quarto, resolveu fuçar nas coisa dela. Pegou a chave do armário que vira a filha esconder atrás do baú e ao abrir o móvel ficou escandalizada com o que viu. Benzeu-se toda e saiu em disparada atrás do marido para que ele lhe ajudasse a tomar providências.

Um mês depois lá estava Laurinha saindo da igreja em um vestidinho de noiva tão mirrado e encardido quanto ela. Tentava sorrir, mas por falta de hábito só mostrava os dois dentes da frente e ninguém sabia se ela ia agradecer os cumprimentos ou chorar ali mesmo.

“Mas até vestida de noiva a Laurinha consegue ficar esquisita.” Disse uma tia bem na hora em que ela entrou na nave decorada com flores tão murchas quanto ela.

Laurinha ouviu o comentário, mas não esboçou nenhuma reação. O que era pior, pois quando isso acontecia ela ficava com uma cara paralisada parecendo uma estátua de pedra. Daquelas que o escultor rejeita e que só existe por alguns minutos antes de ser destruída e refeita.

A moça olhava para todos ao seu redor e para o noivo que usava um terno desbotado e puído e pensava:

“Na Escandinávia não deve ser assim.”

Antes de irem para a casinha que haviam alugado para morar, os noivos, parentes e convidados foram chamados para tomar um refresco no quintal dos pais de Laurinha. E enquanto todos dançavam ao som de um violão desafinado iluminados por meia dúzia de lâmpadas fracas penduradas no varal, a jovem recém-casada se esgueirou até o antigo quarto.

Suspirando alto, retirou do decote desnutrido a chave do armário que ainda guardava consigo. Abriu o móvel e estremeceu ao se deparar novamente com o seu altar particular:

Todas as paredes do armário eram revestidas com fotografias de vedetes. Eram mulheres voluptuosas fumando longas cigarrilhas sempre acompanhadas por homens misteriosos e de olhar apaixonado. Havia também ali dentro, peças de vestuário. Corpetes vermelhos, ligas e meias de seda. Tudo parte do arremate que ela fez entre tremores e suor frio, da venda do bazar da dona Herminda que havia comprado um lote grande de coisas do bordel que funcionava no bairro.

Laurinha ainda lembrava do olhar altivo da última “dama” ao deixar a cidade. Lembrou-se também do frisson que sentira ao chegar com as peças em casa sem que ninguém notasse. “Foi o primeiro passo para a sua liberdade.” Pensou enquanto levava ao rosto uma das meias de seda. Um calor lhe subia da barriga até o peito sempre que ela fazia isso e ela se imaginou em algum salão da Escandinávia rodopiando entre veludos, homens e cigarrilhas. Sim ela tinha que ter uma cigarrilha e a sua seria a maior de todas.

Laurinha imaginou que um homem alto com o rosto do Clarke Gable a chamava pra dançar e que ela rodopiava com ele em um luxuoso salão coberto de uma névoa de cigarrilhas e perfume Lancaster.

“Esse deve ser o cheiro da Escandinávia.” Disse ela enquanto seu corpo parecia tomar outra forma:

O calor que crescia por dentro dela tonificou seus músculos, os arrepios que sentia deixou sua espinha ereta, o rubor modificou sua face e Laurinha finalmente sorriu. Era um sorriso gozoso de quem se descobre mulher. Arqueou o corpo inteiro dobrando a espinha dorsal ao contrário como se quisesse tocar o céu com o peito que arfava descompassado. Sim. Ela era mulher e sorria. E nunca mais ia andar curvada na vida.

– A noiva já pode vir cortar o bolo! – disse a voz da sua mãe do quintal.

Laurinha calçou delicadamente uma das luvas de veludo vermelho, aspirou mais uma vez o perfume das meias de seda e inebriando-se de si mesma, arregalou os olhos

e morreu…

Informação adicional

Artista: Henri de Toulouse-Lautrec
Título: Au Salon de la rue des Moulins
Dimensões: 111,5cm x 132,5cm
Tecnica: Óleo sobre tela
Criação: 1894-1895
Local: Museu Toulouse-Lautrec; ALbi, França


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