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Domingo, Fevereiro 25, 2024

O Melão de Descartes

Yvette Centeno
Yvette Centeno
Licenciou-se em Filologia Germânica, e e doutorou-se com uma tese sobre A alquimia no Fausto de Goethe. É desde 1983 Professora Catedrática da Universidade Nova de Lisboa, onde fundou o Gabinete de Estudos de Simbologia, actualmente integrado no Centro de Estudos do Imaginário Literário.

Nesta obra se recordam alguns dos mais célebres sonhos de grandes pensadores e filósofos, vistos à lupa por Marie-Louise von Franz: de Themístocles a Descartes e Carl Gustav Jung, a autora vai delineando, com a sua habitual erudição e sensibilidade, os caminhos que conduzem à “fonte oculta do conhecimento de Si”.

A célebre frase atribuída a Pitágoras, “conhece-te a ti mesmo”, não simplifica, antes chama a atenção para a dificuldade que essa indagação, do Ser e do Eu, representa para a humanidade em geral, mas mais ainda para os pensadores, os filósofos, em particular.

A via dos sonhos tem de tomar em consideração que o sonho (salvo excepções muito concretas) é a expressão de um drama, ou melhor, de uma narrativa interior que, ao invés das narrativas míticas fundadoras (que dizem respeito ao colectivo, à sociedade) diz directamente respeito ao indivíduo que sonha e ao seu processo de desenvolvimento e amadurecimento intelectual e sobretudo emocional. Pois o discurso não é diurno, é nocturno, provém das estruturas profundas do inconsciente.

Reconhecendo, com Freud, que há sonhos provenientes de conteúdos conscientes relativos ao dia que passou e suas experiências, Jung chama contudo a atenção para um outro conjunto: o de conteúdos que se “constelam”, por assim dizer no inconsciente, e se reorganizam, se me permitem o termo, de forma a-lógica, e naturalmente surpreendente para o sonhador, que no sonho é sujeito e objecto do processo psíquico que nele tem lugar.

O sonho, com a sua linguagem e suas imagens outras funciona ora como complemento e compensação, ora como chamada, mais directa ou indirecta, de atenção (será o caso para o sonho de Descartes) ora como o olhar de outrem, um olhar distante e aparentemente objectivo, pertencendo a outra esfera da psyche, a que Jung designou como inconsciente colectivo.

A designação de inconsciente colectivo confere dimensão arcaica, mítica, histórica ao processo narrativo. Mais tarde Jung viria a chamar “psyche objectiva” ao inconsciente colectivo, pois fora muito discutida e criticada esta sua concepção, principalmente por Freud, como se vê na correspondência que trocaram, e pelos seguidores da escola freudiana.

O estudo dos antigos alquimistas, no caso de Jung como no de M.L.von Franz, ajudou muito ao entendimento desta nova interpretação das imagens e situações consteladas nos sonhos.Um dos autores mais citados é Gerhard Dorn (c.1530-1584) em cujas obras se descrevem os vários aspectos da experiência da “psyche objectiva” e das alterações de personalidade que dessa experiência resultaram. Para Dorn a obra alquímica tem por objectivo o conhecimento de si mesmo, e é esse o seu nobre fundamento e razão de ser das experiências ( ou das meditações ) efectuadas.

René Descartes, o autor do célebre cogito ergo sum, que António Damásio já discutiu em O ERRO DE DESCARTES, teve um sonho curioso e que o perturbou a ponto de o narrar a um amigo que mais tarde daria conta dele:

No dia 10 de Novembro de 1619, estando deitado a pensar com entusiasmo nos fundamentos do que apelidou de “ciência admirável” teve três sonhos consecutivos nessa mesma noite que entendeu só poderem ter vindo “do alto”. Para Descartes tratar-se-ia de visões, de fantasmas, que o preocuparam pois era certo o seu receio do além e suas manifestações poderosas, que podiam mesmo ser diabólicas tomando conta dos espíritos mais ilustrados e mais bem intencionados. Ao acordar rezou, para afastar tais medos e imaginações.

Indo às imagens mais fortes, distingue-se o facto de:

  1. o sonhador não conseguir andar direito nas ruas por onde um vento impetuoso o levava : tinha de se inclinar sobre o seu lado esquerdo para poder caminhar;
  2. ao querer endireitar-se foi enrolado 3 ou 4 vezes num turbilhão sobre o pé esquerdo;
  3. descobriu um colégio no caminho e procurou abrigar-se aí, pois estava aberto;
  4. foi para a capela do colégio, com a ideia de rezar;
  5. passou por alguém que conhecia e não cumprimentou logo, o que o fez voltar atrás para um tal gesto de boa educação;
  6. mas o vento que soprava não o deixou fazer isso e viu então uma outra pessoa que o chamou pelo seu nome e lhe disse que se ele desejava ir ter com o outro conhecido tinha de lhe levar uma coisa;
  7. Descartes pensou que seria um melão, trazido de um país estrangeiro.

M.L. von Franz dá-nos um resumo do momento histórico vivido pelo filósofo, nessa época a viver na Alemanha, absorvido por completo nas locubrações da ciência admirável da clareza e da ordem que no pensamento do homem como no do criador se harmonizavam, Descartes não tinha tempo, nem cabeça, para mais nada, e os sonhos (a começar por este aqui resumido) tentam despertá-lo para o outro lado de si mesmo: o esquerdo, o do coração e da alma, o dos sentimentos, das emoções que fazem parte integrante do “humano”. No sonho não chega a entrar no colégio, nem na capela, o que o preocupa é o tal conhecido a quem devia ter falado e não falou e finalmente a mais importante das imagens-mensagens: a do melão que seria necessário levar a esse desconhecido para poder estar com ele.

Marie-Louise von Franz

Seguindo M.L.von Franz, a simbólica do melão é clara: pela forma circular (o círculo figura a perfeição do todo), por ser um “fruto da terra”, rico em sumo e tendo no interior “sementes”, sementes que dão origem à vida, como o sémen, as sementes do homem no corpo-terra da mulher.

O nosso filósofo, embora conhecedor das doutrinas rosa-cruz e do pensamento hermético-alquímico, como era natural no seu tempo, buscava no entanto uma outra claridade, a da razão, e pautava o seu comportamento por um modelo ético, ascético e aséptico, certamente excessivo, o que levou o seu outro “eu” a esta mensagem crua, de tão directa, e que tanto o perturbou. O turbilhão de três ou quatro voltas indica a necessidade de passar para o quatro, o número da totalidade, mas também do feminino, o que integra a energia da Anima, do inconsciente.

Citando von Franz, “o quatro tem o significado do feminino, do maternal, do físico, e o três o do masculino, paternal, espiritual” (p.140).

Descartes, com a sua visão do mundo e do homem, expressa no “penso logo existo”, tinha cortado a raiz mesma da existência, pois não se pode separar o físico do psíquico,considerando na mente humana apenas a dimensão racional e abstracta.

O real assusta o nosso filósofo que, no sonho, ao ser forçado a andar sobre o lado esquerdo, está sempre com medo de “cair”.

O melão, imagem redentora, ao fim e ao cabo, representa no sonho de Descartes “uma ordem luminosa latente inerente à escuridão, manifestando-se de um modo súbito e inesperado” ( von Franz, p.145).

Sem mais, concluo com Santa Teresa de Ávila: não foi ela que disse, em dia de jejum, sendo apanhada a comer, o jejum está muito bem, mas perninhas de rã são perninhas de rã!


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