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João de Sousa

Quarta-feira, Junho 19, 2024

O Grito

Rui Miguel Duarte
Rui Miguel Duarte
Filólogo; investigador do Centro de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

Poema inédito de Rui Miguel Duarte

The Scream, 1893 – Edvard Munch

The Scream 1893 – Edvard Munch

O Grito

O que faz abrir a boca
é a passagem de tudo ao nada,
o vento extinguiu-se,
nem um volume de brisa
para o fulvo do céu,
como as nuvens de Júpiter
aí foi o Munch buscar os contornos
para os turbilhões azuis das distâncias
revolvidas nas águas

é então que o Grito se estende,
desenha as mãos, molda o rosto
e modula o corpo,
domina a terra e abala o céu,
é um ultra-som baixo
que penetra nos olhos e lhes extrai,
verdastros, os globos,
liquefeitos na sopa do horror

nele cabe a doca de Oslo,
a mortalha parda do fiorde,
os transeuntes na madeira da ponte
em fuga de Outono caído
nele entra o universo todo
nado morto na cabeça,

só não entra a palavra,
uma apenas,
que tão vasto silêncio ela sufoca

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