Diário
Director

Independente
João de Sousa

Sábado, Dezembro 3, 2022

O Gansolino

Beatriz Lamas Oliveira
Beatriz Lamas Oliveira
Médica Especialista em Saúde Publica e Medicina Tropical. Editora na "Escrivaninha". Autora e ilustradora.

Conheço uma menina que vive numa aldeia. Vai à escola todos do dias. Aluna do quarto ano, com dez anos. A Mãe chama-lhe Lina, a Professora prefere o nome Celina.

Um dos sonhos da Celina sempre foi ter um animal de companhia. Acarinhava a ideia de se ocupar de algum bichinho, a quem pudesse dar de comer, fazer festas, levar a passear e, se possível que brincasse e se sentisse feliz nas ausências dela, pois tinha de sair para ir à a escola todos os dias.

Já tinha falado muitas vezes no assunto ao Pai e à Mãe, aproveitando a hora do jantar em que estavam todos juntos. O Pai, o Sr João Esfola trabalha numa tipografia, ou seja, numa empresa onde se imprimem livros e jornais e por isso traz muitas vezes para casa exemplares dos livros que a empresa produz. Lina nunca teve falta de leitura e os livros vão-se alinhando nas prateleiras que a Mãe organizou na sala das refeições. A sala tem uma salamandra e, chegada a casa, a Mãe, antes de começar a arranjar a refeição da noite, acende o lume no lindo aquecedor. Quente e confortável, durante o inverno, Lina faz os trabalhos da escola na mesinha que o Pai lhe mandou fazer no carpinteiro José Afonso, um dos vizinhos da aldeia. De vez em quando espreita a labareda do lume. Nunca disse a ninguém, mas sonha que uma vez lhe pareceu ver uma fada minúscula a dançar nas brasas!

A Mãe de Lina, por sua vez, trabalha no Mini Mercado Zulmirinha, donde traz as frutas e legumes frescos para as sobremesas e para as refeições. A mãe é uma cozinheira de mão cheia, repete sempre o Avô Jacinto quando vai lá a casa, aos sábados, jantar.

O avô Jacinto

Os pais de Lina têm adiado a decisão. Não diziam nem sim, nem sopas, ao desejo da menina de ter um animal de companhia. Foram avisando que seria ela a ocupar-se dele. Perguntaram se a Lina queria um cão ou um gato. Mas, ela não sabia bem como escolher. Sentia que queria um animal quente e carinhoso, fiel mas independente, assim um amigo que pudesse viver ali no quintal. O terreno não estava lá muito bem arranjado, pois os pais não tinham tempo lhe dedicar e o Avô Jacinto, quando vinha visitá-los ao fim de semana, só conseguia impedir o crescimento de ervas daninhas. Já não tinha forças para plantar horta ou ajardinar. Então o quintal das traseiras estava coberto de erva, mas tinha de ser aparada. Até que a Lina gostava do jardim assim meio selvagem.

No jantar de sábado, Lina voltou ao assunto do seu animal de estimação.

O Avô estava a ouvir, muito atento, ficou com a colher da sopa parada a meio caminho entre a boca e o prato e exclamou:

_Lina, talvez eu tenha encontrado o animal de quem vais cuidar e que ainda há-de ajudar os teus pais a tratar do quintal lá das traseiras! O terreno está tão abandonado, precisa de um amanho!

_Como assim, Pai? Qual é a sua ideia _ perguntou interessada a Mãe Tina.

_ Lembrei-me que há aqui na rua, ali mais abaixo, em frente ao fontanário, uma vizinha, a Teresa, que tem a gansa a chocar cinco ovos! Ela estava a falar com a Custódia, a costureira, e a referir que não podia ficar com a ninhada toda, pois não tem espaço que chegue. Estava a dizer que pelo menos dois gansinhos queria vender.

_ Um ganso? _exclamou Lina maravilhada. E um ganso pode ser domesticado?

_Pode, isso, eu sei que pode. São belos animais de guarda e podem ser ensinados tal como se ensina um cão!

Lina estava encantada. Agora sim, sentia que uma bela ave branca, pesada, a comer toda a erva do quintal, juntando-lhes as sobras das refeições, sim, podia ser um animal feliz, a brincar cá fora no espaço inútil que já tinha dado azo a tantas conversas.

O lanche da Lina

_ Eu gostava do ganso! Mas como é que ele me vai conhecer?

_ Sabes, Lina, os gansos quando nascem afeiçoam-se à primeira pessoa que veem. Quando os primeiros ovos começarem a estalar e os bicos deles começarem o trabalho de partir a casca, combinamos com a Teresa. Ela chama-nos, para o irmos buscar. Trazes o gansinho logo contigo e ele dedica-se a ti.

_Isso era mesmo bem pensado _ acrescentou a pai da Celina. Um ganso, se não me engano, pode durar os seus 50 anos! Vais ter um animal de estimação para a vida toda!

_Ah! Exclamou a menina, então não me acontece o mesmo que à minha amiga Ana. O cão lá de casa dela já era muito velhinho e morreu. Ficaram todos tão tristes! O Avô pode fazer o favor de perguntar à Dona Teresa se ela nos vende o gansinho?

_Tomei a liberdade de perguntar antes de trazer a conversa para a mesa. Se os teus Pais estão de acordo, daqui a duas semanas podes ter o teu bichinho. Como lhe vais chamar?

_ Gansolino ou Gansolina, conforme seja menino ou menina! Ele gostará que eu lhe faça um laço para o pescoço enquanto esperamos que nasça?

O Avô Jacinto de repente ficou com tosse e esfregou a bochecha com as costas da mão. A mãe Tina tirou o lenço do bolso e assoou-se. O Pai João, tirou os óculos e limpou-os.

E a Lina perguntou:

_Porque é que de repente ficaram todos tão calados?

 

Gansolino ou Gansolina


Por opção do autor, este artigo respeita o AO90  | Ilustrações de Beatriz Lamas Oliveira



Receba a nossa newsletter

Contorne o cinzentismo dominante subscrevendo a Newsletter do Jornal Tornado. Oferecemos-lhe ângulos de visão e análise que não encontrará disponíveis na imprensa mainstream.

 

Receba a nossa newsletter

Contorne o cinzentismo dominante subscrevendo a nossa Newsletter. Oferecemos-lhe ângulos de visão e análise que não encontrará disponíveis na imprensa mainstream.

Artigo anterior
Próximo artigo
- Publicidade -

Outros artigos

- Publicidade -

Últimas notícias

Mais lidos

- Publicidade -