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Terça-feira, Outubro 26, 2021

Sobre as águas da vida o silêncio dói

Vítor Burity da Silva, Angola
Ph.D em Filosofia das Ciências Políticas. Doutor Honorário em Literatura e Filosofia. Professor Honorário de Filosofia da Educação. Professor Universitário. Investigador. Escritor.

Num cais qualquer de lisboa, o navio atracar onde centenas, gente que nos espera e quem nos espera?, regressados da guerra do ultramar, trajados a rigor onde que vómitos, o enjoo na viagem, Don Afonso Henriques velho e cansado traz-nos de regresso onde caixões e solidão nos preenche de vazio e dor, onde que traumas a nossa alma

XI

As cascatas deslizam numa sonoridade linda, os peixes mergulham e saltam como se a vida fosse brincar o dia inteiro, os tiros como resmas escritas numa dor ali recriada, as feridas da alma nascem em cada silêncio percorrido nesta azáfama para nunca esquecer.

Não tenho como me recolher, ali tudo é exposto e gritos dos feridos pelo corredor ensurdecem, não ficamos indiferentes nem sequer ausentes, sentimos a incompetência em nós todos os dias, percorrer léguas de mato e nada apenas feridos e mortos, estiolados e desmembrados camaradas fuzilados, inocentes nesta campanha que só a poucos serve e nós carne para canhão neste tão distante das nossas vidas e família e de tudo o mais, tudo parece um inverno permanente que se esbate a cada gesto, tudo é um clima azedo, nada saboreamos e seguimos como nos obrigam a fazer, tudo é triste, feio, frio, medos e raiva.

O mapa para nada serve, guiamo-nos pelo medo, sorvemos o sangue perdido e culpa sem culpa nenhuma, teres de matar para não morrer é ingrato, agente sente apenas o dilúvio das fardas quentes e as máscaras no rosto fazendo-nos disfarçados de floresta e folhagem. As vozes dos nossos são permanentes, insistem em estar juntos a nós sabendo que a distância é real, a minha mãe velhinha ainda espera pelo meu regresso, a minha filha crescendo e tu Deolinda, escreves-me pela noite fora como se o amor estivesse no meu quarto de tenda a afagar-me de tantos ruídos disparados de não sei onde, eu a fingir estar bem para te acalmar com esta ausência tão fria e feia, não vejo a minha filha mas sinto-a como se no meu colo estivesse,

– hoje levo-a ao infantário amor!

mas tudo são delírios, uma febre enfadonha cobre o corpo e a testa arde como se a morte me viesse a visitar!

Visitar o desconhecido é difícil, tudo vai sendo cada vez mais estranho, estudamos os mapas e nada de verdade, leio e estudo os desenhos, onde atacar ou onde se aloja o inimigo, todos os cantos são um possível esconderijo, nós descobertos nessa estranha caminhada, revoltados também, obrigados a fazer tudo isto, tanta a revolta em todos, dos soldados ao médico de campanha desabafos a cada passo, ninguém larga as memórias, ninguém vive sem se recordar do que alguma na vida se havia sido, de tudo um pouco e o soldado quase analfabeto nas trincheiras nem percebe por quê esconder-se, apenas do medo sabe e sente, gritam e disfarçam, noção de que a cobardia os invadirá serem heróis ao menos os contentará.

Na parada preparamos a estratégia. O oficial de dia lê as ordens e determinações do comandante. Ouvimos de soslaio esse aviso e sempre repetido,

– que voltem todos vivos!

raios o partam!, tropa como nós, oficial e nós segmentos de ordens, somos apenas soldados e sem estudos,

– sempre fui camponês, meu comandante!

ainda a matança do porco na aldeia, a imagem da Aldina tatuada num braço e no peito amo-te mãe, lágrimas de sangue jorram, o coração destroçado e que força, os cães ladram atrás das caravanas e seguimos, as nativas pelo caminho acenam, as aldeias vivem um conforto natural e fogueiras para nos receberem, assados e bebida num conforto raro, quem somos nós?, amigos garantidamente obrigados a este percurso que na vida só deixará marcas, nem todas más, áfrica é um continente interessante, por quê esta guerra contra os meus irmãos de cor diferente?, recordo vila real sem mim, quem se recordará de mim?, parti para uma missão de lágrimas, sim, e que destino para o meu regresso?

(s.d.), “Guerra Colonial: tropas coloniais no Cais da Rocha do Conde d’ Óbidos.”, Fundação Mário Soares / AMS – Arquivo Mário Soares – Fotografias Exposição Permanente, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_114823 (2020-6-14)

Num cais qualquer de lisboa, o navio atracar onde centenas, gente que nos espera e quem nos espera?, regressados da guerra do ultramar, trajados a rigor onde que vómitos, o enjoo na viagem, Don Afonso Henriques velho e cansado traz-nos de regresso onde caixões e solidão nos preenche de vazio e dor, onde que traumas a nossa alma,

– sonhei todos os dias com isto!

sussurrava um soldado isolado, o cais do Sodré ao lado e nada, um bar sorver sedes e saudades, marinheiros e prostitutas a vida é curta,

– sobrevivi meu amor!

outro,

– cumpri com toda a sagacidade da pátria!

ninguém a não ser o vento do tejo a repousar um frio sobre que boinas e barba,

– esperas por mim?

o soldado de trás-os-montes sem rumo, quem o viera buscar?, coisa nenhuma, perdemos o rumo e três anos de campanha, venci o mato e perdi a honra de cidadão na minha pátria.

Ainda no norte de Angola eu e tantos, onde ainda comissões, para quando o fim disto tudo, para quando o fim de que Salazar a cansar-me demais, para quando o teu beijo, abraço, leio as cartas e só saudades e dor a aumentarem,

– voltarei amor!

murmurava na tenda onde nada era vida.


Como aperitivo à deliciosa prosa de Vítor Burity da Silva, apresentamos o primeiro capítulo do livro Sobre As Águas Da Vida O Silêncio Dói


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