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Domingo, Fevereiro 25, 2024

“Para uma cartografia da noite” de Álvaro Fausto Taruma

Delmar Gonçalves, de Moçambique
Delmar Gonçalves, de Moçambique
De Quelimane, República de Moçambique. Presidente do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora (CEMD) e Coordenador Literário da Editorial Minerva. Venceu o Prémio de Literatura Juvenil Ferreira de Castro em 1987; o Galardão África Today em 2006; e o Prémio Lusofonia 2017.

Anotações para um possível prefácio.

O ofício da escrita definitivamente não é para todos. Podemos afirmá-lo com inteira convicção.

Mas neste caso específico é claro o talento nato da poética deste jovem autor moçambicano que emerge das águas sagradas do índico.

Por isso, destemido, reivindica com razão “Um lugar onde possa fazer amor comigo mesmo, com os halos que se percutem na memória”, fazendo lembrar a fala de Zaratustra que terá dito “E logo que experimenta ternas emoções o poeta pensa que a própria natureza está apaixonada por ele, e que se lhe acerca ao ouvido a sussurrar segredos e palavras carinhosas: é disso que se gabam e vangloriam perante todos os mortais”

Não deixa de ser significativo que esta obra tenha emergido das margens da Literatura moçambicana onde abundam jovens com enorme potencial criativo, embora nem todos com este nível de maturidade. E tudo isto no momento certo, acrescentaria eu para completar a equação.

O tempo fará a necessária filtragem, que não nos cabe definir enquanto protagonistas da mesma arte.

Para quem o conhece bem certamente perceberá que há uma fusão permanente do autor enquanto poeta, do país que o viu nascer e o retêm e do homem que nele habita! Por isso, claro e conciso vai afirmando “Entristeço-me sempre que me revejo neste trapezista solitário no circo cada vez mais vazio e assustador de onde só se aplaude os malabaristas desenfreados da democracia”. Ouviram o poeta? Tê-lo-ão percebido?

A densidade das palavras não se mede pela sua extensão. É o que é, não é?

Por isso o vate mais uma vez e sem se deter acrescenta “De certo é belo o meu país mas deste modo custa-me vê-lo com a magia que empresto ao meu olhar, e não se espante no dia que tão cedo vier a bater-lhe a porta com uma carta de demissão nas mãos. Pois pensei, erradamente, que o fogo da paz pudesse arder tão alto, em labaredas laboriosamente trabalhadas sem faúlhas com falhas que nos pudessem prender à prisão claustrofóbica da escuridão”.

Felizmente este  poeta prova estar  acordado numa “escuridão” sem luz que o inspira!

Estranho? Nem por isso. Como dizia o poeta libanês Kahlil Gibran : “O homem é dois homens; um está acordado na escuridão, enquanto o outro dorme na luz”.

Lê-lo é rever a grande massa da juventude inconformada e por vezes rebelde que sonha novos futuros sem  deixar de navegar com a esperança como bússola.

Por isso diz convicto “De palavra em palavra se faz a minha lavra, expressa por entre os interstícios das páginas, que tal como os da terra se moldam, e decifra-se a safra que em frases se alonga, trespassados os ciclos ou as fases distintas, desde a veredicta semente ao chão inscrita até ao desabrochar do futuro em que a esperança acredita”.

É claro o navegar deste lavrador de palavras num punhado de versos cristalinos, transparentes, com a pureza de um mar despoluído e a maturidade de um velho imbondeiro guiado pelas sabedorias antigas.

Embora afirme lamentoso “Fui um errante certeiro nos arremessos que fiz”, dificilmente será um errante na arte da escrita. Na verdade, como dizia Gibran “A vida é uma procissão” e muitas luas nascerão, e por isso “Possa Deus alimentar os superabundantes”!

Há um barco livre que habita os Poetas. Só o verdadeiro amor pela arte o consegue apreender e captar.

Segundo Rilke : “…o criador tem de ser um mundo só seu e tudo encontrar em si mesmo e na natureza a que se uniu”.

É o caso deste Poeta que tudo busca em si e no universo a que se uniu naturalmente, fundindo-se integralmente nele. Como prova a sua reivindicação pensada, quando diz : “Quero um barco onde eu seja veleiro dos meus próprios desejos, onde o remo e o mar se entrelacem num passo rumando aos meus ensejos”.

Terminaria citando Virginia Woolf que disse “As obras de arte são de uma solidão infinita e nada as pode abordar pior que a crítica” e acrescentaria eu que “Por isso se torna difícil analisar criticamente um autor e uma obra poética que respiram e transpiram magia pelos poros, e que a fluidez da escrita o denunciam de forma singular”!

É esta a vitória dos poetas, é esta a cruz, é esta a missão !!! E como acredito que a inteligência dos poetas e escritores precisa de viver num mundo mais amplo do que aquele a que as sociedades em que vivemos traçaram tão mesquinhos limites, só posso finalizar dizendo: “Bayete poeta Taruma”!

 

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