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Segunda-feira, Setembro 20, 2021

Reflexões sobre um aniversário

Carlos FinoUm curso que ficou célebre no país por dele terem saído uma série de figuras que se haveriam de notabilizar em diferentes áreas: das artes, cultura e publicismo à sociologia; do sacerdócio e academia à jurisprudência, diplomacia e administração pública, passando, claro, pela política – esfera em que o actual chefe de Estado é o exemplo mais marcante.

Num ambiente descontraído, tanto quanto o permitiu o habitual formalismo português – de que a própria Faculdade de Direito sempre foi um expoente – os ex-colegas, que a vida dispersou por diferentes sectores de actividade e por vezes colocou até em campos opostos, puderam por algumas horas confraternizar amenamente: voltando a percorrer os antigos corredores e a sentar-se nos lugares marcados – como então se praticava – que cada um tinha no anfiteatro 1 da Faculdade, quando, nos verdes anos, iniciava os seus estudos superiores e pousando, no final, para a tradicional foto de família, na escadaria de acesso, tendo por detrás, na frontaria, os desenhos de Almada Negreiros.

O espírito do tempo – reflexões sobre um aniversário
O espírito do tempo – reflexões sobre um aniversário

Foi, como em geral acontece nos aniversários e efemérides, um breve momento de suspensão do tempo, proporcionando aos participantes a oportunidade de uma reflexão sobre os caminhos percorridos, as realizações alcançadas, porventura também os fracassos, e certamente – já que todos estão para além dos 60 – sobre as vicissitudes e a brevidade da vida.

Não tendo podido participar, limitei-me a seguir o encontro à distância e a rever com alguma saudade – e nalguns casos, confesso, a reconhecer com alguma dificuldade! – os rostos dos antigos colegas pelas fotos e vídeos colocados nas redes sociais. Com isso, vieram à memória uma série de imagens que o tempo não apagou.

Tempo de mudança

Os anos 60 do século passado foram, como se sabe, um período de grande agitação, inquietação e mudança e esse espírito do tempo, como não podia deixar de ser, marcou-nos a todos para sempre.

Esses foram, entre muitas outras coisas, os anos dos hippies, do rock, dos Beatles, do Maio de 68, esse grande movimento contra o autoritarismo, fosse de direita ou de esquerda (“É proibido proibir!”); os anos da Guerra Colonial de Portugal em África (9.000 mortos portugueses, dezenas de milhar africanos) e da Guerra dos EUA no Vietname (para cima de 58 mil americanos e mais de um milhão de vietnamitas mortos)…

No Brasil, foram os anos da ditadura e da repressão, mas também da resistência e da criatividade: os anos da Bossa Nova, João Gilberto, Tom Jobim e Vinícius de Morais; os anos do Tropicalismo e também os anos de Chico, Caetano, Gal e Gil… Roberto e Erasmo Carlos, da Jovem Guarda e tantos outros… Como ficar imune ou impune a tudo isso, quando se tinha vinte anos?

Mas cada um viveu, naturalmente, esse período à sua maneira – ora inserindo-se na corrente e participando no movimento em prol da liberdade e da mudança, ora olhando de fora, mais ou menos desconfiado e distanciado, ora participando mesmo na contra-corrente, preferindo a ordem e a estabilidade, o status quo à revolução.

Tempo de desigualdade e contrastes

Esse foi também um tempo de profunda desigualdade e contrastes sociais, que eram bem nítidos ali, na própria Faculdade de Direito de Lisboa. Embora todos fôssemos, em termos genéricos e no quadro de fundo da realidade social portuguesa da época, verdadeiros privilegiados – nos anos 60, o analfabetismo em Portugal ainda rondava os 40% e apenas 0,5% da população tinha formação superior! – entre nós as diferenças também eram abissais.

Havia os que vinham de carro (alguns de luxo e trazidos por motorista!); os que chegavam de transporte público de algum bairro da capital e ainda aqueles que, como eu, vinham da periferia, tendo que se levantar de madrugada para apanhar pelo menos dois transportes – camioneta, primeiro, comboio, depois, desembarcando nalguma estação de onde seguiam(os) a pé até à Universidade…

Os que vinham de famílias já estabelecidas, com parentes no governo e bibliotecas bem fornecidas em casa, tinham naturalmente imensa vantagem sobre os que não possuíam nada disso e se adaptavam mal ao sistema das sebentas, cadernos de resumos em que os professores sintetizavam as aulas, por vezes numa linguagem inacessível ao comum dos mortais…

A própria indumentária nos diferenciava socialmente – uns vinham de fato completo, camisa e gravata de seda, verdadeiros embaixadores avant la lettre, outros faziam ponto de honra em nunca usar gravata, descuidados elegantes, meio anarquistas à la française, outros ainda imitavam o figurino rico em versão modesta da rua dos Fanqueiros.

Mas o que mais nos diferenciava eram as nossas opções sociais e políticas. Enquanto uns militavam activamente na Associação de Estudantes (de existência semi-legal, instalada na cave da Faculdade) – onde por contraste com o regime se praticava uma vibrante vida democrática, com eleições para os órgãos dirigentes, reuniões, assembleias-gerais, actividades formativas e lúdicas diversas de apoio aos estudantes, outros preferiam manter-se à margem e não se envolver nesse “antro da esquerda”, onde os mais empenhados eram espiados por funcionários da Faculdade ao serviço da PIDE, a polícia política de Salazar.

Meio século volvido, cada um fará por isso um balanço diferente. Mas o plano em que todos hoje se encontram, sem excluir as clivagens que permanecem, é sem dúvida o da democracia. Quem estava próximo do regime de Salazar certamente compreendeu que o autoritarismo retrógrado de direita não tinha nem tem perspectivas; os que então militavam na esquerda também perceberam, já antes, mas sobretudo com a queda da URSS, que a ideia de liquidar o mercado é uma utopia perigosa e sem futuro.

Portugal, entretanto, mudou muito, apesar de ainda haver ecos do atraso de que partimos. Por outro lado, novos desafios se colocam e não menores do que aqueles que a nossa geração teve de enfrentar. Se aqueles que se vão seguir puderem tomar inspiração do empenho e da dedicação com que os melhores de nós desempenh(ar)am as tarefas que lhes couberam, poder-se-á afirmar “missão cumprida”. (Não soa pós-moderno, mas é muito anos 60!).

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