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Quarta-feira, Junho 19, 2024

Sebastião e a melrinha branca

João Vasconcelos Costa
João Vasconcelos Costa
Investigador e professor universitário (Virologia Molecular), depois dirigente de um instituto de investigação, ensino e cooperação, hoje reformado.

O Sebastião era o único preto de S. Miguel, na minha meninice. Jovem não era, que preto que tinta, três vezes trinta. Pretos lá tinha havido muitos, muito antes, desde tempos remotos do povoamento, mas foi uma escravatura predominantemente doméstica e de pequenos grupos. Isto tornou mais fácil que se fossem miscigenando, diluindo com o seu sangue o dos colonos com pergaminhos. O mal é aparecer, ao fim de séculos e por capricho da genética, um menino muito encarapinhado e de lábio grosso em famílias de grandes costados e com registo nas Saudades da Terra.

Vou contar-vos a confidência especial com que o Sebastião me honrou, o da sua palmeira de almas, com a sempre presença de sua filha. Toldado, disse-me o Sebastião: “Tu também vais ter uma palmeira de almas, mas não vai ser bem palmeira, és mais moderno, vais ter poste com fios, por isso tenho que te ensinar umas coisas”. E contou-me então o seu grande segredo, o da Lianor.

A filhita Lianor tinha sido o seu grande tesouro, uma febre africana roubou-lha em dois dias. De onde vinha esta filha? Bem entrado na sua segunda década, depois de muitos amores de praia, à luz das velas em pedido de socorro a Iemanjá, Sebastião cruzou-se um dia na Mutamba com a mulata Madalena. Aquela cara de chocolate de leite, as pestanas de meio metro, o menear das ancas, os seios provocadores, na medida e firmeza justas ao milímetro, a sensualidade evidente em cada gesto, deixou-o em transe. À sua maneira abrutalhada, de vadio sem maneiras, Sebastião cortejou-a, a princípio sem sucesso porque Madalena não tinha sido feita para aquela porcaria de namoro.

Tinha sido educada com maneiras. Acolhida órfã, quase mamante ainda, pelas freiras da Conceição, dividiu a sua infância entre pesadas tarefas domésticas para as freiras, como a ida cinco-matinal à água, com duas grandes latas de querosene, e a compensação da instrução primária, no banco de lá detrás, nada de confusões com as meninas do colégio. Aos doze anos, as freiras entenderam que Madalena estava pronta para a vida. E a vida foram os anos de adolescência perdidos na fadiga de lavadeira de casas de branco.

Sebastião não conhecia nada disso de preta menina freirática, não sabia como lidar com aquela mulata tão estranha, mas acabou por ter recompensação, mais por culpa da sensualidade africana que estava adormecida em Madalena, mas prontinha a despertar. Convidou-a para sessões de capoeira, em que exibia os seus dotes. Parlapiava sedutoramente e contava-lhe histórias da vida que ela nunca imaginara no convento. Pelo meio, deu-lhe o gosto de uma cachacinha discreta numa tasca da Ilha ou, em dias de sem moeda, uma aguardente de caju da vavó Makeba. Aos poucos, foi-lhe falando da sua perícia sexual e, no meio das conversas de mesa de tasca, lá lhe ia ilustrando essa perícia com toques sábios, recatadamente, por debaixo da mesa, numa luta de saia acima e saia abaixo, entre impulsos contraditórios de Madalena. Lá voltava ela ao seu musseque, descalça pelo capim, formosa mas não segura, pé quente da gostosura, pé frio da educação das freiras, pé e outro subindo para sítio que ela não sabia bem se quente ou frio.

Ai, mas o desejo burburante daquelas carícias! E o dengo de Sebastião nos bailes do Clube do Cazenga! Beijo roubado à saída, misturado com mão nas saias, afogueava Madalena, que, por fim, se rendeu. Não a casamento como as freiras lhe tinham instruído, igreja, velas, vestido de noiva. Sebastião não tinha dinheiro para contabilidade de padre. Foi tudo coisa simples, alargar numa semana a cubata de vavó Makeba, com ajuda dos vizinhos, pôr estrado para o colchão, retrato de Iemanjá-Maria na parede. Foram a um velho da Ilha, que lhes deitou a bênção de Nzambi, dos minkisi e dos mikisidos, regressaram aflitos a casa, para o reprimido amor que lhes faltava.

Amor breve! Madalena era exigente, tinha comido comida do puto na escola das freiras, estava habituada a vestido de rendas. Sebastião, entre biscate e biscate, só lhe dava para a chita. O dengo foi-se desvanecendo e, com o correr do tempo, a delícia das carícias transformou-se em simples posse apressada da mulher. Um dia, acrescentado às carências afectivas de Madalena, apareceu um malandro de um marinheiro, todo falinhas doces. Virou Madalena do direito e do avesso, redescobriu-lhe a aversão às freiras. Prometeu-lhe venturas infindas, acenou-lhe com a aventura da vida no puto, para lá a levou, afinal para a pôr a render no Intendente. Há tempos, por lá andei a tentar catar na memória da Madalena. Passei entre polícias de olhar arrevesado, falei com putas e chulos, até encontrar uma velha gonorreica e desdentada que ainda se lembrava dela. Cada vez mais decadente e explorada, já sem serventia que não fosse para as tarefas mais degradadas, Madalena acabou no Curry Cabral com uma sífilis mortal. E assim termina a triste história da Madalena.

Deste amor, ficou a Lianor, entre Sebastião e marinheiro que t’excomungo, quem seria o pai? O Sebastião não tinha dúvidas, porque bem precisava daquela filha. Além disso, Lianor não puxava a pai branco, era mulata como a mãe mas mais arraçada a preto Sebastião. Quando Sebastião embarcou, e até ter arribado a S. Miguel, sempre a sorridente Lianor, numa nuvenzita invisível, o acarinhou, lhe contou coisas infantis nas horas de tristeza, lhe recomendou cuidado com a cachaça, que vavó Makeba não ia gostar. Em S. Miguel, numa grande palmeira fronteira ao liceu, Lianor passou a pássaro. Qual, o que havia de ser? Uma melrinha branca, coisa que a natureza nunca vira. Eu também não a via nessa altura, porque a minha visão das almas só veio muito depois. Hoje sim, quando lá vou e ela se alvoroça com a minha visita. Mas julgo que, às vezes, em miúdo, enquanto o Sebastião ressonava de bêbedo deitado no seu banco, me parecia ouvir um rolchear de repreensão vindo lá do alto da palmeira. Ficam agora a saber porque ele passava tanto tempo no jardim do liceu. Segredo que guardámos até agora, Sebastião e eu.

Nunca mais soube do Sebastião e só muitos anos depois tive a visão renovada de um sonho que anunciava um dote de que não me apercebi durante muitos anos, de ter as minhas alminhas no mastro da minha casa navio. É por isto, por esta passagem de muitos anos por uma zona de esquecimento, que revejo sempre com olhos de rever o “Hook”, partilhando com o Peter Pan amadurecido e burguês a tristeza de ter passado tantos anos de obnubilação da vulgaríssima capacidade de saber voar na Terra do Nunca. Males do emprego, da rotina do dia-a-dia, da ansiedade pela promoção, da preocupação com a tosse dos filhos. Mas os nomes, as palavras e as memórias são a estrutura de nós próprios, mais do que o pensamento elaborado. Auto-se-me-impõe esta regra, ao fim de semana liberto de outros afazeres, num trajecto curto em que a evocação quase devota das açorianices me merecem uns pozitos de ouro da Sininho, para poder voar, se não de facto, pelo menos ao sabor da fantasia.

Como é que vou sair desta história do Sebastião? Pronto, Sebastião, já está. Desde há dias que me aborreces, melro negro danado, poisado no meu mastro das almas. Até um preto engraxador, bêbedo e desgraçado, tem horas em que não suporta o anonimato e quer que alguém conte a sua história. Agora podes ir, com a tua melrinha branca debaixo da asa.

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